Disciplina (2026)

O futuro é hoje

título original (ano)
Disciplina (2026)
país
Brasil
linguagem
Drama, Performance
duração
45 minutos
direção
Affonso Uchôa
elenco
Kelly Crifer, Nicolas Nill, Carlandréia Ribeiro, Carlos Henrique, Renan Rovida, Alex Alcântara, João Victor Malva, Júlia Couto, Kauan John, Lorena Victoria, Yasmin Mota
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

No final de Sete Anos em Maio (2019), o diretor Affonso Uchôa utilizava, com seus atores naturais, uma dinâmica próxima da performance. Sob comando de uma voz, eles se levantavam e agachavam, num registro intermediário entre a brincadeira e o happening. Uma questão de condicionamento dos corpos, de ação coletiva e disposição a jogar junto (em inglês, “atuar” e “jogar” possuem o mesmo verbo, to play) transparecia neste dispositivo curioso, e assumidamente artificial. 

Agora, Disciplina expande o pressuposto, efetuando um novo média-metragem composto quase inteiramente de variações deste mecanismo. Numa escola, os alunos se rebelam contra um ensino clássico que não os motiva. Quando o aluno Nicolas (Nicolas Nill) provoca a professora Kelly (Kelly Crifer), ele é enviado à sala do diretor. No entanto, enquanto o responsável não chega, a sociedade inteira adentra aquele cômodo: policiais truculentos, a mãe de um garoto desaparecido, o faxineiro (Renan Rovida), os colegas de classe. Ao invés de levar os personagens à comunidade, o cineasta traz a comunidade para o centro deste palco cinematográfico.

Segue-se, então, um teatro do absurdo — ou a interpretação do mesmo para a linguagem do cinema. De pé, os atores anunciam se tratar de um filme, e listam os créditos principais em voz alta. A mãe sofrida (Carlandréia Ribeiro) entrega-se a variações de um único monólogo, a respeito de seu trabalho estafante e da dificuldade de vigiar seu menino. “Eu sou uma mulher ocupada…”. O policial truculento, na ânsia de se vingar dos alunos pobres, declara que há “muitos delinquentes” na escola. Logo, o pequeno embate se torna mais amplo e exemplar. Debate-se a educação, a autoridade, a autonomia, a juventude — e a ausência deste diretor-Godot se torna a desculpa perfeita para mantê-los naquele cômodo. Como motivar estes alunos, quando os próprios educadores se encontram exaustos? Deveriam defender o ensino enquanto transmissão de valores, possibilidade de conseguir um salário mais tarde, ou simplesmente um lugar para ficarem enquanto os familiares trabalham?

Uchôa mostra-se disposto a aprender com os estudantes aquilo que tenham a transmitir, ao invés de lhes impor um ponto de vista prévio.

Esta cena-clímax é entrecortada pelos jograis e performances dos garotos e garotas. Eles enunciam, em voz alta, seus medos e sonhos, solicitando aos demais que façam o mesmo. Nunca se interrompem, nem se sobrepõem. Esta não é uma conversa naturalista, mas uma proposta (terapêutica, educativa, artística?) de dar voz aos adolescentes para compartilharem sua intimidade. Estima-se, desta forma, que o primeiro passo rumo à educação reparadora seria escutar esta geração. Eles relembram os conflitos ligados à baixa renda, à orientação sexual, à autoimagem. Aceitam um dispositivo onde disparam críticas um ao outro, fazendo o interlocutor repetir, a respeito de si próprio, as provocações sofridas. Estimula-se o conflito dentro de um âmbito lúdico, previamente consentido entre as partes. Por isso, a violência do filme se dirige ao sistema, nunca ao indivíduo.

Em consequência, a experiência interessa por ser, ao mesmo tempo, bastante naturalista e completamente encenada. É muito fácil acreditar nestes jovens, com seus nomes reais, comunicando-se em diálogos de aparência improvisada, ou minimamente condicionada por Uchôa. O linguajar, as preocupações soam genuínas — assim como eram as confissões melancólicas dos protagonistas de Sete Anos em Maio e Arábia (2017). Entretanto, este despojamento ocorre no interior de um agenciamento cênico que se assume como tal, e nunca tenta se passar pela vida como ela é. Disciplina assume-se o tempo inteiro enquanto filme, construção, processo. O autor elabora uma obra com seus personagens (ao invés de sobre seus personagens), despertando a impressão de um método ao vivo, ocorrendo diante dos nossos olhos. 

Atinge, desta forma, um cinema muito singular, tanto pelas raras ferramentas de mise en scène, quanto pelo formato incomum do média-metragem, que lhe permite desenvolver personagens, mas ainda encerra a narrativa no equivalente cinematográfico de um conto, em detrimento do romance. Conhecemos os personagens, seus dilemas e aspirações, entretanto, a narrativa jamais desperta a impressão de nos conduzir a um propósito específico, nem uma mensagem preconcebida. Uchôa mostra-se disposto a aprender com os estudantes aquilo que tenham a transmitir, ao invés de lhes impor um ponto de vista prévio. Neste posicionamento empático, percebe-se uma bem-vinda horizontalidade entre equipe e personagens. Aqui, os garotos e garotas se tornam agentes da fala e autores de suas histórias, ao invés de objetos do olhar alheio. Além disso, possuem valor equivalente entre eles, fugindo a hierarquias ou segmentações. O protagonismo permanece coletivo.

Entre os atores experientes, é sempre um prazer encontrar Kelly Crifer em propostas tão naturais quanto ostensivamente encenadas. Ela rouba a cena em cada filme que aparece (caso de No Coração do Mundo e Suçuarana), e espera-se que o cinema do Brasil inteiro, além da forte produção mineira, ofereça papéis maiores e mais desafiadoras à artista, certamente capaz de abraçar qualquer registro. Rovida, por sua vez, oferece-se à variação da figuras do homem comum, o sujeito trabalhador que poderia, facilmente, passar à performance. Pela facilidade com que transita entre a desafetação e a empostação, presta-se sem esforço aos jogos híbridos de ficção e aparência documental, habituais nos novos cineastas mineiros. 

Resta o encorajamento a um pensamento a respeito do futuro. Os alunos discutem o que seria de suas vidas após a escola: trabalho, dinheiro, amores? O futuro seria ter uma família? Concluem que o futuro é… hoje. Agora. Exibido na 50ª Mostra de São Paulo no exato momento em que a sociedade brasileira se rasga nas eleições presidenciais, entre a esperança democrática e o ressentimento punitivista, o filme se torna ainda mais potente. Aquela escola-palco, aquela sala-teatro-cena torna-se uma ilustração de Brasil, composto por jovens e adultos, de diversas raças e orientações sexuais, divididos entre propostas progressistas e conservadoras; acolhedoras e belicosas. Nada se resolve, é claro — o diretor nunca cairia na armadilha de oferecer soluções fáceis a problemas tão complexos. A ludicidade destes jograis lhe permite formular as boas questões, deixando ao espectador que reflita a respeito das respostas.

Disciplina (2026)
9
Nota 9/10

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