Nino de Sexta à Segunda | “Apostei que o público se emocionaria, sem ser algo manipulador”

Nino (Théodore Pellerin) está perplexo: ele acaba de receber o diagnóstico de um câncer. Mas o jovem não se desespera. Ele nem parece acreditar na fala da médica, afinal, não possui sintoma nenhum. Em meio à confusão da notícia repentina, ele perde suas chaves, e não consegue mais entrar em casa. Assim, entre sexta-feira e a segunda-feira, quando deve começar o tratamento, Nino vaga pela cidade. Encontra amigos, ex-namoradas, a mãe. O rapaz de poucas palavras não consegue dizer nem para si mesmo o que está acontecendo.

Este é o ponto de partida de Nino de Sexta à Segunda, estreia da cineasta Pauline Loquès na direção de longas-metragens. Ela parte de uma premissa que facilmente cairia no melodrama, apenas para retirar o aspecto sentimental da doença, e se concentrar num sujeito obrigado a viver o presente. Vencedor dos prêmios César de melhor filme de estreia, e melhor ator revelação (além de melhor ator revelação na Semana da Crítica, em Cannes), o drama já se encontra em cartaz nos cinemas brasileiros, desde 7 de maio.

Mas por que o personagem teria tanta dificuldade em assimilar o que lhe acontece? Em entrevista ao Meio Amargo, a cineasta explica:

A má notícia

“Eu nunca psicologizei o personagem. Nunca pensei: ‘Ele é alguém com dificuldade para falar’. Talvez, se tivessem dado a notícia dois dias antes ou dois dias depois, ele reagisse de outro jeito. Gosto de explorar as coisas no tempo presente. Acho que isso tem a ver com a forma como eu vejo as coisas. Nos momentos graves, enxergo humor; em momentos que deveriam ser felizes, enxergo muita melancolia. Percebo isso com frequência nas festas, por exemplo”.

“E era realmente uma intenção não fazer um grande drama cinematográfico”, ela continua. “Tenho a impressão de que, na vida, as coisas nunca acontecem de forma tão simples. Elas não são ou muito tristes ou muito engraçadas — são misturadas. Existe o absurdo das pessoas vivendo suas vidas normalmente ao redor de Nino. Ele está na própria festa de aniversário, mas não é nem um pouco o dia certo para isso acontecer. E ele não consegue contar para ninguém. Isso é um pouco do que a vida impõe: acidentes, imprevistos, deslocamentos”.

Pellerin, por sua vez, recusa a ideia de que seu personagem seria incapaz de lidar com o diagnóstico. “Não sei se vejo o comportamento de Nino como uma negação”, ele justifica ao Meio Amargo. “Existe um retorno estranho à realidade, de forma bastante brusca. É uma espécie de virada em direção à vida. Além disso, o resultado está ligado a uma doença sexualmente transmissível, então existe o aspecto de uma sexualidade necrosada. O grande impulso de vida é cortado, e se transforma em tumor. Também fica na garganta, que liga o corpo à cabeça. Então é o corpo inteiro que se separa da cabeça. O filme é um retorno ao corpo, à vida, ao prazer, à liberação da palavra — àquilo que liga o corpo ao pensamento”.

Nino e Cléo

Em oposição ao sucinto título original (Nino), a versão brasileira faz um recorte à temporalidade, que nos remete de imediato a Cléo de 5 às 7 (1962), de Agnès Varda. Neste drama, uma artista caminhava pela cidade enquanto esperava a possível confirmação de um diagnóstico de câncer. A comparação parece evidente, no entanto, a diretora declara não ter se inspirado no clássico:

“Eu nem revi o filme para preparar Nino. Cléo de 5 às 7 é simplesmente um filme de que eu gosto muito, e que todo mundo conhece na França. Mas nunca pensei: ‘Vou fazer uma versão masculina’. Só pensei: ‘É possível fazer um filme sobre um personagem que muda em pouco tempo’. Em Cléo, são 2 horas; em Nino, são 4 dias. Mas gostei bastante do título brasileiro também. Só que se eu tivesse colocado algo assim no nome francês, todo mundo acharia pretensiosa demais a referência à Agnès Varda!”.

Já Pellerin nem sequer tinha assistido a Cléo de 5 às 7: “Só vi o filme recentemente, há algumas semanas. Eu não tinha assistido antes de filmar Nino, mesmo tendo consciência de que havia paralelos possíveis. Mas quando há coisas próximas a esse ponto, talvez seja melhor não vê-las demais. E, depois de assistir, achei o nosso filme bastante diferente”.

