
Luiza prepara seu primeiro filme como roteirista e cineasta. Ela repassa as cenas, ensaia com o elenco. Discute a iluminação com o diretor de fotografia, os cenários com o departamento de arte, e negocia com a produção algumas cenas que talvez precisem ser descartadas, caso falte tempo. Todas estas ações seriam perfeitamente comuns a qualquer set de filmagem, com a exceção de Luiza ser uma jovem com Síndrome de Down, em sua primeira experiência cinematográfica. Ela possui bastante interesse nas artes, além de um conhecimento considerável do audiovisual para sua idade. Mesmo assim, ainda lhe resta aprender uma série de códigos e concessões típicos das realizações. Precisa descobrir, acima de tudo, que o resultado nunca corresponde exatamente ao que se imaginava a princípio — os ajustes são necessários.
Logo, o longa-metragem corresponde a um raro making of prévio para o curta-metragem que descobriremos somente nos minutos finais. Em outras palavras, ao invés de a obra finalizada nos levar à curiosidade acerca de seu desenvolvimento, seguimos, na condição de cúmplices, os meses de preparação que levam às câmeras filmando. Reuniões iniciais, visitas de locação e negociações com o elenco se tornam rotina para a artista. Então, testemunhamos os bastidores do processo criativo — a preocupação com a luz mudando nas cenas externas, os carros contemporâneos aparecendo na trama da década de 1980, a trilha sonora cara demais para o orçamento disponível. Em outras palavras, o sonho da criadora precisa se ajustar à realidade da produção.
Em oposição a tantos olhares condescendentes, paternalistas e infantilizados a pessoas com deficiência, o filme curitibano promove uma narrativa de amadurecimento através da arte.
A Holandesinha possui o mérito de apresentar o cinema enquanto profissão. Por maior que seja o encantamento da diretora e dos atores, somos convidados a testemunhar o cinema enquanto ofício, cujas regras se aprende e se aperfeiçoa. Não se nasce diretora — torna-se. Felizmente, o grupo de profissionais ao redor de Luiza possui ampla experiência, demonstrando real interesse em viabilizar o curta-metragem da melhor forma possível. Some a gentileza inofensiva do faz-de-conta, do fingir-cinema. Todos desempenham sua tarefa com comprometimento, visando o melhor resultado possível a partir da história original. Luiza é tratada como qualquer outra diretora nesta situação. (E acredite-se: muitos cineastas experientes tampouco dominam fotografia, arte, som e montagem, precisando que os respectivos profissionais lhes digam como atingir o efeito desejado).
Em especial, a artista em ascensão possui a rara oportunidade de aprender cinema enquanto o faz. “Deus deu esse dom para mim, de ver a câmera se movimentando”, ela explica, antes de aprimorar o talento inato. Mesmo assim, raros criadores iniciantes contam com uma equipe deste porte, filmando em diversas locações, com vários figurantes, e dispondo de recursos consideráveis de arte e fotografia. O acolhimento desta amadora (talentosa, sem dúvida) num mundo de experientes representa um gesto generoso, mas nada paternalista. Ela é escutada e respeitada, ao passo que precisa levar em consideração os conselhos e avisos fornecidos por terceiros. Aquilo que tantas equipes repetem na apresentação de seus filmes, no palco dos festivais (“Cinema é uma arte coletiva”, “Eu não teria conseguido sem a cooperação desta equipe”) prova-se verdade, sobretudo ao público pouco familiarizado com o intricado andamento de uma obra audiovisual. Enquanto Luiza aprende a dirigir, o espectador talvez também aprenda a decifrar a magia da sétima arte.
Neste sentido, o resultado do curta-metragem As Lágrimas de Pierrot ocupa um segundo plano. A narrativa desta ficção será compreendida na sua totalidade apenas na revelação final — até porque as gravações ocorrem fora de ordem, é claro. O documentário vale pela jornada, pelo percurso, com destaque para as trocas com cada membro da equipe, as frustrações diante de uma cena cortada, as ideias satisfatórias que surgem em plena filmagem. A alegria de finalizar um extenso dia de trabalho, a ansiedade de começar o seguinte. O aspecto de “querido diário” se completa através desta rede de apoio, equilibrando de maneira profundamente respeitosa as vontades de Luiza, e a necessidade simultânea de guiá-la. Poucos sets são apresentados ao espectador com tamanho carinho e camaradagem. O fazer artístico se converte em gesto de afeto — em outras palavras, há tanto apreço pelas descobertas quanto pelo projeto finalizado.
Convém ressaltar que, em As Lágrimas de Pierrot, a Síndrome de Down jamais se torna um conflito narrativo. A trama do pierrô buscando sua colombina, perdida depois da festa de Carnaval, é movida por um garoto com Down (João Vitor de Paiva) e sua amada. Eles se encontram, se perdem, se reencontram. A obra de ficção também coloca os indivíduos com Down num espaço social de múltiplas interações — a escola, as festas, o exército, as bibliotecas públicas. Nem no documentário sobre o curta, nem no romance concebido por Luiza, este seria um fator de diferenciação ou estranhamento. A vivência cotidiana de uma pessoa com deficiência é deixada em segundo plano, posto que a perspectiva prefere se concentrar no aspecto profissional da garota.


A naturalidade com que se insere uma pessoa com Down num complexo ambiente de trabalho, onde raramente seria encontrada (numa posição de liderança, em particular) constitui um valor em si próprio. Por fim, A Holandesinha também corresponde a um feel good movie, uma comédia leve e descompromissada, repleta de acidentes e quiproquós de simples resolução — a exemplo da narrativa elaborada pela cineasta. O making of espelha e expande a proposta dela, colocando Luiza como protagonista, e convertendo João Vitor num alter-ego da diretora. Os dois jovens com Down se inserem num meio normalmente reservado a indivíduos sem deficiências, e são aceitos em tarefas produtivas, criativas.
Seria um risco para a crítica de cinema simplesmente felicitar o resultado por sua raridade. Por este ponto de vista, o longa-metragem se reduziria ao mérito retórico de sua existência. Ora, Luiza e os diretores João Gabriel Kowalski e Sergey Komarov, que colaboram na criação, expõem um sistema mais interessante e complexo de negociações e concessões, invenções e ajustes ao vivo, in loco, diante dos nossos olhos. Criadores com Síndrome de Down, neste caso, são observados enquanto artistas, que certamente transparecem uma visão de mundo própria, além de uma forma de dirigir e roteirizar que outras pessoas não teriam. Em oposição a tantos olhares condescendentes, paternalistas e bastante infantilizados a pessoas com deficiência, o filme curitibano promove uma narrativa de amadurecimento através da arte — um coming of age story, no qual a passagem à fase adulta decorre da oportunidade de dominar o meio e moldá-lo às suas vontades. Por fim, a iniciativa audiovisual representa um presente para a cineasta, e também uma oportunidade de exercer sua cidadania e profissionalismo.




