100 Noites de Desejo (2025)

O poder da ficção queer

título original (ano)
100 Nights of Hero (2025)
país
Reino Unido
gênero
Comédia, Drama, Romance
duração
91 minutos
direção
Julia Jackman
elenco
Emma Corrin, Maika Monroe, Nicholas Galitzine, Amir El-Masry, Richard E. Grant, Safia Oakley-Green, Clare Perkins, Charli XCX
visto em
Cinemas

“O dever do homem é tentar, e o da mulher, recusar”. A frase que iniciava a comédia italiana A Garota com a Pistola (1968) dialoga bastante com 100 Noites de Desejo. A fábula estabelece o jogo entre um garanhão sedutor (Nicholas Galitzine), deixado num castelo com a missão expressa de seduzir e desvirginar Cherry (Maika Monroe), esposa deprimida de Jerome (Amir El-Masry), e pressionada pela comunidade a engravidar. Ora, o próprio marido, gay enrustido, estimula a traição que salvaria a sua honra, além daquela da esposa. Nota-se, em consequência, certo deleite do cônjuge em imaginar sua mulher com o rapaz musculoso que, talvez secretamente, Jerome desejasse para si.

O longa-metragem parte, portanto, de um duplo arranjo queer em relação às normas patriarcais. A tensão sexual entre os dois homens é visível, sendo ressaltado pela noite em que discutem suas relações íntimas quando se encontram sozinhos no castelo, à luz de velas. Entretanto, o verdadeiro laço homoafetivo ocorre entre Cherry e sua criada Hero (Emma Corrin), que lhe serve de confidente, cúmplice e também mestra nas artes do amor entre mulheres. Enquanto os rapazes discutem o sexo com a esposa infeliz, a própria confessa, em seu quarto, a dificuldade de consumar o casamento com o marido. No fundo, o título bastante sensual escolhido pelos distribuidores brasileiros oculta o fato de que esta comédia se volta, sobretudo, à frustração sexual e à impossibilidade de concretizar os prazeres.

Uma singela homenagem ao poder transformador das histórias queer, apesar da cartilha didática até demais.

A ferramenta permitindo cruzar tais núcleos LGBT consiste na arte de contar histórias. A talentosa Hero, que oculta o fato de ser alfabetizada (algo proibido às mulheres na época), começa a utilizar as ficções para ganhar tempo no desafio de Manfred em desvirginar Cherry no prazo de 100 dias. Ora a criada adormece o pretendente, ora o confunde. Às vezes, oferece material para sonhos eróticos de um e de outro, e ainda transmite valiosos ensinamentos à senhora da casa em relação aos perigos do amor. Se alguns contos eróticos são concebidos para facilitar a libido, outros são elaborados para sublimá-la. Cada vez que os pretendentes se aproximam de alguma intimidade, Hero aparece para despistar a tensão, através do mito de três mulheres perseguidas por saberem ler e escrever.

Logo, há histórias dentro da história, lendas a respeito de lendas. Hero mistura sua jornada pessoal àquela de mulheres que a precederam, numa fusão entre bruxaria e círculo literários, empoderando as participantes graças ao conhecimento. Deste modo, o texto oferece uma homenagem ao poder da literatura, à emancipação via arte e cultura — sobretudo no caso de pessoas LGBT, reprimidas e impossibilitadas de abraçarem livremente a sua identidade. Na chave oposta de tantos feel good movie que apresentam os livros como escapismo à realidade cruel, a diretora Julia Jackman acredita que a arte seja capaz de confrontar o real, fornecendo ferramentas de luta ao leitores. As personagens não se perdem na ilusão de mundos distantes, e sim, aprimoram aquele onde vivem. Existe uma crença ativista no poder das palavras, e na transmissão de conhecimento entre gerações.

