Um Triste e Belo Mundo (2025)

O amor como garantia

título original (ano)
Nujum al’amal w al’alam (2025)
país
Líbano, Alemanha, EUA, Arábia Saudita, Catar
gênero
Romance, Drama
duração
110 minutos
direção
Cyril Aris
elenco
Mounia Akl, Hasan Akil, Julia Kassar, Camille Salameh, Tino Karam, Nadyn Chalhoub, Alex Choueiry, Mohamad Farhat, Valentina Hachem
visto em
Cinemas

1. Dois bebês nascem em meio ao bombardeio no Líbano. Enfermeiras correm com os recém-nascidos no colo, sob a poeira de paredes ruindo. 2. Num restaurante, o proprietário lida ao mesmo tempo com os funcionários, os clientes e um arquiteto. Ele se apressa, segura pratos, aumenta o tom da voz, pede para esperarem. 3. Ao dirigir um carro, o condutor perde o controle e invade um comércio com seu veículo. Quebra vidros, bate a cabeça contra o volante. Pessoas gritam. 4. Imagens de arquivo mostram explosões, destroços e cidadãos desesperados pelas ruas. Este poderia ser um sumário das cenas mas intensas de Um Triste e Belo Mundo, porém, corresponde aos dez minutos iniciais.

Diversas interações caóticas ocorrem ao longo de 110 minutos de narrativa. O diretor Cyril Aris tende a equivaler dinamismo a bagunça, gritaria, gente entrando, saindo, gritando, falando por cima das outras. Trata-se de uma exteriorização dos sentimentos dos personagens: posto que a vida do empreendedor Nino (Hasan Akil) está em crise, o universo ao redor também está. Como Yasmina (Mounia Akl) se encontra insatisfeita com o trabalho sufocante de consultora do governo, o ambiente reflete seu descontentamento. A guerra, neste contexto, se converte em símbolo, um obstáculo para testar a obstinação dos amantes — em oposição a um evento político-social com causas específicas e contornos particulares. Trata-se de um empecilho. Poderia ser um furacão que os mantém presos na cidade, ou qualquer outra proibição de deslocamento.

Ora, se o mundo está se desfazendo diante dos nossos olhos, o que poderia mantê-lo de pé? O amor, é claro. Não apenas uma paixão adolescente, um interesse repentino, mas O amor, traçado pelo destino no intuito de unir duas pessoas até o fim de sua existência, garantindo a continuidade da espécie. Afinal, Nino e Yasmina nasceram na mesma cidade, com um minuto de diferença, durante o mesmo bombardeio, e se tornaram namorados no ensino primário. Algo no cosmos ou, quem sabe, alguma divindade, já previa que se reencontrariam mais cedo ou mais tarde. Enquanto as bombas explodem, o avô dele morre, e o restaurante se aproxima da falência, garante-se ao espectador que o amor constituiria a justificativa necessária para seguir em frente. Por que colocar um bebê no mundo atualmente?, ela se indaga. Ora, a resposta residiria no laço incondicional entre ambos.

O filme se articula entre as vontades aparentemente contraditórias de ser poético e delicado, mas também acelerado e divertido; de conter poesia e furor; carinho e bombas.

O olhar esperançoso ao mundo se traduz numa visão assumidamente edulcorada das relações humanas. Aris acredita, de fato, na salvação via amor romântico. Por isso, abraça todos aqueles recursos que, para a cultura brasileira, seriam chamados de novelescos: diversas mortes e nascimentos, casamentos e separações, acidentes de carro e a mocinha prestes a embarcar num voo, para nunca mais voltar — até perceber que seu amado constitui prioridade, e dar meia volta. Enfrentam-se os sogros pouco amistosos; abandonam-se as promoções em outro país; perdoa-se o tipo que destruiu o comércio familiar e destratou os familiares durante o jantar. O afeto há de resolver tudo — e, caso não resolva a guerra, pelo menos a colocará em segundo plano, neste terreno indefinido entre bombas e fogos de artifício, seguindo a percepção inocente da pequena Yasmina.

