Zona Zero (2026)

Zumbis 2.0

título original (ano)
Gunche (2026)
país
Coreia do Sul
gênero
Ação, Fantasia, Terror, Ficção Científica
duração
123 minutos
direção
Yeon Sang-ho
elenco
Jun Ji-hyun, Koo Kyo-hwan, Ji Chang-wook, Kim Shin-rock, Go Soo, Shin Hyeon-bin
visto em
Cinemas

Em Zona Zero, o diretor Yeon Sang-ho imagina uma nova configuração para os zumbis. Além de ágeis e desinteressados em cérebros, as criaturas infectadas possuem excelente capacidade de comunicação entre si. O roteiro parte de uma invenção biotecnológica permitindo aos seres enxergar pelos olhos uns dos outros, além de transmitirem informações telepaticamente. Para tal, basta recorrer a uma gosma vomitada pelos próprios, e besuntada no corpo inteiro. Assim, deixam de seguir um líder de forma catatônica para aprenderem e evoluírem, biologicamente, conforme o ataque ocorre. Surge o primeiro super exército de mortos-vivos.

Esta curiosa atualização dos monstros clássicos se torna a principal originalidade do longa-metragem, impactando na experiência estética e narrativa. Agora, posto que agem juntos, a exemplo de formigas, eles possuem movimentos sincronizados e gestos idênticos. Param e se movem ao mesmo tempo. Erguem a cabeça aos céus durante alguma transmissão de conhecimento, e viram-se à vítima em simultâneo. Consequentemente, criam a curiosa impressão de uma coreografia, uma performance ensaiada, não muito diferente do clipe de Thriller, de Michael Jackson. Ao invés da pretensa aleatoriedade dos zumbis tradicionais, estes são movidos por um controle implacável. 

O diretor Yeon Sang-ho imagina uma nova configuração para os zumbis. Mesmo assim, o roteiro recorre a diversos facilitadores, servindo unicamente ao propósito do show.

No que diz respeito ao andamento da trama, convertem-se em soldados perfeitos, porque robóticos, programados para seguir ordens sem questionamento. Uma vez atacados, não podem voltar atrás. Este comportamento sempre foi explorado pelo cinema enquanto alegoria da alienação política, porém, nos tempos vividos pela sociedade brasileira, talvez se tornem ainda mais relevantes. Já que parte considerável dos conhecimentos detidos pelo bioterrorista Seo Yeong Cheol (Koo Kyo-hwan) deriva dos telefones celulares e das mensagens de WhatsApp, cria-se uma metáfora potente para a desinformação enquanto contaminação social, capaz de transformar seres desocupados em máquinas de ódio. O nosso Brasil em ano eleitoral poderia ser ilustrado pela fábula sul-coreana.

Em paralelo, uma vez mais, o cineasta demonstra o profundo interesse em explorar o terror espalhando-se por espaços confinados. Em Invasão Zumbi (2016), analisava o contágio acelerado dentro dos vagões de um trem em movimento. Agora, recorre ao edifício hermeticamente isolado pela polícia (algo semelhante ao recente Infestação, de 2023). Como a polícia não pode entrar, nem as vítimas conseguem fugir, isso implica na resolução na necessidade de resolver conflitos sozinhos. Por isso, o roteiro ajuda seus pobres frequentadores do shopping center ao formar uma equipe extremamente competente. Estão presentes um senhor forte e atlético, uma especialista em biologia, um segurança com conhecimentos a respeito das escadas e elevadores, e assim por diante. Cria-se o problema, porém, com facilitadores, para que esta dezena de vítimas tenha esperanças de escapatória.

Logo, entram em cena os conflitos de ordem ética e moral. Uma vez detectada a cura, não resta tempo para voltar e resgatar a única mulher deixada no outro andar do prédio. Vale a pena sacrificar uma pessoa em nome do bem da nação inteira? Outro policial utiliza um homem enquanto escudo humano para escapar às ameaças. Pode o ímpeto da individualidade se sobrepor à defesa do coletivo em hora de necessidade? O instinto de autoproteção justifica tamanho desprendimento dos demais? Zona Zero (estranho título nacional para o original Colônia, visto que o espaço nunca é batizado desta forma) mergulha num proto-“dilema do bonde”, perguntando ao espectador o que ele mesmo faria em tais circunstâncias. Pensar em si ou nos demais? No grupo completo, ou prioritariamente nos indivíduos mais valiosos dentro dele? 

