
“O ritual”, na verdade, são vários. Noite após noite, o experiente padre Theophilus Riesinger (Al Pacino) e o cético pároco Joseph Steiger (Dan Stevens) tentam expulsar o demônio que se apoderou do corpo da pobre Emma Schmidt (Abigail Cowen). Então, ela xinga, cospe, revira os olhos, contorce o corpo, engrossa a voz, fala em línguas exóticas, manifesta uma sexualidade libertina — o beabá das representações de meninas possuídas em filmes de exorcismo. A criatura consegue voar pela parede do quarto e se livrar de amarras de ferro, porém, treme ao escutar uma única palavra em latim. Uma das principais funções simbólicas deste subgênero do terror sempre consistiu na reiteração da Bíblia enquanto arma poderosíssima para o “cidadão de bem”.
Curiosamente, não é a garota infernal que retém a atenção neste projeto. Nem mesmo a presença inesperada de grandes nomes da indústria num filme B, de baixo orçamento e baixíssima inspiração. O elemento verdadeiramente chocante no longa-metragem decorre da imagem tremidíssima. Até os anos 1990, era comum encontrar obras que coincidiam os chacoalhões com dinamismo. Filmes em busca de uma aparência de real (o found footage, o mockumentary, as reportagens cômicas, etc.) se apoiavam na câmera na mão, agitando-se sem parar, à direita e à esquerda.
O Ritual se conduz com um senso de gravidade e autoimportância incompatível com os absurdos da narrativa. Pressupõe que, ao sacudir a câmera sem parar, dialoga com o mínimo imaginário do horror.
Diretores como Adam McKay (A Grande Aposta, Não Olhe para Cima) e séries como Succession ainda apostam na cartilha do zoom apressado, nervoso, vacilante. No entanto, o recurso maneirista deixou de corresponder a uma tensão garantida. Mesmo assim, O Ritual explora esta linguagem como se fosse a maior descoberta cinematográfica do momento. O diretor de fotografia Adam Biddle privilegia os rostos e as aproximações, apesar de demonstrar incerteza quanto ao foco de seu olhar. A imagem se aproxima e se afasta, enquadra aqui e acolá, treme para um canto e para o outro. Assim, tenta reproduzir o sentimento enervante de estar num quarto junto ao Satanás em pessoa.
Chegando ao clímax, quando mais intenso dos rituais confronta padres e freiras ao diabo, a imagem se contorce tanto que nem sabemos ao certo quem está olhando quem, por quanto tempo, e para onde deveríamos nos atentar. O cenário do calabouço se converte num borrão, e o rosto dos atores traduz a sensação vaga de um pânico generalizado. A montagem de Enrico Natale (também ator, no papel do Dr. Fabian) aproveita para cortar freneticamente de um rosto ao outro, de um detalhe ao cômodo inteiro, de uma movimentação à seguinte. Vemos tremeliques, tiques, toques. Entendemos pouco do que ocorre, em termos de mise en scène e sentido narrativo, nesta agitação amadora.
Logo, é bastante incômoda a impressão de olhar tudo, mas não ver nada. Se a direção consiste num ato de seleção e organização dos sentidos (a imagem e os sons; o tempo e o espaço; as motivações e o ponto de vista), o projeto resulta num fracasso evidente enquanto conceito e execução. Ele aposta naqueles recursos frequentemente aplicados, no cinema caseiro, para distrair o espectador da direção de arte insuficiente, das atuações pouco polidas, ou da falta de sentido narrativo. Tal qual um mágico, agita uma cartola enquanto a ação ocorre, na verdade, em alguma manga do paletó. Aqui, a falta de coerência e coesão da história busca passar despercebida em meio ao caos da fotografia e montagem.
Esta pode ser uma escolha deliberada. Afinal, quanto mais se investe numa sensação genérica de terror, menos se discutem as incontáveis fraquezas da trama. É melhor citar a tremedeira audiovisual, e os recursos sonoros baratos, do que nos atentar à falta de desenvolvimento dos personagens, presos a uma única motivação, repetida da primeira à última cena. Joseph Steiger repete incontáveis vezes que seria melhor levar Emma ao médico. Todos afirmam, sem parar, que a menina está desidratada. Theophilus oculta informações nada secretas, apenas pelo prazer de revelar uma surpresa mais tarde. “Se formos inconsistentes, a possessão vai endurecer como cimento”, justifica o veterano. Criou-se o satanismo em versão argamassa.
Sem o histrionismo estético, começaríamos então debater o fato que uma freira é escalpelada por Emma, mas, no dia seguinte, passeia alegremente pelo convento com um curativo minúsculo sobre os cabelos magicamente restaurados. Discutiríamos o fato que o Mal, preso ao corpo da menina, também sai deste invólucro e se converte numa figura mascarada, esperando os adversários à porta. Ou, então, transforma-se em vermes percorrendo a pele do padre. Argumentaríamos contra a dilatação injustificável do sentimento de urgência, que gera efeitos tragicômicos. Diante da garota próxima da morte, devido ao demônio e à falta de água, todos decidem esperar “somente mais uma semana” para verem o que acontece. A menina está morrendo, sangrando!, eles se exclamam. Mas quem sabe daqui a alguns dias, o demônio se aborrece e vai embora sozinho, certo?
Ora, O Ritual se conduz com um senso de gravidade e autoimportância incompatível com os absurdos da narrativa. A mesma premissa poderia dar origem a uma comédia de terror, ou um filme contemporâneo, repleto de cinismo e malícia∂. Em contrapartida, o diretor David Midell acredita construir uma fábula potente a respeito das forças do mal. O aspecto mais cômico da obra decorre de sua condução delirante — não há problema nenhum em realizar um pequeno exploitation, contanto que plenamente consciente de seu formato e alcance. Ora, o cineasta acredita rivalizar com as grandes iniciativas do gênero. Ele possui contatos sólidos o bastante para lhe conseguirem Al Pacino e Dan Stevens em papéis principais, mas não próximos o suficiente para lhe alertarem a respeito da catástrofe que possui em mãos.


Afinal, produções excelentes como O Exorcista, A Primeira Profecia e Imaculada não se sustentavam somente no duelo de padres-em-dúvida-de-sua-fé e demônios tementes à Bíblia. Filmes de exorcismo são baseados na premissa de homens controlando o corpo das mulheres, domando os “demônios” de sua sexualidade pronunciada e colocando-as de volta no papel virginal esperado. Nestas narrativas, demônios masculinos invadem forçosamente o corpo de meninas jovens, numa alegoria pouco disfarçada do estupro.
Trata-se do gênero que opõe tradição e modernidade, corpo e alma, subjetividade (os desejos da menina pertencem somente a ela) e coletividade (a partir do momento em que infringe regras, a comunidade teria direito de prendê-la e torturá-la). As melhores iniciativas do subgênero de possessão e nunsploitation compreendem as tensões sociais e políticas de colocar homens mais velhos amarrando e ferindo o corpo de garotinhas gentis, vestidas com camisolas brancas, em nome da luta do bem contra o mal. Já O Ritual pressupõe unicamente que, ao sacudir a câmera e propor um demônio poliglota, dialoga com o mínimo imaginário do horror. Para ele, isso parece ser o bastante.




