Cinco Tipos de Medo (2025)

A sedução da violência

título original (ano)
Cinco Tipos de Medo (2025)
país
Brasil
gênero
Ação, Suspense, Drama, Policial
duração
108 minutos
direção
Bruno Bini
elenco
Rui Ricardo Diaz, Bárbara Colen, João Vitor Silva, Bella Campos, Xamã, Rejane Faria, Luiz Bertazzo, Zécarlos Machado, Jonathan Haagensen
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Cinco Tipos de Medo parte do pressuposto que a violência se tornou inerente à realidade urbana, e todos somos afetados por ela — de perto ou de longe. O diretor e roteirista Bruno Bini cria uma rede de agressões em cadeia, na qual a raiva de um personagem motiva a vingança contra seu desafeto, e a família deste, por sua vez, decide retaliar pela dor sofrida, afetando mais pessoas, e assim por diante. Nota-se um caráter fatalista, mesmo operístico, nesta sinfonia sobre a inevitável crueldade da vida em comum. Rumo ao desfecho, a narrativa inclusive nos lembra que a brutalidade se perpetuará pelas próximas gerações.

É possível que os primeiros filmes de Alejandro González Iñárritu tenham servido de referência ao cineasta, especialmente aqueles a respeito de experiências cruzadas, quando o calvário de um serve como motivo para o lamento do outro — caso de Amores Brutos, 21 Gramas, Babel. Aqui, um músico (João Vitor Silva) se apaixona pela enfermeira (Bella Campos) que cuidou dele durante a crise de Covid-19. No entanto, ela namora um perigoso traficante (Xamã), contrário ao término do relacionamento. Quando as agressões entram em jogo, uma policial militar (Bárbara Colen) e um advogado (Rui Ricardo Diaz) interferem nesta ciranda, trazendo para a equação seus próprios traumas relacionados a perdas recentes.

Cinco Tipos de Medo se sai melhor na porção dramática. Mas os criadores estão muito mais encantados com a selvageria do que horrorizados por ela.

Além das histórias em paralelo, Bini (também montador) decide embaralhá-las em termos de cronologia. Algumas cenas brutais são apresentadas em seu instante de maior impacto, para só então voltarmos no tempo e descobrirmos como a situação chegou naquele ponto. Nota-se um grande prazer em solicitar a atenção do espectador, oferecendo pistas para nosso senso de adivinhação (Murilo realmente matou os traficantes? Marlene sobreviverá aos disparos? Ivan conseguirá tirar o bandido da cadeia?). Trata-se de uma dinâmica eficaz, ágil, sem espaço para digressão ou contemplação. Bini mira nos ideais dos thrillers hollywoodianos e, guardadas as proporções, consegue transpor ao contexto brasileiro as noções de urgência e de inevitabilidade.

Infelizmente, a mesma montagem se presta a algumas brincadeiras maliciosas, que consistem em apontar para “ironias do destino”. Durante o encontro amoroso, o rapaz afirma: “Se eu morresse agora, morreria feliz” e, imediatamente, um ladrão chega ao local, colocando uma arma em sua cabeça. “Acha esse playboy filho da puta!”, ordena o chefe do crime, então, o rapaz manda mensagens para o celular na mão do mandachuva. Um pai reclama, a respeito do filho adolescente: “Você acha que ele vai lembrar que tem pai e mãe e tocar a campainha aqui de casa?”, e a campainha toca. Os exemplos do gênero se multiplicam. Nesta hora, a edição procura um efeito cômico, mostrando-se espertinha, e tentando chamar atenção excessiva à sua própria astúcia. O projeto transparece sua vaidade em pequenas “sacadas” como estas.

Cinco Tipos de Medo se sai melhor na porção dramática. Contando com ótimos atores (Bárbara Colen, Rui Ricardo Diaz, Rejane Faria), consegue mostrar o impacto destas dores para pessoas que tentam, de todas as formas, seguir em frente. (Vale aqui exaltar o grande talento de João Vitor Silva, que tem despontado muito rapidamente no cinema, destacando-se em meio a elencos corais e diversos. Existe um formidável ator chegando ao grupo dos grandes). O roteiro inteiro se baseia na incapacidade de efetuar o luto, razão pela qual as pessoas insistem em se oferecer à tragédia enquanto forma de expiação. Por mais exageradas (novelescas, dirão alguns) que sejam as cenas do canto para um bebê prematuro, ou das juras de amor eterno entre Murilo e Marlene, elas se mostram eficazes para um projeto que apela diretamente às emoções, em detrimento da reflexão. 

É possível que a tradicional composição do choro da mãe com o cadáver do filho nos braços, à la Pietà, e que os pesadelos da esposa morta (“Você precisa conversar com ela [a bebê]. Porque eu estou morta!”) impliquem numa questionável chantagem emocional, mas caberá a cada espectador traçar o limite entre o bom uso de sentimentos e o espetáculo da miséria alheia. De qualquer modo, as sequências de ação, com tiros e traficantes perigosíssimos, se revelam as menos inspiradas, por dependerem excessivamente deste imaginário da brutalidade enquanto algo excitante. Os momentos centrados em Sapinho e sua gangue remetem àquele prazer frenético da morte iminente, das perseguições e tiros por todos os lados, que o cinema já aproveitou ao máximo com Cidade de Deus e Tropa de Elite — e que, felizmente, anda em vias de desaparecimento na produção atual.

Durante a apresentação de sua obra, na 49ª Mostra de São Paulo, Bruno Bini declarou que precisamos nos indignar com a brutalidade, ao invés de nos tornar indiferentes ou passivos face às injustiças. A fala é perfeitamente defensável, é claro. Entretanto, cabe questionar se a estrutura proposta por este suspense policial seria a melhor forma de despertar tamanha indignação. Se a violência é condenável, por que torná-la tão empolgante, divertida, eletrizante para o espectador? Por que tanta trilha sonora de impacto, montagem de choque, e tamanha catarse para cativar o espectador? Acredita-se realmente que a demonstração de uma selvageria pop e frenética constituiria o melhor caminho para instaurar a reflexão e o debate? Além disso, não teria sido fundamental distinguir o legítimo clamor por justiça do ímpeto individual de vingança?

Ao final da sessão, muitas pessoas aplaudiram efusivamente, contentes com o caldeirão de tiros e lágrimas oferecidos pela narrativa. É improvável que tenham saído da sala de cinema indignadas com a violência sistêmica — provavelmente, desejarão ainda mais dessa ferocidade tão gostosa que as cativou durante cerca de duas horas. Deixemos a Cheiro de Diesel e As Vitrines (para citar outros exemplos da Mostra) a tarefa de despertar alguma consternação pelas falhas estruturais da sociedade — Cinco Tipos de Medo está satisfeito demais com a estética da hostilidade para criticá-la de fato. Aí reside sua limitação, enquanto discurso. Quando o jovem Murilo chega em casa após um dia inteiro de barbaridades, com a camiseta embebida de sangue, e decide tocar violino para as câmeras, percebe-se que os criadores estão muito mais encantados com a selvageria do que horrorizados por ela.

Cinco Tipos de Medo (2025)
6
Nota 6/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.