
Histórias de um Bom Vale pode ser considerado um projeto, ao mesmo tempo, simples e bastante ambicioso. Por um lado, o diretor José Luis Guerín dedica-se a retratar três anos na vida de Vallbona (o “bom vale” do título), vilarejo na periferia de Barcelona. Trata-se de uma localidade de classe média-baixa, composta por pequenos agricultores, e marcada por escassas oportunidades de trabalho. Mesmo assim, os habitantes demonstram profundo apego pelo local e pela própria cultura, rejeitando os conselhos externos de se mudarem para a cidade grande. Nota-se um orgulho e um carinho muito grandes pelas hortas, as pequenas casas, o lago onde se banham.
Assim, o cineasta promove um olhar plácido, sem pressa, nem carregado de discursos a priori. Nunca se aproxima desta região para apresentar alguma tese específica a respeito da geografia, da política, da sociedade. Trata-se de uma postura atenta, disposta a aprender, ao invés de ensinar algo (seja aos moradores, seja aos espectadores do documentário). Testemunhamos os almoços, as festas, as conversas dos vizinhos, as brincadeiras das crianças, as lembranças dos idosos. Os personagens possuem notável liberdade para se expressarem como bem entenderem, diante de planos fixos e longos. Enquanto isso, a câmera espera por um instante de magia, de afeto ou atrito, para compor este mosaico ao final. A montagem provavelmente dispunha de farto material bruto em mãos, antes de determinar a forma final do filme.
Histórias de um Bom Vale resulta numa obra humanista, promovendo um gesto de empatia e de interesse pela realidade alheia. Um cinema político, na acepção mais amorosa do termo.
Em contrapartida, tamanha abertura da mise en scène transparece a desafiadora ambição de retratar uma comunidade inteira. Busca-se captar as diferentes gerações, sexos, culturas e origens. Há homens e mulheres; crianças, adultos e idosos; espanhóis, mas também portugueses e cidadãos de países africanos; cristãos e muçulmanos; conservadores e progressistas. Durante as conversas, surgem divergências que jamais se transformam em brigas, tampouco em tensões de fato. O olhar privilegia certa convergência entre as diferenças, transmitindo um olhar otimista ao senso de comunidade. Por isso, a partir de uma entrevista inicial (a convocatória para os habitantes de Vallbona compartilharem suas experiências), prefere que conversem entre si, provoquem-se e discutam enquanto a equipe, a alguns passos de distância, os acompanha.
A dúzia de protagonistas se mostra bastante confortável diante do dispositivo — sinal de que a direção soube criar intimidade e confiança entre artistas e personagens. Ao mesmo tempo, percebem-se alguns instantes de ficcionalização — quando todos observam a passagem das árvores através da janela, ao mesmo tempo, ou ainda na fuga final, com medo da polícia, incluindo o plano de detalhe de uma melancia pisoteada ao vivo. Mesmo assim, seja entrando no jogo de composições proposto por Guerín, seja expressando-se de maneira não-roteirizada, demonstram igual naturalidade em frente às câmeras. Existe uma disposição lúdica a participar desta criação coletiva, onde não parece haver senso de prioridade — nem dos personagens uns com os outros, nem da direção em relação aos vallbonenses.
Por isso, o cineasta inclui no corte final suas perguntas e comentários, sublinhando o caráter de conversa descompromissada com estas figuras. Mesmo ausente nas imagens, o espanhol se faz personagem, num projeto que insiste em nos lembrar de sua configuração enquanto criação. Ao contrário dos pretensos “filmes de observação” que aparentam ter sido construídos apesar de seus personagens, este aqui dependeu de evidente colaboração por parte dos mesmos. Assim, Histórias de um Bom Vale combina o senso de controle de uma ficção com o despojamento esperado de um documentário. Associa as entrevistas tradicionais às falas totalmente espontâneas. Deste modo, transita entre linguagens com uma naturalidade nada óbvia — enquanto muitos diretores se perdem, em propostas semelhantes, ao falsearem uma encenação evidentemente roteirizada. Ora, o autor nunca tenta disfarçar esta interação de algo diferente do que este contato amigável, cúmplice e vizinho.


O único elemento de conflito, caso possa ser chamado desta forma, provém da construção de uma linha férrea passando pelo território. Trata-se de uma obra evidentemente nociva aos moradores: além do ruído, da sujeira e da destruição dos campos, nem sequer oferecerá uma estação na cidade. Em tom melancólico, o filme registra tanto os comitês de residentes com as autoridades, quanto — num simples corte da montagem — o trem já finalizado, em movimento, passando a poucos metros de um bloco de apartamento, anos depois. O barulho é ensurdecedor, e a rotina destas pessoas (em sua maioria idosas) se transformou por completo. Mesmo assim, continuam presentes em Vallbona. No desfecho, quando são convidados a se reunirem nas águas, constata-se decisão geral de continuarem naquele espaço, juntos, ainda festejando, cantando e dançando. Há certa beleza nessa resistência mais simbólica do que militante.
Isso se constrói através de um projeto de recursos limitados. O espectador deve perceber as captações simples, a luz natural, e as poesias analógicas in loco, a exemplo dos reflexos nas janelas. Não há grandes interferências em pós-produção, nem mesmo em trilha sonora. Em contrapartida, o longa-metragem transparece um precioso senso de composição dos planos; um olhar maduro para a duração dos planos e o ritmo; uma riqueza conceitual da imagem (a decisão de quando se aproximar, e quando filmar à distância, para respeitar conversas mais íntimas). O baixo orçamento nunca se faz sentir enquanto precariedade ou carência. A produção possui evidente consciência de seu alcance, e de como fazer o melhor uso possível das ferramentas à disposição. Assim como o olhar da direção, adequa-se ao mundo, ao invés de esperar que este se molde às vontades prévias do cinema. Por fim, Histórias de um Bom Vale resulta numa obra humanista, promovendo um gesto de empatia e de interesse pela realidade alheia. Um cinema político, na acepção mais amorosa do termo.




