
O Advogado de Deus parte de duas teses bastante claras: a primeira, de que nada ocorre por acaso — tudo faria parte de nosso destino, ocorrendo na hora prevista por Deus. A segunda, de que a justiça dos homens é falha, porém, aquela de ordem divina não falharia jamais. Por isso, convém aos criadores acompanhar o percurso de um advogado idealista, apenas para rebaixá-lo à sua insignificância face ao transcendental. Através deste caso policial envolvendo espíritos e vidas passadas, Daniel (Nicolas Prattes) descobre que as leis humanas jamais implicariam numa resolução satisfatória ao caso. Era preciso uma forcinha do além.
Por isso, o protagonista corresponde à idealização do herói virtuoso. “Você sabe que não tem nada que eu odeio mais nessa vida do que injustiça!”, ele declara ao amigo Rubinho (Lucas Leto). Embora venha de uma família rica, recusa-se a se beneficiar do cargo prestigioso oferecido pelo pai deputado. Recém-formado, ele o melhor aluno da turma de direito, e apenas aceita causas nas quais realmente acredite. Adiante, descobrirá o amor à primeira vista por Lídia (Lorena Comparato), precisando salvá-la das garras de mafiosos. Não há zonas cinzentas na moralidade deste filme exemplar: os personagens são profundamente bons ou incrivelmente malvados, tendo como destino certo o céu ou o inferno — algo que o diretor Wagner de Assis demonstra de maneira bastante literal.
Não há zonas cinzentas na moralidade deste filme exemplar: os personagens são profundamente bons ou malvados, tendo como destino o céu ou o inferno.
Assim, pode-se falar em uma produção religiosa não apenas pelas referências constantes a Deus e às crenças espíritas, mas, sobretudo, pela insistência na catequese do espectador. O público é tratado como um aluno obediente a quem se decide explicar tudo, com uma clareza pedagógica. Somos avisados sobre quem amar e quem detestar, quais as condutas certas e erradas. Ao final, a moral da história é literalmente verbalizada, e todos os personagens terão a devida punição ou recompensa (as trevas aos malvados; o amor da mocinha aos homens benevolentes). Estamos próximos do terreno infantil devido à simplificação do mundo mediante as ferramentas da narrativa fabular.
A estética acompanha o pressuposto da clareza. O longa-metragem abraça toda a linguagem espírita, consagrada nos referenciais de sucesso dirigidos pelo cineasta, e que certamente valem de referência aos produtores (Nosso Lar 1 e 2, em particular). Isso significa a representação da divindade por meio de uma forte luz branca atravessando a janela; os espíritos enquanto atores translúcidos de bordas enfumaçadas; o passado reduzido a cavalheiros e donzelas; os sonhos premonitórios de poucas cores. Longe de qualquer originalidade ou ousadia, Assis reproduz o imaginário da fantasmagoria moralista e corretiva (espíritos não nos assombram, eles dão lições de moral).
É certo que, observando pela lógica racional, as soluções adotadas pelo roteiro dificilmente se sustentam. Perdido em meio à ausência de provas, num caso envolvendo a tentativa de assassinato de uma criança, Daniel é auxiliado por uma voz do além, que literalmente revela onde encontrar o endereço da testemunha. No entanto, estas mesmas figuras, que detêm todo o conhecimento e podem transmitir informações valiosas, contentam-se em fornecer enigmas pouco claros adiante, suplicando ao jovem para “fazer o que é certo”, e “escutar o coração”. Ora, se eles têm o poder de impedir o disparo de revólveres, por que estes mortos se mostram tão passivos durante o resto dos trâmites legais?
Em contrapartida, os autores provavelmente não esperam o mínimo escrutínio em uma obra destinada a pregar valores morais. Como esperado deste subgênero cristão, os rivais de vidas passadas se reencontram para acertar as suas pendências, e a mocinha morta no passado (em uma sequência risível, graças à sua improbabilidade) corre o risco de perecer novamente caso os pretendentes não ponham fim à rixa. Os criminosos parecem, por um lado, desesperados com a descoberta de suas ações, embora, em simultâneo, mostrem-se tranquilos porque comprarão o auxílio dos poderosos (há muitas falas acerca da impunidade aos milionários no Brasil). Ora, qual dos dois prevalece? Eles têm muito medo, ou medo nenhum?
Bom, deixem-se de lado as incongruências (esta lista poderia ocupar um texto crítico inteiro). Como os criadores se focam na retórica, que se volte então a certo imaginário da justiça divina versus justiça terrena. Os diálogos são marcados por grandes frases de efeito visando demonstrar a prevalência da primeira sobre a segunda: “Deus me tirou tudo! Existe justiça?”; “Deus é bom e justo demais. Não posso agradecer mais a Deus pela vida que tenho”; “Vamos ver tudo sob o ponto de vista espiritual”. Isso sem falar nas grandes tiradas de cunho inspirador ou romântico: “Parece que a gente já se conhece de outras vidas”, “A única coisa que eu sei é que a gente não pode perder as oportunidades que a vida nos dá”.


Devido à configuração tão artificial, nem mesmo atores talentosos se veem capazes de injetar alguma subjetividade aos arquétipos ambulantes. Surpreende que alguns nomes bastante promissores, ou consagrados, demonstrem trabalhos fraquíssimos, seja porque foram dirigidos de modo a ressaltar sua vilania ou ingenuidade; seja porque a premissa da clareza os conduz ao exagero, sublinhando os propósitos bastante óbvios de cada cena. Os choros, desesperos e brigas em geral (ou seja, os instantes de maior carga emocional) se provam os mais frágeis em termos cinematográficos. Já os efeitos visuais (a luz branca da virtude, a luz negra da escuridão) geraram alguns risos de escárnio durante a sessão de imprensa, sobretudo pelo emprego de uma luzinha branca sugerindo gravidez.
Talvez o público-alvo de O Advogado de Deus não se importe com estes recursos — já empregados em Nosso Lar 1 e 2, Ninguém é de Ninguém, Amor Assombrado, Kardec e afins. Enquanto peça assumida de uma ideologia (o espiritismo kardecista), cumpre seu papel de ensinamento. Assim, seria incompatível por parte da crítica cobrar originalidade ou refinamento de uma parábola cuja moral constitui o meio e a finalidade. Como analisar por meio da razão e da lógica uma obra focada inteiramente nas emoções e nas virtudes? Em um país cada vez mais evangélico (tanto na política quanto na cultura), esta iniciativa funciona como esforço numa disputa de narrativas, visando retomar a popularidade expressiva que os dramas espíritas conquistaram alguns anos atrás. A disputa não parece nada ganha.




