
Um senso de desconforto atravessa a totalidade de Yellow Cake. Essa poderia ser uma sensação bastante compreensível, já que a trama aborda armas nucleares, ar contaminado, planos secretos do governo, e traição entre membros da equipe pesquisadora. Uma conspiração atravessa a jornada de Rúbia (Rejane Faria), cientista nuclear encarregada de implementar o projeto Yellow Cake, que consiste em aplicar urânio enriquecido na erradicação do mosquito da dengue. Ora, como em qualquer suspense, os planos dão errado, e fogem do controle das autoridades.
No entanto, parte desta perturbação vem de outras escolhas do diretor Tiago Melo e sua equipe. Por exemplo, a opção por não apresentar personagens — nem no início, nem conforme a narrativa se desenvolve. Assim, jamais entendemos exatamente as motivações de Rúbia, suas ações anteriores a este episódio, seu posicionamento junto ao governo ou aos moradores de Picuí (PB). Quem são os gringos com quem trabalha? Ela já conhecia o posicionamento deles? Por que Catita (Valmir do Côco) é descrito quase unicamente por sua raiva? Quem seriam estes representantes invisíveis do governo, cujas ordens nunca presenciamos de fato? De onde surgiriam os planos para exterminar o inseto desta forma, e por que batizá-lo Yellow Cake? Mistério.
Yellow Cake soa mais povoado por um imaginário do que uma narrativa propriamente dita. O espectador resta em posição bastante passiva.
Em paralelo, as escolhas estéticas são curiosas. A direção de fotografia de Gustavo Pessoa trabalha com uma janela em scope, bastante retangular, ainda que se concentre obsessivamente nos rostos e fragmentos de espaço. Os planos alternam entre grandes paisagens e close-ups do elenco. Dentro das casas, quando não há naturezas exuberantes a captar, reina o festival de rostos extremamente próximos, entrecortados pela montagem, falando uns sobre os outros, impedindo que se compreenda ao certo quem se dirige a quem. Às vezes, a câmera treme em excesso (a chegada de Rúbia na cidade), para depois se mostrar mais estável. Ora a granulação e a saturação se acentuam demais; ora impera o festival de efeitos visuais com o ataque dos mosquitos pelo ponto de vista dos próprios.
Assim, o protagonismo e o ponto de vista de Rúbia podem ser contestados. Temos uma heroína hermética em termos de índole, objetivos e conduta, inserida numa estrutura coral que busca equilibrar meia dúzia de personagens. Deste modo, é difícil saber ao certo qual discurso os criadores extraem desta parábola que ora remete a uma extensão da cena dos forasteiros em Bacurau; ora soa como uma releitura brasileira das pragas bíblicas. Os personagens agem de maneira afobada, correndo de um lado para o outro, ainda que o espectador desconheça os motivos para tal urgência — posto que não há senso real de causa de consequência, nem demarcações precisas de temporalidade. “Você tem que vir comigo. Agora!”, grita um cientista, numa tirada típica do cinema de ação. “Agora você é um ser diferenciado!”, decreta outra voz. Não parece.
A montagem de André Sampaio procura acompanhar o sentimento de emergência ao espremer as cenas, cortando-as imediatamente após o clímax (praticamente um corte lacaniano). Logo, depois de uma revelação, não resta tempo para contemplação, dúvida ou suposições por parte do espectador. Os cortes são tão bruscos e acelerados (especialmente nas reuniões e jantares) que às vezes despertam a impressão de uma montagem de impacto, típica dos trailers. Os sucintos 97 minutos talvez se beneficiassem de uma edição menos frenética, permitindo respiro ou hesitação no começo e final de cada cena. Do modo como se encadeia, o ritmo parece acelerar os processos para além de sua função ou potência criativa. A montagem atropela a história.
Ao menos, resta uma experiência de sensações fortes, seja pelas cores intensas, pelo trabalho ostensivo de som e mixagem, e pela noção de gravidade impressa em cada cena, em níveis quase autoparódicos. É interessante ver o cinema brasileiro se arriscando por uma ficção científica, com toques de terror e fantasia — neste sentido, o trabalho de maquiagem se mostra bem competente. Ainda mais precioso é constatar a adoração popular por Dona Tânia Maria, desde O Agente Secreto. Ovacionada na apresentação do filme, na abertura do Olhar de Cinema, ela também gerou as respostas mais calorosas da plateia. A atriz segue manifestando a espontaneidade que tanto agrada aos cineastas e espectadores, ainda que a longa cena da galinha transpareça a falta de controle da direção, visível na repetição excessiva do texto. A partir de que instante uma fala livre se torna apenas desgovernada?
Já Rejane Faria faz prova do comprometimento e concentração que lhe são peculiares. Ela encarna cada personagem com uma seriedade sepulcral, uma espécie de manto vestido em nome da ficção. Este registro técnico e preciso contrasta com o estilo mais espontâneo de Tânia Maria e Valmir do Côco. Resta apenas a Alli Willow encontrar mais papéis para além da gringa em terras brasileiras, efetuando a ponte entre os ricos e os habitantes locais, como têm sido tão confortavelmente instalada pelas ficções com aspiração à fantasia. Entretanto, ela cumpre bem este papel. Spencer Callahan, por sua vez, compõe a figura caricatural do norte-americano perverso e inescrupuloso — Bacurau volta à mente.


Por fim, Yellow Cake soa mais povoado por um imaginário do que uma narrativa propriamente dita. Ele capricha nas cores, nas sensações, nos sons. Existe um embelezamento assumidamente artificial, apaixonado pelas possibilidades de romper com o típico realismo social à brasileira. A solução, no caso, consiste em transformar a trama num terreno misto entre a homenagem e a paródia dos filmes de ação, incluindo agentes do governo, frases de efeito, conspirações e perseguições. Entretanto, desconhecemos ao certo os passos do plano, o funcionamento de cada máquina ou componente químico — o que nos impede de temer, de fato, pelos personagens. Se desconhecemos o grau do perigo, ignoramos o alcance que tais dispositivos possam ter.
Neste contexto, o espectador resta em posição bastante passiva, recebendo uma infinidade de estímulos, ainda que incapaz de decifrá-los ou acompanhá-los. A trama apressada se encontra sempre alguns passos à frente da compreensão — o público que corra para acompanhar tal locomotiva. Mesmo que as figuras em tela estejam aflitas, apavoradas, antecipando a possível destruição de uma cidade, assistimos a tamanha catarse numa posição distanciada, fria. Afinal, não somos convidados a participar da investigação, da análise, dos jogos de poder. Observamo-nos como quem admira à distância a aventura alheia, na posição de intrusos. Existe uma diferença fundamental entre filmes filmes para o público, com ele, e apesar dele.




