
Rachel (Eiza González) é, ao que tudo indica, a mulher mais poderosa do mundo. Ela conhece o destino dos principais mafiosos do planeta, tem acesso às suas contas secretas, e guarda provas dos esquemas corruptos. Além disso, possui trâmite privilegiado num banco importante, nutre amizades com juízas implacáveis, e conta com ajuda de capangas fortes e destemidos, sempre dispostos a interceder em favor dela. Sabe-se lá como a personagem teria conquistado tamanha influência, e de que maneira obteria dados tão sigilosos a respeito de qualquer indivíduo do planeta. Mas o roteiro também não se importa com isso.
Ao mesmo tempo, ironicamente, ela seria bastante frágil. Viaja até ilhas de homens perigosos, sem saber ao certo como chegará, nem como sairá viva após uma extorsão bilionária. Deixa que os comparsas pensem por ela. “Se a mamãe quiser parar para um picolé, nós precisamos parar. Não podemos fazer nada”, argumentam os rapazes. Assim, mesmo ciente de possuir um alvo nas costas, a mulher mais inteligente (e menos inteligente) do universo decide parar num barzinho local. Ao invés de ser sexualizada ao modo tradicional (a atriz mantém suas roupas durante toda a narrativa, e nunca exibe o corpo), ela é tratada como “mamãe” pelos marmanjos-filhos, prontos a tudo para protegê-la.
Ritchie se aproxima da utopia dos super-heróis, que lutam sem se ferir de fato, sem sangrar, sem cansar, sem serem verdadeiramente ameaçados.
Na Zona Cinzenta corresponde a uma experiência atípica dentro da ação. Por um lado, o diretor e roteirista Guy Ritchie pretende fornecer os ingredientes tradicionais do gênero: perseguições, explosões, cenas de luta, homens perigosos, aliados que se revelam inimigos, planos mirabolantes. Conta com dois dos maiores astros de Hollywood neste segmento (Henry Cavill e Jake Gyllenhaal) além de alguns fetiches habituais, a exemplo do cenário paradisíaco e dos estereótipos racistas. Logo, os vilões serão latinos ou sauditas; os primeiros mortos (desnecessariamente) serão negros; os bonzinhos são americanos; o poderio financeiro materializa-se em um banco dos Estados Unidos. Mesmo que a heroína seja interpretada por uma atriz mexicana, sua latinidade é devidamente apagada por trás do nome Rachel Wild.
Por outro lado, inúmeros fatores sabotam o sucesso da empreitada. Os personagens jamais são apresentados em sua subjetividade. Certo, ninguém esperaria grande aprofundamento psicológico numa obra do diretor, porém, mesmo para os padrões brucutu da ação, os protagonistas soam como meros robôs. Reduzem-a a funções: a chefona, o guarda-costas, a dona do banco, o mafioso, etc. Eles não possuem personalidade, temperamento, passado, nem objetivos para o futuro. Vivem num eterno presente. Em consequência, eventuais piadas de textos (“Gostei da camisa”. “É seda, como meus lençóis”) surtem efeito nulo. Afinal, desconhecemos a eventual vaidade ou consumismo dos homens em questão, capaz de justificar o texto acima. Isso sem mencionar as ofensivas piadas de cunho homofóbico, ridicularizando uma possível ligação afetiva entre Sid (Cavill) e Bronco (Gyllenhall), além da possibilidade de serem “comidos na prisão”.
Ritchie tenta tornar a aventura maliciosa por meio de intervenções mal editadas, e supérfluas à narrativa. Conforme Bronco explica todos os equipamentos adquiridos para o plano, uma lista com os nomes dos jatinhos e armamentos desfila pela tela. Enquanto explica suas intenções aos assistentes (que desaparecem na cena seguinte), Rachel prepara um Negroni de café, cuja receita estampa a imagem. Elementos da geografia da ilha, tais quais a “Torta de Banana” e a “Volta do Carneiro”, também ganham letreiros próprios. Em geral, menciona-se aquilo que já vemos, num recurso que tão somente chama atenção a si próprio — e talvez procure oferecer algum estímulo ao espectador entediado.
Em paralelo, os protagonistas explicam tudo, o tempo inteiro. Na Zona Cinzenta é acompanhado pela (cada vez mais) habitual narração em off da protagonista apresentando a si mesma, seus propósitos, seu trabalho. “Meu nome é Rachel Wild. […] Trabalho entre o moral e o moral, entre o legal e o ilegal”. Adiante, Sid aponta ao parceiro (que também some a seguir) as intenções de uma estratégia específica. Os heróis e heroína não param de frisar uns aos outros o que pretendem fazer — quem chegará onde, com qual equipamento, e por onde sairá. Depois, disso, adivinha? Os eventos ocorrem exatamente como planejado. Vilões caem num calabouço previsto para este efeito; os pneus se furam em espinhos metálicos colocados com este objetivo; o grupo foge na lancha concebida para esta função.
Deste modo, o longa-metragem ostenta uma ação sem tensão. Os passos se desenvolvem precisamente como prometido, sendo antecipados e reiterados ao público. Não há medo de que os gestos deem errado, ou de que os adversários se provem mais espertos. Uma vez acuado legal e financeiramente, o mafioso jamais tenta subornar a juíza, nem ameaçá-la. Apenas aceita a sua derrota e pega o quanto deve. Mesmo testemunhando um grupo de estrangeiros “treinando” para a fuga na ilha, correndo por vielas e escapando em canais, a polícia se mostra incapaz de antecipar os passos do grupo. Com um rápido telefonema, Rachel proíbe o uso do jatinho e do navio de Manny. Interrompe gigantescas obras da construção civil, e impacta diretamente o mercado financeiro. Nada disso possui o mínimo sentido, é claro. Entretanto, Ritchie considera hilária a sua ilusão de poder.


Ora, como poderíamos torcer por figuras que nunca aparentam realmente estar em perigo? Temer por sua eventual captura, posto que a coordenação da equipe se revela infalível? Suspeitar que Rachel não sairia vitoriosa, enquanto o longa-metragem insiste em sua invencibilidade? Até a fuga se prova eficaz, conveniente, quase mágica na quantidade de tiros evitados e explosões dribladas. Alguns filmes de ação recentes se baseiam no aspecto sombrio e cru do real, envolvendo figuras cuja munição se esgota, os planos falham e o corpo se cansa (a saga John Wick, os últimos James Bond). Aqui, em contrapartida, estamos mais próximos de uma fantasia, um devaneio de superpotência.
Por isso, Ritchie se aproxima da utopia dos super-heróis, que lutam sem se ferir de fato, sem sangrar, sem cansar, sem serem verdadeiramente ameaçados. O cineasta deposita toda a sua confiança numa atriz de recursos dramáticos ínfimos, junto a uma proposta de tensão que não convence. Há um caráter de faz de conta neste imbróglio extravagante: os personagens fingem estar em perigo, e fingimos que acreditamos. Isso porque o diretor ainda estima que, quanto mais fugir do real rumo a uma idealização do crime (pobres Rosamund Pike, presa a um escritório o filme inteiro, e Carlos Bardem, resumido ao latino perverso), mais impressionante será o resultado. No entanto, nem a lei, nem o crime, nem as possibilidades verossímeis de escapatória funcionam assim — mesmo dentro da ficção. Estamos no terreno de uma fantasia delirante.




