Uma Família | “Prefiro destacar a imperfeição da humanidade”, declara Mees Peijnenburg

A 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo representou a primeira viagem do diretor Mees Peijnenburg ao Brasil. O holandês veio apresentar seu segundo longa-metragem, Uma Família (A Family, no original). O drama se concentra no turbulento divórcio de um casal (Carice van Houten e Pieter Embrechts) pela perspectiva da filha adolescente e do filho pequeno (Celeste Holsheimer e Finn Vogels).

Enquanto uma juíza pede que eles decidam em qual casa preferem ficar, a garota se rebela e o menino tenta entender a pressão sofrida dos dois lados. A trama se divide em capítulos, para contemplar o ponto de vista de cada um deles. Assim, as cenas se completam e compreendemos as atitudes de cada personagem.

O cineasta conversou com o Meio Amargo sobre o projeto:

Por que decidiu separar esta história entre vários pontos de vista?
Mees Peijnenburg: Eu sempre me interessei por diferentes perspectivas e pela maneira como vivenciamos o mundo de formas tão distintas, mesmo quando passamos pelas mesmas situações. Com este filme, queríamos colocar esses acontecimentos recorrentes sob uma lupa, para ver como essas duas crianças procuram a mesma coisa, mas de maneiras muito diferentes. E também para compreender um pouco melhor as pessoas ao nosso redor.
No primeiro capítulo, acompanhamos Nina e, então, vemos o garotinho se aproximando. De início, podemos pensar que ele é um pouco irritante, que não para de perturbar nunca. Mas no segundo capítulo, quando enxergamos o mesmo acontecimento pela perspectiva dele, descobrimos o quão triste era aquele acontecimento. É exatamente isso que o filme quer mostrar: você não entende até ver. Essas duas crianças estão lutando a mesma luta.

Eu sempre me interessei pela maneira como vivenciamos o mundo de formas tão distintas, mesmo quando passamos pelas mesmas situações.

Mas então, chegamos ao terceiro capítulo, que não tem nome. Seria a perspectiva de ninguém? A “verdade”?
Mees Peijnenburg: Decidimos colocar este capítulo desde o início. Durante muito tempo, ficamos pensando: como vamos chamá-lo? O que queremos fazer com ele? Afinal, os dois primeiros capítulos são muito especificamente direcionados à irmã e ao irmão.
Para mim, o terceiro capítulo é o capítulo da esperança. Ele representa aquilo que os dois começaram a procurar desde o início do filme, sem desistir. Por isso, não queria começar o terceiro capítulo já oferecendo esta resposta. É sobre como esses dois mundos colidem, ou como duas pessoas solitárias se tornam um dueto.
Essa também é a maneira como abordamos a trilha sonora, por exemplo. A música do primeiro e do segundo capítulos são a mesma composição. Literalmente, você ouve a música inteira na parte dela, e depois, ouve exatamente a mesma música com ele. No terceiro capítulo, de repente, ela se torna uma variação dessa música: é a música deles. No começo, eram apenas solos.

As duas crianças são excelentes. Como trabalhou com elas? E com o elenco adulto?
Mees Peijnenburg: Fiz isso de maneiras muito diferentes. Eu adoro trabalhar com atores, é a minha parte favorita. Literalmente, acho muito divertido. Os quatro atores eram muito diferentes entre si. Eles formavam uma variedade bonita, e eram muito sensíveis. Mas, com a personagem Nina, por exemplo, criamos uma personalidade inteira, com uma playlist no Spotify, painéis de referências para as roupas… Fizemos isso com Celeste Holsheimer, que interpreta Nina.
Mas com Finn Vogels, que interpreta Ailie, ele não leu o roteiro. Ele só sabia como o filme começaria, como terminaria, e qual era a história geral, de maneira vaga. Mas sentimos que, quanto menos ele soubesse, mais animado ele se tornaria. É uma criança que adora atuar, que adora as emoções. Portanto, esse era o jogo dele. Nunca pensamos em colocá-lo em um espaço seguro, por exemplo. Qualquer cena para ele representava uma alegria. Mesmo nas cenas de partir o coração, dava para ver que ele adorava mergulhar naquela situação. É um garoto tão inteligente que, depois de duas ou três semanas de filmagem, ele já conhecia todo o quebra-cabeça do roteiro, obviamente.
Em paralelo, Carice van Houten e Pieter Embrechts são dois atores com uma sensibilidade emocional espetacular. Trabalhar com ators deste nível é o maior privilégio para um diretor. Portanto, os quatro eram muito diferentes, mas foi a melhor experiência.

Esse foi um dos primeiros itens da nossa lista: sempre olhar para onde as pessoas não olham.

