Entre Nós, o Amor (2024)

Uma forma de miséria

título original (ano)
Une Vie Rêvée (2024)
país
França, Bélgica
gênero
Drama
duração
97 minutos
direção
Morgan Simon
elenco
Valeria Bruni Tedeschi, Félix Lefebvre, Lubna Azabal, Dylan Guedj, Gédéon Ekay, Antonia Buresi, François de Brauer
visto em
Cinemas

Nicole (Valeria Bruni Tedeschi) está arruinada. Ela acaba de ter o cartão de crédito suspenso falta de pagamento. Não tem condição de comprar um sorvete, nem de pegar o trem. A mulher também não tem emprego, amigos, familiares, ou qualquer forma de suporte emocional e financeiro. Sua única companhia é o filho adolescente, Serge (Félix Lefebvre), que se envergonha em morar num apartamento minúsculo do subúrbio. Com mais de 50 anos, a mãe solo não encontra trabalho. Para os vizinhos, ela seria louca, ou esnobe, por ignorar os rapazes encapuçados que lhe dizem “bom dia”.

“Eu não sou louca. Cometi erros, mas não loucuras”, ela corrige. Mesmo assim, o diretor e roteirista Morgan Simon insiste numa excentricidade bastante peculiar da heroína. Quando chega ao banco, para negociar sua situação, ela tira a roupa, porque acredita estar num consultório médico. Os motivos para o equívoco, segundo ela, vêm de um cartaz colado à parede, a respeito de renegociação de dívidas. Ao se deparar com a namorada do filho, a mulher insiste nos planos urgentes desta noite: “Preciso cortar as unhas dos pés”. Ela lota o apartamento com plantas artificiais, e convive com ratos que aparecem com frequência.

Alguns filmes estimam que, quanto pior for a situação de seus protagonistas, mais espetacular e valiosa será a sua redenção. Ora, esta forma de pensamento cristão transparece limitações evidentes.

Está claro que o retrato proposto pela direção vai além da penúria de dinheiro e apoio — algo retratado, por exemplo, nos marcantes Contratempos, Tudo ou Nada e Dois Dias, Uma Noite. Aqui, a heroína se aproxima de uma figura histriônica, incontrolável, desprovida de traquejo social e bom senso. Estamos mais perto da mãe embaraçosa de O Preço da Solidão, cuja miséria residia sobretudo numa forma de agressividade e incapacidade de lidar com os outros. Nestes casos particulares, as personagens são observadas com um misto de curiosidade mórbida e piedade. “Você é um desastre ambulante”, declara Norah (Lubna Azabal). O filme certamente concorda com ela.

A limitação desta forma de retrato reside na possibilidade de fazer chacota desta figura em declínio. Entre Nós, o Amor (título injustificável para o original Uma Vida Sonhada) parece se divertir com as trapalhadas, acentuadas pela voz tipicamente sussurrada de Tedeschi, e os olhos sempre marejados. Não sabemos se ela vai chorar, gritar ou fazer um carinho no filho — às vezes, os três ocorrem na mesma cena, caso da briga violenta às vésperas do Natal. O discurso a enxerga como selvagem, pouco civilizada, aproximando-se voyeurismo, em detrimento alguma forma da empatia ou compaixão.

Nicole está presente na integralidade das cenas. Embora o roteiro não saiba qual rumo lhe proporcionar, ele insiste que o resto do mundo venha interagir com ela. Assim, é a patroa do bar que lhe oferece bebida; o filho quem traz a namorada para casa; os rapazes da vizinhança que a procuram. Se fosse pela heroína, a trama se encerraria na condição de um curta-metragem, posto que nenhuma ação é movida, de fato, por ela. Mesmo a visita ao gerente do banco ocorre mediante intimação. Enquanto ela conta moedas para o sorvete, uma garotinha comemora seu aniversário com a mesa farta de guloseimas, logo ao lado. Simon não é nada sutil em suas metáforas, ou nas referências de alegria e tristeza, de sucesso e de fracasso.

Isso se materializa na cena em que a mulher acorda, e encontra no apartamento uma versão de si mesma, simetricamente oposta, ou seja, segura e estável. O drama parece ter incorporado um aspecto de delírio, de realismo fantástico, que faria tão bem a este mergulho na pobreza das periferias. Ora, tratava-se de mero sonho da personagem, logo esquecido, e incapaz de surtir qualquer efeito nos acontecimentos a seguir. A narrativa se delicia demais com a destruição desta personagem para permitir alguma forma de respiro, ou escapatória progressiva e verossímil. São notórios os filmes que pretendem denunciar graves problemas sociais, embora se divirtam excessivamente com a penúria para encerrá-la de fato. O fetiche da angústia é sedutor demais para cineastas que coincidem drama com sofrimento.

Em contrapartida, Entre Nós, o Amor se revela otimista. Após humilhar a personagem (e todos ao redor dela) por mais de uma hora, decide que é hora de encerrar a performance e limpar a bagunça. Oferece a Nicole um emprego, um amor, e uma redenção junto ao filho revoltado — tudo isso num passe de mágica, como se o milagre de Natal tivesse realmente surtido efeito. É improvável que a solução no escritório de auxílio ao emprego, e que o romance de uma noite, funcionassem de maneira tão repentina. Entretanto, assim como as descrições não trabalham com a gradação, as soluções tampouco ocorrem de maneira paulatina. Tal qual um deus ex machina, o diretor interfere na cena para consertar tudo aquilo que havia prazerosamente destruído. 

É possível que esta forma de realismo social à francesa encontre obstáculos, justamente em obras como esta. São óbvias as boas intenções: a tentativa de enxergar um horizonte aos solitários, de imaginar romances queer desprovidos de julgamento moral, e um mundo onde a simples menção a um processo force grandes empresas a distribuírem empregos aos desfavorecidos. Simon gosta desta mulher, razão pela qual o retrato próximo do clownesco beira a condescendência e o paternalismo. Ora, as melhores referências das mulheres fracassadas do cinema (Cabíria, em particular) funcionavam pelo apelo ao humor, à fantasia, à suspensão do real. Em contrapartida, o autor acredita estar construindo uma história plenamente naturalista e possível. No limite entre o realismo e a idealização (das dificuldades), reside uma falha fundamental da abordagem humana e cinematográfica.

Enquanto isso, Valeria Bruni Tedeschi dedica-se à sua gramática cênica habitual, entre a sedução e o descontrole. Ela domina este tipo de personagem, por mais caricatural ou eticamente contestável que possa ser. Para a direção, nota-se uma segurança nesta maneira de filmar, repleta de close-ups e profundidade de campo reduzida, para que somente a expressão dos rostos esteja visível. Quando Nicole inveja os consumidores de um shopping center, o resto do mundo está desfocado, em câmera lenta. O foco se encontra nela, hiperbólica, destruída estrutural e psicologicamente. Alguns filmes estimam que, quanto pior for a situação de seus protagonistas, mais espetacular e valiosa será a sua redenção. Ora, esta forma de pensamento cristão transparece limitações evidentes quando confrontado à tentativa de representar uma contemporaneidade complexa.

Entre Nós, o Amor (2024)
4
Nota 4/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.