Desde a sua primeira exibição, o drama mexicano Chicas Tristes tem conquistado uma trajetória estelar nos festivais de cinema. O filme de Fernanda Tovar venceu a Mostra Geração do Festival de Berlim, e foi selecionado nos festivais de Cannes, San Sebastian, Tribeca e Cartagena. Agora, chega ao Brasil dentro da programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Na trama, as adolescentes Paula (Darana Alvarez) e La Maestra (Rocio Guzman) são melhores amigas, e integrantes da equipe de natação da escola. Elas sonham em conhecer o Brasil, onde ocorrerá uma competição escolar importante.
No entanto, os planos são abalados após uma festa, quando Paula finalmente fica com o garoto dos seus sonhos. No dia seguinte, ela confessa a La Maestra ter perdido a virgindade com o rapaz, no entanto, com o passar dos dias, começa a perceber que foi, na verdade, vítima de violência sexual. Juntas, as amigas tentam compreender o que ocorreu e como agir a respeito.
Em viagem ao Brasil para a exibição do filme, Tovar conversou com o Meio Amargo sobre o longa-metragem:

Você dedica bastante tempo à amizade das protagonistas, antes de chegar ao conflito central. Por que fez esta escolha?
Fernanda Tovar: Bem, antes das filmagens, li um texto sobre uma pessoa que havia passado por uma situação semelhante. Ela dizia que o que mais lhe causava tristeza era sentir que haviam lhe tirado o direito à alegria. Essa ideia ficou muito forte dentro de mim. Então, eu queria retratar isso. Para perder a alegria, ou o direito à alegria, seria preciso primeiro mostrar a alegria. Por isso, para mim, era importante que, naquela parte do filme, falássemos sobre como eram as coisas antes da festa.
Como você trabalhou com as duas atrizes jovens? Afinal, embora você aborde a violência, nunca a representa em imagens.
Fernanda Tovar: Exato. Eu queria falar sobre a violência sem reproduzir suas imagens nem seus símbolos. Para mim, era fundamental não trazer mais uma vez aquelas imagens de violência que já vimos tantas vezes. Trabalhei esta ideia com elas em um processo de ensaios bastante longo, durante cerca de três meses antes das filmagens, quando fizemos muitos exercícios e improvisos. Nós nos concentramos bastante em construir a relação entre as duas.
Durante boa parte da trama, os adultos estão ausentes. O pai demora a aparecer. Por que preferiu deixar as adolescentes sozinhas?
Fernanda Tovar: Eu sentia que, na adolescência, você realmente tem essa sensação de que só existem você e seus amigos. Não é que os pais estejam ausentes porque sejam maus pais, sabe?Mas eu queria que esta fosse a perspectiva das adolescentes, e que elas tivessem que resolver o problema com seus próprios recursos.

Como pensou a relação do espectador diante deste caso? O filme nunca nos convida a ter piedade, por exemplo.
Fernanda Tovar: Eu queria colocar o espectador no mesmo nível que elas, no sentido de que nós não sabemos de nada que elas também desconhecem. Porque sinto que, muitas vezes, nos filmes sobre adolescentes, a câmera assume uma perspectiva muito adulta sobre a situação e os observa de longe. Esta câmera normalmente parece, de alguma maneira, um olha de cima, não é? Como se o olhar da narrativa tivesse muito mais sabedoria do que os personagens.
Eu queria colocar o espectador em uma relação horizontal, de modo que elas fossem as responsáveis por nos guiar, sem adotar uma perspectiva adulta, por assim dizer.
Por que decidiu dividir o protagonismo entre as duas, ao invés de se concentrar somente na vítima?
Fernanda Tovar: Porque acho que essas questões são sempre tratadas como se fossem uma pessoa contra outra, como se apenas dois indivíduos fossem afetados. Mas a verdade é que, quando algo assim acontece, todo o entorno sofre as consequências. Me parece importante falar sobre isso: as consequências não apenas para uma pessoa, mas também para uma amiga. Além disso, queria fazer um filme sobre a amizade, sobre a solidariedade e a empatia de ver alguém que você ama passar por algo difícil.
Paula demora a perceber o que lhe aconteceu. A percepção da violência vem aos poucos.
Fernanda Tovar: Isso é mais comum do que imaginamos. Muitas pessoas acreditam que, quando algo desta natureza acontece, você imediatamente compreende o que aconteceu, e sabe o que precisa fazer em seguida. Mas existem muitas histórias de mulheres que só anos depois percebem que viveram situações de violência, que passaram por acontecimentos violentos.
Então, são questões complexas, difíceis de compreender e de interiorizar. Eu queria retratar também a dificuldade desse processo. Porque acho que elas nem sequer entendem o que aconteceu. Aos poucos, vão compreendendo, assim como nós, espectadores, descobrimos aos poucos o que aquilo significa.

