E Seus Filhos Depois Deles (2024)

A epopeia do amadurecimento

título original (ano)
Leurs Enfants Après Eux (2024)
país
França
gênero
Drama, Romance
duração
146 minutos
direção
Ludovic Boukherma, Zoran Boukherma
elenco
Paul Kircher, Ludivine Sagnier, Gilles Lellouche, Angelina Woreth, Sayyid El Alami, Louis Memmi, Christine Gautier, Anouk Villemin
visto em
Cinemas

E Seus Filhos Depois Deles possui grandes ambições. O drama pretende acompanhar a vida de meia dúzia de protagonistas ao longo dos anos 1990 (nos verões de 1992, 1994, 1996 e 1998, mais especificamente). Eles são o adolescente Anthony (Paul Kircher); a mãe dele, Hélène (Ludivine Sagnier), o pai alcoólatra, Patrick (Gilles Lellouche), a mulher dos sonhos de Anthony, chamada Stéphanie (Angelina Woreth), o vizinho e desafeto, de nome Hacine (Sayyid El Alami), com o acréscimo de alguns colegas, primos, pais de amigos, etc. O extenso romance, vencedor do prêmio Goncourt, serve de base para uma verdadeira epopeia do amadurecimento numa França em transformação.

Isso significa abordar o empobrecimento da classe-média, sua guinada à direita, e a marginalização de franceses de origem magrebina, levando-os ao crime. A doçura do primeiro beijo e da primeira relação sexual se mistura ao divórcio dos pais, aos roubos na região, ao tráfico de drogas. Os jovens diretores Ludovic Boukherma e Zoran Boukherma pretendem abordar tanto um sonho de futuro quanto a amargura do presente, sabotando estes planos de crescimento e independência. Busca-se nada menos do que um panorama intergeracional e interracial da França, por um recorte distante das capitais e principais centros urbanos. 

Neste sentido, parte do trabalho de coesão repousa sobre as mãos da editora Géraldine Mangenot, responsável por nunca se esquecer de nenhum personagem por tempo excessivo. Ela retorna com frequência a cada história individual, indicando-nos onde aquela figura se encontra, e como as decisões dela interferem nos planos alheios. Desperta, em consequência, uma sensação de onipresença. A narrativa se mostra fluida, bem organizada através dos recursos didáticos (os letreiros com datas na tela). Manifesta bom ritmo e intensidade equilibrada (sequências tensas ou celebrativas, intercaladas com outras, de contemplação). Os 146 minutos podem soar excessivos, quando comparados à média dos longas-metragens em cartaz, no entanto, vista a quantidade de conflitos e personagens abarcados, ainda se organiza de forma concisa.

Os criadores estão mais preocupados em despertar uma sensação agradável (o feel good movie) do que alertar o espectador a respeito dos perigos de uma França rancorosa e empobrecida.

Para o elenco e os demais departamentos criativos (fotografia, direção de arte, som), resta o polimento mínimo esperado de um grande produto para exportação, capaz de frequentar os principais festivais de cinema (o drama competiu em Veneza) e ainda alcançar o público médio, graças à universalidade dos sentimentos e dilemas apresentados. A fotografia demonstra uma plasticidade competente e clássica, junto da câmera fluida, e uma luz do sol com vocação a destacar a silhueta dos jovens em relação à natureza. Deste modo, injeta uma atmosfera de nostalgia ao conjunto. Enquanto os atores veteranos ostentam toda a sua técnica (Lellouche e Seigner são excelentes, minimizando papéis histriônicos), os novatos são estimulados em sua crueza e espontaneidade (caso de Kircher, vencedor do prêmio de jovem ator em Veneza).