“Não faça nada”

Para a diretora, no que diz respeito à direção de atores, a prioridade era calibrar seu intérprete principal de modo a minimizar emoções e gestos. Ela justifica a opção por um registro tão contido:

“Acho que tem a ver com pudor. Eu não queria um dramalhão. Mesmo assim, era um equilíbrio difícil, porque eu pensava: ‘Se não dissermos o suficiente, ninguém vai se apegar a ele. Vamos apenas observar essa pessoa evoluindo sem sermos afetados’. Mas quando conheci Théodore, pensei: ‘De qualquer forma, vai ser difícil para o espectador não se apegar a ele’. Porque ele realmente tem algo magnético. Ao conhecê-lo, tive confiança de que ele poderia dizer pouquíssimas coisas, apenas existir diante da câmera, e ainda assim todo mundo se identificaria com ele. E que, no final, o público se emocionaria — sem ser algo manipulador”.

A cineasta não poupa elogios ao intérprete: “Quando vejo Théodore, muitas vezes tenho vontade de chorar, porque ele é emocionante. Não sei, existe uma intensidade nele. Pensei que talvez as pessoas sentissem o mesmo. Então eu realmente dizia: ‘Não faça nada’. O que é difícil para atores, claro. Mas Théodore confiava no texto. Eu explicava: ‘Quanto mais baixo você falar, menos expressões fizer, menos buscar intenção… mais verdadeiro será’. Sobretudo, este é um personagem que se revela no contato com os outros. São os outros que provocam algo nele. Por isso, eu pedia: “Apenas reaja ao que está diante de você.” Com outro ator, isso talvez criasse um personagem passivo, e até entediante. Com Théodore, vira magia”.

“É complicado, porque a gente precisa confiar muito na direção para poder não fazer nada”, admite Pellerin. “Também é preciso estar num estado correto para não ter que ‘atuar’, entre muitas aspas. O filme muda nossa percepção do mundo durante algumas semanas. Em Lurker, por exemplo, eu estava num estado muito mais ansioso, mais cínico. Fiquei mal, de verdade”, ele compara, em referência ao suspense onde interpretou um rapaz que persegue e manipula seu ídolo musical — e pelo qual foi indicado ao Independent Spirit Awars. “Mas com Nino, eu estava num impulso em direção à vida, num estado de presença muito profundo de conexão com os outros, e de humanidade”.

Prêmios César

Os dois prêmios vencidos por Nino de Sexta à Segunda no César — o Oscar do cinema francês —aumentaram bastante a projeção do longa-metragem. Os dois artistas admitem a surpresa diante da vitória:

“Eu queria muito que Théodore fosse reconhecido”, confessa a cineasta. “Não sou objetiva porque, quando o conheci, pensei: ‘Meu Deus, ele é um dos melhores atores do mundo. Como ainda não é mais conhecido?’. Então eu estava um pouco obcecada com isso. Mas também fiquei muito comovida, porque este é um filme pequeno, íntimo, de ritmo lento. Um filme sobre doença, mas também uma crônica sobre a vulnerabilidade das pessoas. Nada espetacular, nada demonstrativo. Fiquei feliz que ele tenha sido reconhecido justamente por sua pequenez, e que o César tenha valorizado a intimidade, a delicadeza. Obviamente, isso implicava num reconhecimento do trabalho de toda a equipe. Para os meus projetos futuros, é claro que um prêmio desse ajuda. Mas isso infelizmente não garante escrever um bom segundo filme. Seria ótimo, mas não funciona assim”.

“Para mim, é algo bastante impressionante, porque nem sou francês, sou do Québec!”, sublinha o ator. “O César me parece algo distante, mas posso dizer que fui muito bem acolhido pelo cinema francês. Além disso, tenho muito orgulho do filme, pelo fato de ele ser amado pelo público. E o César é uma consagração pelos pares — é uma verdadeira honra”.

Reações pelo mundo

Mesmo assim, Pellerin lembra que as reações pelo mundo foram bastante distintas. E brinca: “Talvez nos Estados Unidos tenham compreendido menos o filme. É um mundo muito ligado ao dinheiro, então não estão acostumados com um personagem que simplesmente vagueia por dias após um diagnóstico! Todo mundo perguntava: mas ele não precisa sair correndo atrás do dinheiro para o tratamento?”.

Loquès concorda. “Lembro que, na Itália, as pessoas acharam engraçadíssimo. Claro, existe no país essa tradição da tragédia italiana, de rir de coisas muito graves. Na China, os jovens da idade de Nino se identificavam bastante com essa solidão existencial, essa falta de referências. Mas Estados Unidos, quando apresentei o filme em Los Angeles, os espectadores me perguntavam: “Por que ele anda tanto pela rua?” Realmente, este seria um filme impossível de fazer em Los Angeles, porque ninguém anda na rua lá. As pessoas estão sempre de carro”.

“Ao mesmo tempo, há coisas que atravessam todas as fronteiras. Construí esse filme pensando em um jovem a quem isso poderia acontecer em qualquer grande cidade do mundo. Então existem temas realmente universais: o sentimento de solidão, a necessidade de amor, o medo da morte. Isso atravessa qualquer cultura — pelo menos, nas grandes cidades. São questões que nos afetam desde sempre”, ela conclui.

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