A questão da culpa também é importante. Paula acredita inicialmente ter sido responsável.
Fernanda Tovar: Pois é, de repente, as mulheres também acabam sendo responsabilizadas por isso, por suas atitudes, depois de um episódio de violência. Não sei como é aqui no Brasil, mas, no México, às vezes existem certa ideia de que, se você não denuncia, é cúmplice dos fatos. O que eu queria retratar é que cada pessoa tem o direito de escolher o que fazer com a própria dor, e que é nossa responsabilidade escutá-la e respeitá-la. Não cabe a nós decidir quando e como ela deve agir a respeito.
Por que escolheu o ambiente dos esportes? Seria por retratarem de maneira tão segmentada as relações de gênero?
Fernanda Tovar: Penso que a natação implica usar um maiô, e ter que mostrar o corpo. Além disso, este esporte me permitia criar imagens bastante simbólicas envolvendo a água e os corpos, para representar aquilo pelo que elas estavam passando. Eu também queria que elas tivessem um sonho, que, nesse caso, era a competição. A natação oferecia essas duas coisas que, para mim, eram importantes.
Gostaria que falasse um pouco dos caminhos de produção para este primeiro longa-metragem.
Fernanda Tovar: Bem, primeiro ganhamos o fundo mexicano chamado Eficine e, depois, este filme é uma coprodução com outros dois países, a França e a Espanha. Ele não é um filme gigantesco, mas, graças à coprodução, tivemos os recursos necessários para fazer o que precisávamos.

Como percebe a reação das pessoas ao filme? Desde o Festival de Berlim, a resposta tem sido muito calorosa.
Fernanda Tovar: Sim, é muito bonito. A verdade é gosto de viajar e encontrar, em todos os lugares, palavras tão carinhosas sobre o filme. Ao mesmo tempo, também existe um lado triste nisso, não é? Porque muita gente se identifica com essa história. E gostaria que fosse diferente, que as pessoas vissem a história e pensassem: “Ah, isso nunca aconteceu comigo”.
Mas é justamente o contrário. Depois das sessões, muitas pessoas vieram me dizer: “Isso aconteceu comigo”, “Algo parecido aconteceu comigo”. Por um lado, fico muito feliz em saber que fiz algo que gera esse tipo de carinho. Por outro lado, é muito triste saber que isso acontece com tanta frequência.
Para nós, no Brasil, é interessante encontrar tanta cultura brasileira na trama. As meninas sonham em ir ao Brasil, estudam português, escutam música brasileira…
Fernanda Tovar: Eu não queria colocar personagens cujo desejo fosse ir para os Estados Unidos mais uma vez, porque acho que esse sonho já está ultrapassado. Acredito que é importante mudar as narrativas, e sonhar em ir para o sul me parece muito relevante nestes tempos. Escolhi o Brasil porque adoro a cultura brasileira, adoro o país, adoro seu cinema.
Mas também acho importante abordar essa diversidade no cinema, falar sobre o quanto a América Latina é grande, e sobre como é possível sonhar em ir para os países vizinhos. Porque acho que o mundo nos vê como se fôssemos todos iguais, e é importante dizer que não somos. Fico muito feliz que o sonho delas seja voltado ao sul.