Esteticamente, o longa-metragem procura na roupagem indie norte-americana o estilo apropriado para sugerir um sopro de liberdade. Logo, constrói diversas cenas de crianças e adultos correndo alegremente pelas ruas (por que amantes gostam tanto de correr sem rumo?); flares de pontos distantes da cidade, iluminando os protagonistas; e uma profundidade de campo limitadíssima (o fundo da imagem desfocado) para sugerir que apenas Nino e Yasmina importam. O resto do universo se encontra, literalmente, fora do campo de visão. Por isso, quando o casal se beija, o túnel interrompe as atividades ao redor, exclusivamente para eles. As cores se tornam mais fortes. A luz e o som sugerem um trem imaginário, transportando ambos como únicos passageiros. Quando o real representa uma dificuldade, o amor oferece a possibilidade de fuga rumo a uma fantasia particular, deliciosa, inofensiva. Ecos de Frances Ha, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e Mesmo Se Nada Der Certo podem ser identificados na obra libanesa.

Assim, os acontecimentos se desenvolvem sem real senso de finalidade. Os criadores não concebem esta história para discutir algo, visando abordar um tópico em particular. Nem mesmo parecem conduzir a odisseia dele e dela até algum ponto específico da trajetória da dupla. O recorte poderia se encerrar antes, ou muito depois. Embora não constitua uma adaptação literária, o resultado preserva esta impressão de meramente acompanhar o que lhes ocorre depois, e depois, e depois, graças ao prazer assumido de admirar a existência de ambos. Por isso, a montagem salta freneticamente de um grande conflito ao seguinte. Devemos ter um filho?, eles se questionam. Corta — a menina já está grande. Devemos permanecer no país? Corta — chega a oferta de uma transferência para Dubai. Mas como posso viajar com meu avô doente? Corta — o avô falece. O roteiro tem pressa, e considera desinteressante tudo aquilo que não faça a trama avançar, no sentido mais tradicional do termo.

Em meio ao rolo compressor da montagem, a poesia se atenua, espremida entre um nascimento e uma morte. O poeta sonhador aconselha a Nino “sempre manter os olhos nas estrelas”. As crianças discutem como nasceriam os bebês, e pressupõem que a concepção seria fruto de uma massagem. Transpõem o ideal de um paraíso celeste para uma ilha distante, que todos nós ainda conheceremos um dia. As próprias pintas no pescoço da mulher sugerem as ilhas vistas de cima. Entretanto, a doçura precisa se intercalar com sucessivas interações de gritaria, correria, bagunça, barulho. Não basta a funcionária entrar em trabalho de parto: os pais do futuro bebê precisam sequestrar um carro, vomitar durante o trajeto, brigar enquanto a mulher está prestes a parir. O show precisa continuar.

Logo, a iniciativa se articula entre as vontades aparentemente contraditórias de ser poético e delicado, mas também acelerado e divertido; de conter poesia e furor; carinho e bombas. Aris mira no drama, no romance, na comédia, no filme de guerra, no coming of age story, no buddy movie, no folhetim, e até na fantasia — ou, pelo menos, no realismo mágico. Conta com bons atores, infelizmente calibrados para interpretações histriônicas, gestos amplos, e o tom de voz alguns graus acima do naturalismo (sobretudo, no caso de Hasan Akil). Possui, igualmente, uma equipe criativa eficiente, transpondo com facilidade estas referências tão ocidentais de cinema familiar para o cenário específico do Líbano. 

O resultado é positivo enquanto assimilacionismo e busca por um cinema de massa, acessível e universal, partindo de uma nação que raramente exporta suas produções em grande quantidade. Qual seria o mal de propor uma arte popular, certo? Em contrapartida, ele abre um parêntese no real para minimizar as guerras, atenuar os traumas e crises, e sugerir que qualquer existência poderia melhorar caso simplesmente se reencontrasse o primeiro amor de juventude. E viverão felizes para sempre. A aceitação do projeto por parte do público dependerá da tolerância a este aspecto fabular, assumidamente ingênuo, que consiste em lidar com as dores do mundo através da fuga das mesmas.

Um Triste e Belo Mundo (2025)
6
Nota 6/10

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