Para isso, 100 Noites de Desejo recorre a uma cartilha didática até demais. Possivelmente, a principal falha do projeto decorra da obviedade de suas metáforas. Nada resta ao público para deduzir, debater, inferir por conta própria. Os signos são claros, esmiuçados, explicados pela narração e reiterados na conclusão. A cineasta coloca na boca de suas personagens tudo aquilo que gostaria de dizer (vide as falas engessadas da Liga Secreta das Contadoras de Histórias), algo que, em certa medida, infantiliza o discurso. A criadora não parece acreditar na capacidade do público em chegar a conclusões sem esta ajuda professoral. Em consequência, reafirma, de modo maniqueísta e simplista, a opressão do patriarcado, a invisibilidade do prazer feminino, o fundamentalismo religioso. 

Talvez este seja um mal frequente nas obras atuais, acentuado pela vontade de destinar discursos militantes a um espectador que se estima: 1. Incapaz de compreendê-lo, 2. Desinteressado no tema até a chegada do filme, 3. Confuso ou equivocado em suas leituras. Não basta mais discutir o feminino, é preciso afirmá-lo; não basta estudar a masculinidade tóxica, é preciso denunciá-la. Alguns espectadores certamente preferem que lhes digam o que pensar, e que se facilite o ensinamento a ponto de não restar lição de casa. Outros gostam de ser convidados a participar do debate, da reflexão, através de figuras ambíguas e multifacetadas. Ora, mesmo as 1001 Noites que servem de base a esta releitura contemporânea traziam figuras e encontros mais densos do que a simples “guerra dos sexos”.

Ao menos, a direção busca certa picardia — um humor simples, de incômodos e de trocas de olhares, acentuado por uma ou outra boa tirada de direção. O retorno do rapaz musculoso ensanguentado, carregando os restos de sua caça como troféu, gera um belo instante de ridicularização do padrão estético da virilidade. O primeiro beijo entre as mulheres (com o propósito de treinar para a vida heteroafetiva, é claro) soa como uma leitura lúdica da experiência queer. O interesse crescente dos guardas pelas histórias de Hero também sugere uma revolução das minorias em laço direto com a classe trabalhadora. Ao final, lutar contra o patriarcado equivale a enfrentar qualquer forma despótica de poder.

Os atores estão competentes em seus papéis, no sentido de minimizarem o absurdo das situações, compreendendo as funções sociais que desempenham. Maika Monroe contorce os lábios em pudor e desejo, enquanto Nicholas Galitzine encarna esta sedução tão insistente quanto incompatível com a contemporaneidade — afinal, as moças podem preferir a companhia uma da outra. Emma Corrin, em expressões glacial, caracteriza o oráculo, o mestre disfarçado de empregado para melhor ter acesso à intimidade dos nobres. Nenhuma atuação se destaca de fato, devido às regras um tanto empobrecedoras da farsa, e ao ritmo mais melancólico do que propriamente ágil do humor de circunstâncias (algo que Emma, por exemplo, fazia muito melhor).

Ressalvas à parte, o resultado constitui uma singela homenagem ao poder transformador das histórias queer. Se os afetos entre homens e mulheres sempre tiveram suas lendas de formação, porque as aproximações entre dois homens, ou duas mulheres, não poderiam tê-lo? Que tal conceber a mocinha virginal dos romances tradicionais como interessada na criada, ou o fiel marido de olho nos colegas de caça? 100 Noites de Desejo ajuda a pavimentar o caminho para a concepção de uma História dos afetos queer, algo ainda longe de habitar o imaginário popular. “No meu tempo, não existiam essas coisas não!”, disparam as vozes conservadoras diante de qualquer expressão de carinho homoafetiva. Ora, projetos como este sugerem que sim, estes laços sempre existiram, apenas foram invisibilizados. Quem sabe, ao falarmos sobre eles, compartilhando as fábulas uns com os outros, permitimos que novas gerações LGBTQIA+ cresçam com a ideia acolhedora de que não estão sozinhas, não são erradas, e podem encontrar a felicidade exatamente como são.

100 Noites de Desejo (2025)
6
Nota 6/10

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