
À primeira vista, o plano fechado no rosto de Daisy (Luiza Mariani) pode nos sugerir uma figura da contemporaneidade. No entanto, conforme a primeira imagem de Cyclone se abre, percebemos, pelos figurinos, se tratar de uma produção “de época”. Estamos em São Paulo, 1919, quando a trabalhadora de uma gráfica sonha em ser reconhecida pela produção como dramaturga. Ela vive à sombra do companheiro, Heitor (Eduardo Moscovis), que leva todo o crédito pelas obras escritas em dupla. A seleção para um sonhada bolsa de estudos em Paris motiva esta mulher a resolver todas as suas pendências antes de partir.
Inspirando-se na escritora real, Flávia Castro desenha uma história de luta contra o sistema. Em duas semanas, a heroína precisa comprovar sua autoria nos espetáculos de sucesso, além de interromper a gravidez indesejada — duas necessidades para encerrar, em definitivo, a dependência do namorado. Para isso, ela conta com ajuda de algumas amigas, a exemplo de cantora decadente (Magali Biff) e da colega prostituta, que sonha em se tornar uma atriz respeitada (Karine Teles). Apesar da resistência de algumas mulheres conservadoras em seu percurso (a irmã, interpretada por Luciana Paes), ela persiste na batalha por completa autonomia sobre seu corpo e sua criação (reunidos, aqui, num elemento praticamente indistinto).
Cyclone representa um gesto de afronta contra as normas de um cinema polido, psicologizante, herdeiro do realismo social.
Para o espectador, os principais desafios no que diz respeito à imersão no drama residem nas escolhas estéticas. A diretora de fotografia Heloísa Passos trabalha com uma janela mais quadrada (formato, este, que remete ao cinema dos primeiros tempos) além de cores pouco contrastadas, “lavadas”, para sugerir certo distanciamento da contemporaneidade. Em contrapartida, a textura continua nítida e lisa, razão pela qual a crença num cenário de 1919 ainda se prova difícil. Posto que o audiovisual de cem anos atrás era marcado por forte granulação da película, este aspecto ruidoso teria provavelmente contribuído mais à verossimilhança do retorno histórico do que a opção pelo baixo contraste.
Em paralelo, Cyclone exige do público um pacto de fé típico dos espetáculos teatrais. A utilização de enquadramentos mais fechados em rostos e detalhes de mãos provavelmente se justifica pela tentativa de ajudar a produção e o departamento de arte, que necessitam, desta maneira, decorar e preparar cenários menores. Ora, a cada visita aos pátios onde as mulheres lavam a roupa, percebe-se uma construção assumidamente artificial dos espaços, típica dos palcos teatrais. Menos do que locações, encontramos cenas por onde Cyclone se move. Em se tratando de uma construção próxima da fábula, numa obra a respeito do mundo teatral, a escolha se justifica.
Felizmente, Castro retira das narrativas de época o caráter sisudo, encontrado com frequência nas abordagens literais. As mulheres conversam como duas figuras do século XXI o fariam — sem gírias atuais, é claro, mas tampouco adotando um português empolado. A direção de arte de Ana Paula Cardoso propõe uma alusão à época, ao invés de uma recriação fiel. As luvas de Chérie e o colarinho de Daisy bastam para nos conduzir a outra época, em tempos antigos, enquanto as unhas sujíssimas devem nos lembrar de sua condição operária. Para uma premissa versando a respeito da capacidade de mulheres criarem em liberdade, contra os códigos estabelecidos, tamanhas licenças poéticas por parte das várias lideranças femininas das equipes (na direção, fotografia, arte, produção e roteiro) tornam-se compreensíveis.
A simples existência desta obra, em sua configuração final, consiste um gesto de afronta contra as normas de um cinema polido, psicologizante, herdeiro do realismo social. Em sua viagem alegórica, Castro aposta na linguagem cinematográfica por sua capacidade de registro histórico, e na estética teatral, pela habilidade de mergulhar em mundos meramente aludidos. É curioso que a autora traga aos cinemas dois novos longas-metragens, em simultâneo. Apesar de fazer duas viagens a tempos passados — o Chile da década de 1970 em As Vitrines, e São Paulo de cem anos atrás em Cyclone —, ela adota caminhos distintos para cada um. Prefere certo naturalismo poético para a história de crianças durante a ditadura; e privilegia uma linguagem punk ao retratar a escritora modernista. A cineasta certamente possui cartas muito diferentes na manga.
É uma pena que, diante de um dispositivo tão coerente politicamente, ainda se conheça pouco da produção artística de Cyclone. A mulher é explorada sobretudo enquanto símbolo de uma luta feminista, combatendo namorados machistas, patrões tirânicos (Ricardo Teodoro) e as regras de um Estado que ainda exige visto do pai ou marido para uma viagem internacional. Já a natureza dos textos será meramente sugerida em curtas leituras da escritora, ao revisar seu texto. Nota-se uma escrita irônica, dotada de humor, algo surpreendente para uma mulher descrita por tamanha gravidade. Seria interessante compreender como esta heroína, composta com a solidez de uma esfinge por Luiza Mariana, transmitiria tanto traquejo na escrita.


Ao menos, o longa-metragem evita sacralizá-la. Castro compreende a arrogância desta figura que, para traçar um percurso próprio, precisa desdenhar das escolhas das demais, rejeitando a configuração familiar da irmã (“Não suporto essa vida de merda!”), e prejudicando as colegas mais próximas em nome do próprio sucesso. Com exceção de um breve instante de dúvida, Cyclone é descrita enquanto personagem de convicções inabaláveis a respeito de sua arte, seu corpo e suas escolhas de vida. Para isso, mostra-se disposta tanto a marchar sobre as colegas que a apoiam quanto a se render a barganhas exploradoras do mundo masculino (uma grosseira cena de masturbação no funcionário público).
Chegada a hora de, finalmente, confrontar Heitor a respeito de suas decisões, a câmera então chacoalha, treme, inverte a imagem — desorienta-se. Mesmo as ousadias estéticas se provam simbólicas e simples, apoiando-se em recursos analógicos que se poderia encontrar, de fato, nos primórdios do cinema. Ao combinar uma estética não-contemporânea com uma fala e uma postura feminina bem atuais, Castro representa Cyclone enquanto antiga e moderna; mulher de sua época, mas também da nossa. Borrando fronteiras de tempo e expandindo noções de espaço, ela torna sua protagonista uma figura atemporal — tão real quanto mitológica, tão fatual quanto alegórica. As ferramentas do cinema independente, de baixo orçamento, servem muito bem a ilustrar o percurso de uma heroína que corria às margens da arte consagrada.