É claro que a proposta filosófica resulta básica, e condicionada à lógica do espetáculo. Tal questionamento somente interessa a Yeon Sang-ho enquanto puder gerar tensões, intrigas, traições, atos de heroísmo ou ofertas de martírio em nome do bem comum. Por isso, a mulher cadeirante é explorada sobretudo enquanto obstáculo superior aos corajosos e fortes homens no edifício. Uma adolescente consumista resume-se à insistente tarefa de atrapalhar os demais com seus gestos irrefletidos. A narrativa nos diz claramente por quem torcer e quem detestar, preservando um maniqueísmo exemplar nas suas categorias sociais (o segurança gentil, o policial corrupto, a bióloga inteligente, a adolescente rancorosa, etc.). Os personagens não são dotados de contradições nem complexidades palpáveis, pelo contrário, servem a ilustrar, de maneira didática, comportamentos sociais exagerados (a mesquinhez, o altruísmo, a impulsividade, e assim por diante).

Por isso, o roteiro recorre a diversos facilitadores, servindo unicamente ao propósito do show. Convém que a principal aliada de Se Jeong (Jun Ji-hyun) fora do prédio seja a nova esposa de seu ex-marido, com que precisa formar uma aliança. Interessa aos propósitos sentimentais que, na hora da morte de um personagem, seu celular toque, com os dizeres “amor” e a foto de uma mulher na tela. Surpreende que o sujeito amoroso imediatamente se converta numa máquina assassina quando contrariado, e que o celulares estejam sempre carregados, em pleno funcionamento, e prontos para a comunicação. Aqui, a sociedade falha, os seres humanos se mostram egoístas e perversos, mas o WhatsApp se traduz na forma mais eficaz possível de interação social — e também de sobrevivência diante da barbárie.

Ao menos, com ressalva a tantos truques hollywoodianos (sacrifícios de marido e esposa, salvação entre irmão e irmã), Zona Zero consegue criar sequências impressionantes de ação. O diretor de fotografia Byun Bong-sun aposta no pressuposto de colocar o espectador no meio dos confrontos, a poucos centímetros dos zumbis sangrentos e gosmentos. Nada de observá-los de longe, de maneira frontal e polida: o filme busca a sujeira, o nojo, o impacto físico de estar no local. Em outras palavras, somos incluídos na condição de cúmplices, tal qual um personagem suplementar no interior do shopping center, precisando escapar das criaturas. Gera-se, desta forma, a imersão desejada, fruto de uma geografia da perseguição, cuidadosamente pensada em termos de potencial dramático (a sala com araras de roupas, o elevador paralelo). A narrativa resume-se, de fato, a um jogo de gato e rato, ou a um labirinto repleto de perigos, num modelo semelhante ao Pacman.

Enquanto proposta de blockbuster, de forte impacto e poder de escapismo, a obra cumpre seu propósito. O clímax nas ruas da cidade costura as pontas soltas do início, gerando o melhor balé de zumbis apresentado até então. Talvez a trama se esquive de propor uma discussão realmente aprofundada a respeito dos complexos temas que aborda, sacrificados em nome do prazer do entretenimento ligeiro. Mesmo assim, demonstra aquilo que os sul-coreanos, cada vez mais afiados enquanto indústria voltada à exportação, conseguem fazer com um orçamento de apenas US$ 12 milhões (o valor de uma produção independente, de pequeno porte, nos Estados Unidos). A indústria sul-coreana tem conseguido explorar os códigos alheios, reinterpretando-os à sua maneira, com símbolos e valores locais, ao passo que transforma seus astros e cenários em motivos de forte atração internacional. O filme, exibido inicialmente no Festival de Cannes, já acumula US$ 54 milhões mundialmente até o dia da escrita deste texto, e nem mesmo estreou em diversos mercados relevantes.

Zona Zero (2026)
7
Nota 7/10

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