Mesmo dentro do círculo cinéfilo, poucas pessoas conhecem a história de Eva Nil. Nascida no Egito, ela se mudou com a família para Minas Gerais, onde, anos mais tarde, se tornaria uma das maiores atrizes do cinema silencioso brasileiro. Trabalhou, entre outros, em Valadião, o Cratera (1925), Na Primavera da Vida (1926), Senhorita Agora Mesmo (1927) e Barro Humano (1929).
No entanto, a filha do fotógrafo Pietro Comello sonhava com cinema hollywoodiano, de grandes figurinos e cenários, muito diferente das produções mais naturalistas de Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga. Por isso, ainda nova, escolhe se retirar do cinema e seguir carreira como fotógrafa, no estúdio do pai.
Esta trajetória constitui o tema de O Silêncio de Eva, uma mistura de documentário e ficção, pela diretora Elza Cataldo. Ela convida a amiga e atriz Inês Peixoto para servir de fio condutor a esta investigação. A artista do Grupo Galpão se une a outros membros de sua família — o marido Eduardo Moreira e a filha Bárbara Luz, ambos atores — na recriação de filmes incompletos, a partir dos dados sugeridos pelos materiais de arquivo.
Assim, mesmo que os filmes estrelados por Eva Nil estejam majoritariamente perdidos, o longa-metragem evoca a importância desta jovem que enfrentou o status quo ao exigir personagens mais complexas e salários maiores às mulheres. A cineasta Elza Cataldo conversou com o Meio Amargo sobre o projeto:

Como soube do interesse da Inês Peixoto por Eva Nil?
Elza Cataldo: Alguns anos atrás, a Inês viu uma exposição sobre a Eva Nil, com retratos feitos pelo pai dela, e se encantou com aquelas imagens. A Eva Nil é uma atriz que pouca gente conhece, é uma história praticamente desconhecida, e aquilo chamou muito a atenção da Inês. Esses retratos estão no filme também, e são instigantes porque fazem uma caracterização: a filha assumia um personagem, com penteado, maquiagem, figurino específicos. Nem todas aquelas personagens foram filmadas, porque a filmografia dela é pequena.
Mas a Inês trouxe esta história para mim. Nós somos amigas próximas, já trabalhamos juntas em outros filmes. Ela me sugeriu que a Eva Nil renderia uma história inédita, de certa forma. Então eu comecei a estudar, ler, pesquisar. Sou mineira da Zona da Mata, ali perto de Cataguases. Esta é uma região que eu conheço muito bem, e aquilo também me chamou a atenção. Surgiu a oportunidade de um edital de documentário, então a gente entrou nesse edital e acabamos ganhando. Neste processo, chamamos também a Christiane Tassis como co-roteirista.
Fiquei pensando a respeito do título, porque ele define muita coisa de um filme e, principalmente, define a minha relação com o projeto. Depois de um tempo estudando, lendo e escrevendo, o silêncio vinha, e eu falei: “Pronto, é isso! Nós vamos ganhar o edital!”. Senti que o título casava muito bem com a história, por causa do silêncio do cinema silencioso, e pela questão da mulher na história do cinema.
O filme também é uma homenagem aos atores. Uma homenagem à Eva Nil enquanto atriz, e por extensão à Inês, ao Eduardo e à própria Bárbara.
Você tinha o desafio de apresentar a trajetória de uma atriz cujos filmes estão praticamente desaparecidos. Como encarou esta lacuna?
Elza Cataldo: Já que a gente não tinha os filmes, o caminho era pegar todas as informações sobre cada enredo, cada narrativa, e fazer uma exaustiva pesquisa de imagens. Encontramos as poucas imagens que existem dela, focada nos retratos, e pensamos, em termos de linguagem, numa reconstituição. Decidimos reconstituir os retratos da Eva Nil com Bárbara Luz, a filha da Inês e do Eduardo. Não sei como você percebeu isso, mas existe uma semelhança imensa entre a Eva Nil e a Bárbara. É uma coisa impressionante. Então fizemos uma pesquisa de figurino e de arte muito detalhada, para recuperar essa sensação de que ela foi fotografada pelo pai.
A gente trouxe também para o filme esse paralelo entre uma família de artistas, que era a família de Eva Nil, e a família de artistas composta por Inês, Eduardo e Bárbara. Como era pandemia, eu sugeri para a Inês fazermos na casa dela. Afinal, a Eva Nil também trabalhava na casa com o pai, com a mãe, que era figurinista e fazia participação nos filmes, e até o irmão pequenininho. A gente transpôs aquela relação da arte da família de Eva Nil para a família de Inês. Eles têm uma relação muito profunda com a arte. A Inês e o Eduardo vêm do Grupo Galpão, com 40 anos de estrada. Então, de certa forma, o filme também é uma homenagem aos atores. Uma homenagem à Eva Nil enquanto atriz, e por extensão à Inês, ao Eduardo e à própria Bárbara.