É certo que, ocasionalmente, o longa-metragem pesa a mão no embelezamento das emoções. Cada segmento histórico se encerra com instantes convencionais, quando a trilha sonora orquestrada se faz mais presente. Assim, Anthony sai na chuva, com o rosto ensanguentado, para expurgar a dor; e o pai violento corre atrás de esposa e filho pela rua, para agredi-los, sob a música triunfal de aventura e tensão. Os cineastas parecem ter certeza de seus “grandes momentos”, sublinhando-os com uma insistência vaidosa. Aparentam optar pelo realismo social tão tipicamente francês para, ocasionalmente, mergulharem em recursos mais melodramáticos, destinados a romper com tamanha neutralidade. Talvez os fãs dos floreios estéticos se encantem com estes instantes preciosistas, mas se entediem com os trechos diretos de um filme-de-personagens. Simultaneamente, os apreciadores das narrativas pouco intervencionistas devem se desencantar com a sacarina acentuada de determinadas partes. 

Em paralelo, o retrato racial despertou incômodo em parte considerável da crítica de cinema. De fato, conforme os adolescentes crescem, o rebelde Anthony trabalha e amadurece, já Hacine se envolve com uma gangue e começa a traficar drogas. Nota-se uma atenção muito maior ao pai branco (o ponto de vista se apieda bastante sobre Patrick na segunda metade) do que ao pai árabe, quase esquecido com o desenrolar da trama. Mesmo assim, ainda que o núcleo branco esteja em evidente destaque, o texto sublinha o paralelismo de atitudes: enquanto Hacine rouba uma moto, Anthony rouba uma canoa; enquanto pai alcoólatra maltrata seu filho, e outro queima as mãos do garoto com água quente. Algumas comparações beiram o eticamente contestável — o pai retira a roupa para se matar no lago, enquanto o filho se despe para fazer sexo.

Mesmo assim, esta linha evolutiva sugere que, depois desta incursão pelo tráfico, o rapaz de origem marroquina se “endireita”, trabalha num emprego regular, e tem esposa e filhos. Além disso, o impulso sanguinário do jovem se atenua diante de uma cena de suicídio, e mesmo do antigo rival, a quem empresta a moto recém-comprada. Tais decisões podem ser interpretadas como sinal de empatia em relação ao personagem. De certo modo, o drama se esforça em retirar da classe social seu aspecto determinista ou fatalista. Caberá a cada espectador avaliar se os diretores expõem o racismo para comentá-lo (e, eventualmente, denunciá-lo) ou somente para reforçar estereótipos nocivos. O único consenso deve residir na percepção de que as tensões raciais são tematizadas pela narrativa — seja por uma perspectiva crítica, ou condescendente. 

A motocicleta constitui o elemento escolhido para costurar as temporalidades. No início, Anthony rouba a preciosidade de seu pai para se encontrar com uma garota. Depois, o inimigo rouba o veículo. Símbolo de autonomia e de enfrentamento à autoridade paterna, o objeto o acompanha nos romances, nas brigas, no afastamento desta figura masculina abusiva. Os diretores encerram a trama com mais uma motocicleta sendo roubada e devolvida, numa espécie de acerto de contas circular com o passado. Esta posse representa tanto a possibilidade de ir para onde quiser, mas também, a necessidade de voltar (afinal, conta-se com motos alheias). Ilustra um sentimento de fuga e, em simultâneo, o encontro de si próprio. Ela estampa, inclusive, os cartazes oficiais.

Ao final, resta um teor otimista e conciliador. Sofremos; aprendemos; seguimos em frente. O paralelismo das ações insinua que as dores seriam comparáveis entre os membros do grupo central — tanto de brancos quanto de árabes; de homens e de mulheres; da geração mais antiga e daquela mais nova. O olhar busca abraçar a todos, assim como se abraçam (num flashback colorido e kitsch de “melhores momentos” na conclusão).  E Seus Filhos Depois Deles (uma tradução literal e estranhíssima do título original) jamais enfia o dedo nas feridas políticas e sociais, nem apresenta uma perspectiva radical a respeito dos problemas abordados. Prefere constatar a sua existência, mencionar sua gravidade e, então, demonstrar empatia generalizada com todos. Os criadores estão mais preocupados em despertar uma sensação agradável e positiva (o feel good movie) do que alertar o espectador a respeito dos perigos de uma França rancorosa e empobrecida. A vida não melhorou, mas a esperança segue intacta.

E Seus Filhos Depois Deles (2024)
7
Nota 7/10

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