Alvorada (2026)

Fim da linha

título original (ano)
Alvorada (2026)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
17 minutos
direção
Igor Barradas
elenco
Roney Villela, Viní Ventania, Polly Milaje, Cesario Candhí, Mariane Araujo
visto em
9ª Mostra de Fama (2026)

A primeira surpresa neste curta-metragem diz respeito ao cuidadoso trabalho de direção de fotografia. Apesar de uma ambientação de aparente descontrole (o trânsito do Rio de Janeiro, o transporte ilegal das lotações), nota-se o esmero de Jorge Bernardo na composição dos planos e na iluminação noturna. Mesmo quando o veículo enfim estaciona em alguma ruela vazia e escura, o olhar do espectador ainda é direcionado para os trechos da imagem que interessam à direção.

No centro destas belas imagens está Jorge (Roney Villela), conversando com os passageiros enquanto relembra da amada Tetê (Viní Ventania), que o rejeitou. Villela tem se tornado um dos atores mais interessantes do cinema atual brasileiro, seja protagonizando longas-metragens (A Morte Habita à Noite), seja roubando a cena em grandes elencos coletivos (O Agente Secreto). Aqui, ele e outros personagens são calibrados para um teor de malandragem um grau acima do naturalismo. Aproximam-se assim de exemplos de caso (o homem hétero ressentido, a mulher trans de temperamento forte, a colega de trabalho que encoraja o herói a viver seu amor).

Deste modo, percebe-se que o diretor Igor Barradas gosta de trabalhar com tipos sociais, contanto que possa subvertê-los dentro da ótica habitual de virtude masculina. Nesta narrativa, os homens são fracos, tristes, solitários, enquanto as figuras femininas se impõem sem dificuldade. O projeto se filia às leituras ultra contemporâneas da hétero-masculinidade frágil, decadente, num mundo que não a comporta mais – junto de Grão, Oeste Outra Vez e Obeso Mórbido, por exemplo.

É uma pena que alguns elementos diminuam a potência do filme. A colega de kombi (interpretada por Polly Milaje) é pouco desenvolvida, dependendo dos estímulos do protagonista masculino para existir em cena. Na hora em que se introduz uma criança negra na trama (quando a trama desvia o foco para Tetê), a luz (tão preciosista até este momento) oculta por completo o rosto do menino nas sombras. A iluminação de corpos e rostos negros continua sendo uma questão ética fundamental no cinema brasileiro atual. Além disso, alguns cortes são estranhamente abruptos, como se interrompessem o meio de uma frase.

Mesmo assim, resta o forte trabalho de ambientação. A montagem de André Sampaio estende as cenas por tempo suficiente para ainda imprimirem bom ritmo, mas sugerirem certo desencantamento. Nem otimista, nem particularmente pessimista, o olhar da direção aparenta constatar a derrocada da figura tradicional do macho como um movimento inevitável, e necessário para que mulheres como Tetê possam tomar as rédeas de sua vida (e da trama) para seguir em frente.

Alvorada (2026)
7
Nota 7/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.