A gente tinha alguns fragmentos do roteiro de Senhorita Agora Mesmo, então preenchemos as lacunas desses fragmentos, e pensei: vamos fazer um filme dentro do filme, na linguagem do cinema mudo, para dar vida à nossa Eva. Foi muito divertido fazer aquilo, tudo dentro da casa da Inês. A gente montou o estúdio, com tecidos e uma florestinha. Nós usamos muitos artifícios. A princípio, a tarefa do documentário era realmente impossível, porque são filmes que não existem, mas a gente explicitou as nossas ferramentas de pesquisa em vários formatos.

De fato, é comum encontrar depoimentos e material de arquivo em documentários, mas as recriações fictícias surpreendem, assim como as conversas despojadas entre os três familiares. Como via a importância deste caráter lúdico ao lado do aspecto fatual, informativo?
Elza Cataldo: São vários registros e formas de registrar. A gente optou por captar de forma orgânica essa relação que existe na vida real entre o pai, mãe e a filha atriz. É certo que o tema foi trabalhado antes: existia uma roteirização. Então não foi uma coisa completamente solta, mesmo assim, existia a verdade da vida deles. Achei interessante recuperar esses diálogos de pessoas que fazem arte no Brasil. Eduardo até fala isso: “Eu faço arte, e sem isso, não sei viver”. Inês e Bárbara dizem coisas semelhantes. Era uma forma de representar uma vida, já que a gente não tinha a vida da Eva Nil.
Além disso, eu queria trazer uma leveza, sabe? Um humor. Isso vem muito da Inês, uma atriz que circula bem entre o drama e a comédia. Para falar a verdade, eu tinha que parar de dirigir para rir! Mas foi muito divertido. A Inês também ajudou com os outros atores, porque aqueles dois que interpretam os ladrões, são, na verdade, um assistente de pesquisa, e o pintor da equipe de arte. Eles tinham o tipo físico adequado, e os colocamos ali. Como eles não são atores, eu tive que fazer uma preparação junto com a Inês. Ela tem muita experiência com o jogo cênico, com este processo lúdico, porque o Galpão trabalha bastante com o processo criativo. Aí a gente conseguiu trazer isso para o nosso filme.
Eva Nil foi corajosa em não continuar [no cinema], assim como nós somos corajosas em permanecer tentando.
O filme destaca Eva Nil enquanto mulher à frente do seu tempo, que exigia papéis complexos e melhor remuneração. Como percebe este caráter excepcional dela?
Elza Cataldo: É extraordinário você pensar que uma jovem de 18, 19 anos, na pequena cidade de Cataguases, interior de Minas, pudesse ter essa compreensão. Isso ajuda a gente a perceber que Eva realmente estava à frente do seu tempo. Vale lembrar também que ela teve um pai muito interessante. O Pietro Comello levava a Eva para o cinema, e assim ela conheceu o Humberto Mauro. Essa família tinha uma mentalidade cosmopolita. O Pietro veio do Egito, falava várias línguas. Então, a gente não pode dizer que Eva tenha sido criada no interior de Minas da mesma forma que eu fui, e tantas outras mulheres de Minas fomos, sabe? Eva vem de uma família com visão de mundo mais aberta.
Claro, tinha a inteligência dela, uma jovem bastante perspicaz e corajosa. Como diretora e produtora, Eva me inspira no sentido de trazer questões que ainda são muito atuais: a dificuldade de produção e profissionalização, a busca por papéis mais complexos para as mulheres. Eva gostava de Hollywood, gostava de Griffith, então ela queria muito mais. Ela achava pouco aquele cinema regional, sem cenários, sem grandes figurinos, que era a proposta do Humberto Mauro. Esta família tinha uma proposta mais ficcional e rebuscada — tanto que os projetos do Pietro e da Eva eram mais difíceis de ser realizados. Humberto Mauro foi para outro caminho, e marcou a história do cinema. Mas ela procurava algo diferente, difícil de concretizar.
Talvez seja isso o que mais me comove na Eva Nil: o fato de ela ter falado que, desse jeito, ela não queria mais. Então Eva sai de cena. A diferença é que nós, artistas — e me coloco dentro disso —, nós continuamos, mas a Eva não continuou. Ela foi corajosa em não continuar, assim como nós somos corajosas em permanecer tentando. Mas quando ela viu aquela precariedade, em relação aos papéis que queria ter, preferiu se afastar. Ao mesmo tempo, Eva não se afastou da arte completamente. Ela virou fotógrafa, dentro daquele estúdio herdado do pai. As fotos dela são comoventes pela maneira como ela põe as crianças para posar. No final, ela exerceu a arte dela onde e como conseguiu exercer.

O caso de Eva Nil me parece dizer muito sobre a memória do cinema brasileiro. Afinal, temos o apagamento dela como atriz, dos filmes dela, e do pioneirismo desta mulher que produziu e fotografou.