Já as imagens são fixas, bem compostas e clássicas. Por que escolheu esta estética tão… elegante?
Mees Peijnenburg: O Jasper Wolf, diretor de fotografia, é um artista visual da mais alta categoria. Nós dois chegamos muito bem preparados, com uma lista de planos e de marcações, tudo muito minucioso. Mas, enquanto estamos filmando, sempre reagimos ao que acontece no set. Portanto, as coisas mudam com frequência.
Moldar os aspectos visuais é algo muito interessante, por causa das diretrizes que a gente tinha em mente. Por exemplo, queríamos sempre olhar para onde os pais não estavam olhando. Na verdade, esse foi um dos primeiros itens da nossa lista: sempre olhar para onde as pessoas não olham. Assim, os pais podem estar brigando ou discutindo, mas nós estaremos com as crianças. Assim, não privilegiamos exatamente o motivo briga, mas as reações que ela provoca.
Por isso, nos aproximamos muito dos atores. Durante as filmagens, há uma cena, por exemplo, em que o garotinho está sentado em uma lanchonete, e o pai está do lado de fora, ao telefone. Ele está muito irritado, conversando com um advogado, e começa a gritar em determinado momento. Imagino que a abordagem acadêmica clássica seria filmá-lo de frente, aproximando a câmera de seu rosto para mostrar sua emoção. Mas o que fizemos foi nos aproximar lentamente de sua orelha.
Assim, nós nos tornamos o som. A direção de fotografia sempre buscou esta abordagem sensorial para representar a dor, o desespero, a alegria.

Durante as brigas de pai e mãe, você nunca tomar partido. Por quê?
Mees Peijnenburg: Era fundamental para nós não tomar partido. Não queríamos transformar um deles no vilão e o outro na vítima. Porque, para mim, não se trata do porquê ou do quê eles fazem, mas de como o fazem. O que aconteceu no passado, entre este casal, é obviamente importante para nós enquanto construímos os personagens. Mas a questão no roteiro é como eles acabam lidando com as consequências disso.
Por isso, também não sou contra o divórcio — meu interesse se encontra em como as pessoas se divorciam. Para construir esses personagens adultos, eu havia decidido que essas duas pessoas realmente se amaram profundamente, mesmo que isso não esteja no filme. Amaram-se muito, e por isso mesmo, o rompimento é tão doloroso, por vir de um lugar muito profundo.
De repente, as crianças são obrigadas a tomar grandes decisões adultas, enquanto os pais se parecem com crianças, pela maneira como se comportam. Eles estão assustados, e pessoas assustadas às vezes fazem escolhas estranhas. Então, eles brigam por onze minutos, algo realmente exagerado, mas que também mostra a falta de motivos, a irritação prévia.
Eu prefiro destacar a imperfeição da humanidade. Quem são de fato esses seres humanos? “Humanidade” soa grandioso demais, mas estamos falando de pessoas sofrendo, em desespero. Às vezes, elas tomam decisões ruins, mas eu entendo as decisões delas. Isso é humano. E isso vem de um lugar de dor, não de maldade. Eles não querem machucar ninguém; não são seres humanos ruins, apenas pessoas sofrendo. Eu sinto empatia por isso.

Estamos falando de pessoas sofrendo, em desespero. Às vezes, elas tomam decisões ruins, mas eu entendo as decisões delas.

Gostaria de saber um pouco mais sobre as circunstâncias de produção deste filme. É o seu segundo longa-metragem, correto?
Mees Peijnenburg: Isso mesmo. Olha, produzir um filme é um quebra-cabeça enorme. É preciso que várias condições estejam presentes para acontecer. Tivemos muita sorte, obviamente, porque Carice estava a bordo, Pieter estava a bordo e, na Holanda, conseguimos a maior parte do financiamento. Depois, fizemos uma coprodução com a Bélgica, o que levou bastante tempo.
Temos um maravilhoso agente de vendas da França, que obteve um fundo cinematográfico europeu. São peças de um quebra-cabeça, que vão se somando até completarem a imagem. Mas as coproduções se tornaram essenciais para nós.

No Brasil também. Nossos dois grandes sucessos recentes, Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, são coproduções com a Europa.
Mees Peijnenburg: Exatamente. E também acho muito bom coproduzir, porque assim você descobre culturas diferentes. Por exemplo, esta é a minha primeira vez no Brasil. Tivemos nossa exibição aqui na Mostra, e fiquei muito emocionado com a reação do público. Isso é algo que me toca profundamente, por ser um país tão diferente daquele de onde venho.
Ainda assim, o filme ressoa. Sinto que estamos conectados, somos capazes de alcançar algo juntos. Para mim, isso também acontece nas coproduções, por exemplo, que nos permitem atravessar fronteiras, e eu adoro isso. A sessão do filme no Brasil acabou representando um momento muito forte para mim.

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