
Antes de entrarmos de fato na vida de Avenca (a diretora Aisha Brunno), esta curta-metragem se inicia com uma roda de samba. As imagens estão “borradas” pela fotografia, descaracterizando corpos, gêneros, identidades. São apenas pessoas se divertindo num fluxo indistinto, quando não se percebe quanto termina uma e começa a outra. Este olhar democrático ao prazer coletivo, à experiência comunitária, acaba pautando os desejos íntimos da protagonista.
Afinal, trata-se de uma atriz que pediu demissão do grupo onde atua, devido ao assédio moral de superiores; e precisa da ajuda da irmã para ganhar uma graninha, na função de babá da sobrinha. O dinheiro anda curto, porém, a personagem encontra-se longe uma crise aguda — a narrativa evita um retrato de miséria. Apesar dos dias difíceis para a heroína, ela pode contar com os familiares, e possui uma relação carinhosa com o namorado. As dúvidas são de ordem interna, em relação aos objetivos profissionais, posto que, num âmbito afetivo, a personagem parece muito bem resolvida.
Aisha Brunno sempre se mostrou uma atriz muito interessante, sobretudo em Tudo o que Você Podia Ser (2023). Aqui, ela demonstra a intimidade de quem parece ter vivido aquelas situações: tanto a conversa amigável no quintal quanto o instante em que acorda ao lado do namorado transparecem uma naturalidade nada fácil de obter em frente às câmeras. Tamanho despojamento busca um equilíbrio com a fotografia controlada, avessa ao acaso — vide a conversa de Avenca no fundo do enquadramento, enquanto a garotinha estuda em primeiro plano; ou a contemplação da natureza pelo namorado ao longo do dia.
É uma pena que o projeto sofra com tantos problemas de som. Seja na captação do som direto, na mixagem de som, e mesmo no registro da voz da protagonista em off, O Caderno de Avenca possui graves falhas de som. Cogitou-se, durante a exibição da Mostra de Fama, que este fosse um problema da projeção, mas a tese foi desconsiderada diante do som equilibrado dos demais curtas na mesma sessão. Se não fosse pela qualidade tão prejudicada do tratamento sonoro, o resultado certamente alcançaria maior força.
Além disso, um ou outro detalhe soa inocente, quase fabular – vide a ideia de que, aprovado num primeiro edital, o casal teria a garantia de aprovação nos próximos, e seus problemas financeiros estariam terminados. Quem dera a situação das políticas públicas para a arte funcionassem dessa maneira… Mesmo assim, resta um belo retrato de personagem, no qual dificuldades cotidianas nunca precisam ser exacerbadas para finalidade exemplar, nem para despertar empatia ou piedade. O filme olha para esta mulher de igual para igual, e neste respeito baseia-se o princípio ético fundamental da direção.