Elza Cataldo: Sim. É uma questão da falta de memória, dessas lacunas da história do cinema — e da própria inserção da mulher dentro disso. Isso envolve a relação criativa dela com o pai, num processo criativo mais coletivo. A gente não sabe exatamente a causa da ruptura dela com o Humberto Mauro. Essa questão fica um pouco em aberto, embora a gente tenha tentado pesquisar. Eu fiz uma sessão do filme em Cataguases, no polo oficial da Zona da Mata, junto com o sobrinho-neto do Humberto Mauro, presente na sessão. No final, ficamos debatendo, e veio esta ideia de que também que não era fácil trabalhar com o Humberto Mauro, enquanto diretor.
Já a Eva era altiva. Ela era muito jovem, e não aceitava aquela relação. Talvez a segurança dela para abandonar o cinema tenha vindo do olhar do pai sobre ela. Havia essa alteridade afetiva, carinhosa, que fortaleceu muito a Eva Nil. Ela era uma jovem com segurança e admiração paterna. Isso, em termos psicanalíticos, não é pouca coisa. Acredito que essa segurança tenha ajudado Eva a enfrentar Humberto Mauro, e dizer o que ela pensava.
Acabei unindo essa paixão pelo cinema com a paixão pela história, e, principalmente, a história das mulheres.
Elza, você tem feito principalmente filmes voltados a séculos passados. Como enxerga o papel de O Silêncio de Eva dentro desse percurso de viés historiográfico?
Elza Cataldo: O gênero histórico me fascina há muito tempo. Tenho uma ligação muito grande com ele, porque acho que a gente conhece muito pouco a nossa história. Aí vem uma coisa interessante, que é a minha trajetória pessoal. Eu venho de uma vivência acadêmica. A pesquisa, para mim, é algo que faço com gosto e com profundidade — eu sou pesquisadora, tenho doutorado na Sorbonne. Então eu passei a dominar essas ferramentas, a desenvolver pesquisas, e fui vendo que a gente conhece muito pouco sobre a história do Brasil. Acabei unindo essa paixão pelo cinema com a paixão pela história, e, principalmente, a história das mulheres. Fui desenvolvendo uma metodologia de pesquisa, de reconstituição, com gosto pela direção de arte, pelo figurino.
O Silêncio de Eva também traz essa abordagem histórica, na tentativa de dar voz a algumas dessas mulheres, tanto as mais conhecidas quanto as menos conhecidas, ou até anônimas. As Órfãs da Rainha (2023) apresenta três jovens anônimas na história brasileira, e na história de Portugal também. Recentemente, terminei de filmar um filme sobre Dona Maria I, que se chama Maria, a Rainha Louca. Eu faço um recorte do momento de exílio de Dona Maria no Brasil, resgatando esta construção sobre a loucura dela. Eu tento mostrar que a Dona Maria não era louca. Então acho muito instigante o papel da história, a questão da nossa memória — ou a ausência dela. Gosto de trabalhar com ficção, e estas lacunas nos deixam mais livres na hora de preenchê-las. Com isso, a ficção se torna instigante. Mas é um cinema que dá trabalho, envolve muita pesquisa. Tem que ter profundidade para falar de um assunto complexo, por exemplo, como as Órfãs da Rainha da Inquisição. Esses desafios me seduzem, de alguma forma.

É interessante que não seja um olhar meramente fatual e explicativo para a história. Você prefere uma abordagem reflexiva, especulativa.
Elza Cataldo: Exatamente. É um olhar específico. Não estou falando que tudo ali é verdade, ou que é mentira — é um olhar. Afinal, sou eu que faço a pesquisa histórica para os meus filmes, porque vou detectando aquilo que me toca. Depois, vou amarrando estes pontos no roteiro. Por causa da pesquisa, eu consigo responder aos historiadores, e não justificar, mas, pelo menos, informar um pouco das razões pelas quais eu tomei tal e tal decisão. Sempre tem um sentido para mim ali dentro.
É um exercício interessante, que cumpre este papel importante dentro do cinema brasileiro, de recuperar a questão histórica. Esses projetos são muito difíceis fazer, são mais caros, demandam tempo, por isso, pouca gente faz. Tanto é que os nossos filmes do gênero histórico representam uma cinematografia com poucos títulos. Mas eu gosto de um cinema que me engaja de alguma forma, que me traga um propósito. O cinema, para mim, não é só entretenimento. Isso não sustenta a minha dedicação, o meu foco, o meu interesse. Tem alguma coisa além do entretenimento que me seduz também. Posso dizer, com certo cuidado, que também me vejo na condição de porta-voz, sabe? Para essas vozes que não foram ouvidas, essas mulheres que não foram vistas. De uma forma pequenininha, eu tento contribuir para isso.



