Moacyr Luz, Embaixador Dessa Cidade (2025)

Moa e seus amigos

título original (ano)
Moacyr Luz, Embaixador Dessa Cidade (2025)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
95 minutos
direção
Tarsilla Alves
com
Moacyr Luz, Zeca Pagodinho, Maria Bethânia, Fafá de Belém, Teresa Cristina, Jards Macalé
visto em
Cinemas

Parte considerável deste documentário se passa em bares do Rio de Janeiro. Os amigos se provocam e contam piadas, enquanto relembram episódios engraçados ou constrangedores um do outro. A cerveja está sempre nas mão e nas palavras destes personagens. Moacyr Luz, Embaixador Dessa Cidade se constrói na forma de uma celebração boêmia do músico e compositor. O filme não somente registra as festas e encontros do protagonista, mas comemora com ele, participando ativamente da folia. 

Por isso, a câmera se posiciona junto à mesa no bar, em frente à roda de amigos na feira, ou no beco onde o personagem pede sua bênção a Pixinguinha. Ninguém se sente obrigado a abordar nenhum tópico em particular, seja para rememorar a trajetória do artista, seja para cumprir com pontos previstos pelo roteiro. A diretora Tarsilla Alves decide adaptar generosamente a sua câmera ao mundo do biografado — nunca o contrário. Ela frequenta os espaços importantes para ele, e se aproxima das pessoas que atravessaram sua vida. Então, capta a interação bastante espontânea que ocorre entre as duplas e trios.

O documentário se beneficia, portanto, desta leveza rara para uma obra de pretensa celebração da vida e obra de um artista. Somem os elogios efusivos de colegas, as recordações dos maiores sucessos da carreira, assim como a necessidade de compreender o momento atual de Moacyr enquanto fruto de uma evolução constante. A cineasta foge às armadilhas da hagiografia, assim como se esquiva da responsabilidade de explicar seu personagem ao público. O discurso não o resume a uma trajetória profissional, nem se limita a uma sucessão de fatos e verbos.

Quem diria que o grande músico também poderia ser o malandro do bar? Ao invés de colocar seu protagonista num pedestal, Tarsilla Alves se esforça em aproximá-lo de cada um de nós.

Logo, o filme dispensa a cronologia e a linearidade. Nunca perde tempo justificando as raízes do protagonista, detalhando a sua infância e outros passos esperados do documentário convencional. Chega a ser um alívio encontrar uma perspectiva tão horizontal, e aberta ao tempo presente, quanto esta. Trata-se de um filme com Moacyr, ao invés de um filme sobre Moacyr, o que faz toda a diferença no resultado. Poucos diretores estão dispostos a captar o acaso, e preparados (em termos estéticos e narrativos) para apreender a magia da banalidade. No entanto, a direção de fotografia, o som e, sobretudo, a montagem, despertam a impressão de um grupo de criadores em total sintonia com seu biografado.

O próprio Moacyr Luz contribui bastante à empreitada, é claro. Simpático, piadista, dotado de senso de autoparódia, ele menciona tanto as conquistas quanto os fracassos musicais. Lembra os sucessos e derrotas com as mulheres. Brinca consigo, com a cidade que tanto ama, com os amigos queridos. Nada parece sagrado — e, neste aspecto, ele se torna o avesso de tantos filmes solenes e sepulcrais, que se atribuem a tarefa de honrar a grandiosidade da pessoa amada. Aqui, o espectador também se senta no botequim e integra a gozação — o que jamais implica em deboche ou desrespeito. Moacyr provoca somente aqueles com quem se importa de fato.

Em consequência, o documentário soa apropriado no sentido de incorporar, em seu estilo e ritmo, a malandragem essencial à representação do artista. A sessão no cinema foi marcada por inúmeras gargalhadas, fruto do texto afiado, e de inúmeras histórias de bastidores generosamente compartilhadas pelos participantes. Nem a presença luxuosa de cânones da música brasileira — Maria Bethânia, Fafá de Belém, Zeca Pagodinho, Jards Macalé — força o resultado no sentido da idealização, tamanho o interesse da cineasta de dialogar com estas pessoas de igual para igual. Os convidados são acomodados literalmente numa mesa de bar, e despidos da obrigação de canonizarem o colega de profissão.

Já a música de Moacyr Luz — Moa, para os próximos — se insere de maneira natural, quase corriqueira. Não é preciso apontar a genialidade de letras, pois a equipe acredita na capacidade do público em perceber o valor destas criações por conta própria. Outro reconforto neste projeto decorre desta fé da cineasta e sua equipe na inteligência do espectador. Estima-se que somos capazes tanto de compreender os revezes do alcoolismo (jamais abordado enquanto tal), quanto de buscar demais informações por conta própria. O documentário recusa o formato do roteiro Wikipédia.

Em paralelo, a autora utiliza pouquíssimo material de arquivo (outra raridade no subgênero dos documentários musicais) para privilegiar as captações contemporâneas e autorais. Neste sentido, encontram-se gravações competentes, profissionais, com atenção particular ao tratamento sonoro, e reflexão precisa em termos de luz e profundidade de campo. Nota-se uma atenção constante, através da câmera discretamente móvel durante as entrevistas (no caso da fala com Zeca Pagodinho, por exemplo) e na iniciativa de alterar imediatamente a profundidade de campo quando três pessoas se alternam no enquadramento. A fotografia joga muito bem com seus personagens.

Moacyr Luz, Embaixador Dessa Cidade se encerra no instante em que o protagonista termina um show — não numa casa de espetáculos famosa, mas num bar simples, junto aos colegas e público. O homem que lutou muito para conquistar o reconhecimento, tendo se apresentado a meia dúzia de pessoas, agora motiva filas imensas, que dão a volta no quarteirão, conforme a montagem sublinha num corte simples. O filme desperta um constante senso de ironia ao sugerir um talento tão notável quanto descontraído — a poesia do sujeito comum. Quem diria que o grande músico também poderia ser o malandro do bar? Que o marido amoroso também seria o mulherengo? Que o gênio das letras seria o piadista? Ao invés de colocar seu protagonista num pedestal, Tarsilla Alves se esforça em aproximá-lo de cada um de nós. Nesta identificação, reside a força de sua obra.

Moacyr Luz, Embaixador Dessa Cidade (2025)
8
Nota 8/10

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