Corpo da Paz (2025)

Apesar do espectador

título original (ano)
Corpo da Paz (2025)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
76 minutos
direção
Torquato Joel
elenco
Giovanni Sousa, Vinícius Guedes, Alex Oliveira, Fabíola Morais, Rafael Guedes, Pablo Crispim, Jamila Facury, Buda Lira
visto em
58º Festival de Brasília (2025)

A sinopse oficial de Corpo da Paz aponta para um retrato dos sentimentos de um garotinho por um soldado americano, quando o estrangeiro visita a Paraíba dos anos 1960, em plena ditadura militar. A premissa soa interessante, no sentido de contrastar a visão de mundo infantil àquela dos adultos; a perspectiva brasileira contra o olhar estrangeiro; a realidade do dominado contra aquela do dominador. Entretanto, é difícil identificar tais acontecimentos durante a experiência do longa-metragem. Estão presentes o garoto, o soldado, o irmão do menino, a mãe, etc. Em contrapartida, a dinâmica de desejos passa longe da materialização em imagens.

Isso se deve a uma escolha curiosa de ponto de vista por parte da direção. A trama jamais é contada, de fato, pelo olhar do menino. Nunca sabemos o que ele está pensando, nem o que sente diante dos acontecimentos ao redor. Ele se expressa pouco, e desempenha raras ações. O garotinho nem mesmo constitui o protagonista, posto que a estrutura coral alterna entre meia dúzia de personagens com igual importância. A história inclusive se esquece do pequeno durante tempo considerável — sinal de que não fez tanta falta ao andamento dos processos, afinal. 

Corpo da Paz é surpreendentemente impessoal e frio. Observamos os personagens à distância, sem conhecermos nenhum deles em profundidade.

A trama tampouco é descrita pela perspectiva do soldado. O sujeito enigmático, de poucas palavras, mantém em segredo seus reais objetivos em relação ao algodão brasileiro. Ele esconde uma caixinha de preciosidades sob a cama, porém, a direção também oculta do público o conteúdo. Na verdade, o drama é descrito por um posicionamento surpreendentemente alheio, impessoal, frio. Observamos estas figuras à distância, sem conhecermos nenhum deles em profundidade. Ao final da experiência, permanecerão tão misteriosos quanto eram a princípio. Deslocam-se sem sabermos para onde, dizem coisas sem conhecermos o porquê. Assemelham-se a fantasmas assombrando a própria cidade.

Os raros conflitos são minimamente sugeridos, sem explodirem em tela, nem surtirem efeito nas cenas seguintes. Gentil seria um homem gay, apaixonado pelo soldado? O que ele faz com estes possíveis sentimentos? Como o menino, experimentando a descoberta da sexualidade, se sente em relação ao corpo do coleguinha, na ausência deste? A mulher que cuida do algodão nunca suspeita de algo acontecendo em sua plantação? A jornada soa como a preparação para um suspense. Ela possui a semente de uma tensão constante (de gênero, raça, nacionalidade) que nunca germina. Estranhamente, quando a trama se encerra, ela parecia, enfim, estar prestes a começar.

A direção e o roteiro possuem um inusitado senso de prioridades. Decidem retratar um ato bárbaro de tortura durante a ditadura militar de modo explícito, com planos próximos e à distância, por diversos ângulos, em duração considerável. As marcas nas costas do rapaz brasileiro são mostradas apenas para o espectador, de maneira voyeurista, quando o sujeito deixa a porta aberta, mesmo escondendo um segredo. No entanto, quando (finalmente) chega um pequeno gesto simbólico de vingança contra o opressor, a cena será sugerida somente via sons, acompanhada pela tela preta. A violência é evidente, já o desejo (de Gentil, principalmente) e o entusiasmo (do resto da comunidade) precisam ser velados.

Resta a impressão de que faltaram cenas, ou materiais, na hora de costurar a obra pela montagem. Seja pelo roteiro lacônico, seja por sequências dispensadas a posteriori, Corpo da Paz desperta uma sensação de obra inacabada, carecendo de novas sequências, e de desenvolvimento dessas metáforas para adquirirem sentidos e elevarem os personagens para além de tipos e funções (o soldado, o menino, a mãe, etc.). Sobram cenas “sensoriais” (a mão roçando na rede, o dedo com bolinhas de gude), porém, ressente-se a falta de instantes capazes de relacionar as ações e atividades, ou colocar os personagens em interação uns com os outros. Em geral, eles soam como elétrons livres, em suas existências hermeticamente isoladas (Gentil ensaiando em frente ao espelho, o garoto com as costas machucadas no banheiro, o menino pelos cantos). A montagem jamais sugere que estas figuras constituam a causa ou consequência dos atos alheios. 

A única tentativa real de atribuir coesão e coerência ao fiapo de trama reside na tinta opressora de cor sépia. O elemento que mais chama a atenção em Corpo da Paz não vem da trama, nem da temática da ditadura (ironicamente tratada como secundária), e sim, do tratamento atípico de cores. O filme aparenta ter sido passado ao preto e branco e, então, filtrado no tom amarelo-terra, simulando uma obra forçosamente antiga, embora o digital nítido transpareça a sua óbvia contemporaneidade. Mesmo assim, em instantes pontuais, resgata-se a variedade de cores quando desejado — caso do arco-íris formado pela água do banho dos meninos (um símbolo nada sutil para representar a homoafetividade entre os garotos).

Ora, a intromissão do filtro se faz tão forte que prejudica a apreensão dos espaços e do tempo, diminuindo o aspecto contemplativo do conjunto. Ao invés de divagarmos diante dos campos de algodão ou da solidão da casa, pensamos nesta estranha coloração, nem nova, nem antiga; parcialmente saudosa, ainda que retratando tortura e demais violências. Este é um problema da obra na totalidade: ao colocar todos os personagens em igualdade e horizontalidade, acaba equivalendo opressores e oprimidos, adultos e crianças, locais e estrangeiros. Nunca se sabe se a direção observa este fragmento no tempo com saudade, indiferença ou repúdio.

A certa altura da jornada, o soldado adentra uma mina escura. Trata-se de um resgate do imaginário bem explorado no belo Pulmão de Pedra, curta-metragem também concebido pelo diretor Torquato Joel. As minas retornam ao longa-metragem, porém, desta vez, desprovidas de propósito narrativo, e sem surtir impacto à deambulação secreta do personagem. O próprio soldado permanece escurecido num canto da imagem, enquanto a fotografia prefere iluminar um canto solitário das minas. Corpo da Paz soa como um filme munido de grandes segredos e revelações, jamais compartilhados com o espectador. Terminada a sessão, tanto os criadores quanto os personagens ainda preservam seus mistérios. O público é curiosamente expulso, apartado de uma narrativa que nunca se desenvolve para ele, mas apesar dele.

Corpo da Paz (2025)
4
Nota 4/10

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