Duas Vezes João Liberada (2025)

Reparação histórica

título original (ano)
Duas Vezes João Liberada (2025)
país
Portugal
gênero
Drama, Histórico
duração
70 minutos
direção
Paula Tomás Marques
elenco
June João, André Tecedeiro, Jenny Larrue, Caio Amado, Eloísa d’Ascensão, Tiago Aires Lêdo, Alice Azevedo
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Há alguns anos, a diretora Paula Tomás Marques tem conduzido uma pesquisa interessantíssima a respeito da história de pessoas transexuais em Portugal. Face à evidente dificuldade de obter arquivos a respeito de figuras invisibilizadas, ela desenvolve filmes que abordam tanto as suas descobertas, quanto as lacunas desta investigação. Por isso, combina dados, ficcionalizações e soluções poéticas que somente a arte poderia oferecer à versão oficial dos documentos. Em Dildotectônica (2023), trouxe a história de uma freira que se relacionou com as colegas de convento, utilizando dildos caseiros. Foi perseguida, porém, fugiu e desapareceu. Neste caso, a ausência de informações foi colocada em diálogo com uma criadora contemporânea de brinquedos eróticos. Assim, pensava-na maneira como a sociedade e a indústria lidavam com os desejos femininos.

Agora, em Duas Vezes João Liberada, dedica-se à jornada da personagem-título, uma pessoa de identidade dissidente (é impossível saber, pelos papéis, se ela se considerava trans, não-binária, etc.), perseguida pela Inquisição após o relacionamento com um sapateiro. Liberada terminou por cometer suicídio. Ora, como representar uma pessoa sem rosto? Como apontar a identidade de gênero de alguém cuja autodenominação se desconhece? Em especial, de que modo honrar o final verdadeiro da mulher, sem reproduzir uma enésima violência contra pessoas transexuais no cinema? 

June João possui uma presença hipnótica na tela — é difícil olhar para qualquer outro personagem quando ela se encontra em cena.

O desafio era considerável. A diretora poderia, como tantas pessoas o fariam, simplesmente pressupor rostos, psicologias e sexualidades, contar a história da melhor forma encontrada (em virtude das circunstâncias), e se dar por satisfeita. Teria feito o possível, com a melhor das intenções. É melhor contar alguma história a respeito de pessoas trans do que história nenhuma, certo? Errado. Felizmente, a artista não envereda pelo refúgio empobrecedor das boas intenções. Prefere, por sua vez, imaginar duas narrativas paralelas: uma filmagem fictícia a respeito da personagem real, comandada por um homem cis, e os bastidores desta produção, sublinhando as dúvidas e discordâncias das pessoas envolvidas no processo criativo. Logo, privilegia as discussões a respeito de como fazer um bom filme ao produto destes esforços.

Teria sido fácil imaginar um diretor tirânico ou despreocupado, junto de pessoas submissas ou insensíveis. Ora, o longa-metragem escapa aos maniqueísmos simplórios. O cineasta fictício (André Tecedeiro) é um homem gay, de boas intenções, apesar de não dar atenção aos apontamentos da atriz. João (June João) compartilha com o espectador suas preocupações: a recusa de filmar tantas cenas violentas; a predileção por desfechos poéticos em detrimento dos trágicos. Já as colegas de convento (Alice Azevedo e Jenny Larue) comentam a necessidade de tolerar algumas discordâncias, caso queiram trabalhar e ser vistas no cinema. Uma batalha de cada vez, sugerem as amigas.

Os incômodos (de Marques, ou de sua protagonista?) são expostos cena a cena: a tendência a apresentar João enquanto vítima, ou uma mulher passiva demais a partir do momento em que o namoro com Franco (Caio Amado) se torna abusivo. Em oposição a um painel didático de críticas, a autora mergulha em devaneios belíssimos, graças a algumas simples ferramentas do cinema pré-digital. A granulação da película em 16mm, com cores saturadíssimas, se encontra com filtros fortemente azulados para sugerir a noite (em diálogo com os clássicos do cinema mudo). Já o diretor encontra-se estranhamente paralisado em sua casa, enquanto a imagem treme diante de seu corpo, graças ao uso de sobreposições e fusões. À noite, fantasmas perambulam pela casa de João.

A incursão no realismo fantástico atribui certa leveza à obra, além de afastar o projeto da responsabilidade de revelar uma verdade, contar o que realmente aconteceu. Marques também imagina, fabula, cogita junto ao público. A melhor metáfora provém do fantasma da João Liberada real, representada pela luz de refletor. Diversos ícones religiosos e cristão são ilustrados por uma iconografia semelhante — a fonte luminosa sem corpo, pois proveniente de um paraíso, de um ideal de calma e virtude. Retratar uma mulher trans, perseguida por seus pares, com os traços de uma divindade religiosa constitui uma bela homenagem à mulher real. Além disso, Marques opta por embutir nas falas deste ser iluminado alguns jargões do palavreado contemporâneo (LOL, XOXO), que servem a torná-la mais acessível, próxima do espectador. 

Logo, de acordo com este olhar, João está, ao mesmo tempo, nos céus e também entre nós; ela seria uma figura desconhecida do passado, mas uma mulher trans que conversa conosco tal qual uma amiga próxima. O contraste com a contemporaneidade, já muito eficaz em Dildotectônica, se mostra ainda mais assertivo nesta obra. As duas mulheres se espelham, embora se desconheçam: a atriz e sua inspiração, a intérprete e o fantasma que volta para assombrar, e literalmente acertar contas, com o incômodo retrato de sua vida. A diretora consegue dar voz, proatividade e protagonismo à personagem histórica real, em momentos fabulares tão lúdicos quanto respeitosos.

Ao final, Marques recorda que a história das mulheres segue sendo contada por homens — e o mesmo vale para a trajetória de pessoas trans, por um olhar cis. Assim, o ato de dissecar o filme malfeito serve a, enfim, deixar que as duas João controlem o discurso, e digam o que realmente viveram, e como desejam que suas histórias sejam contadas. Trata-se de um gesto de reparação histórica, ainda que simbólico: interromper a obra dos outros para, neste afrontamento anárquico, fazer sua própria investida no tema. O ato de sabotar a obra consiste na própria performance de ambas as João, como se precisassem rasgar os documentos, impedir uma enésima construção de si próprias a partir do olhar dominante. Agora, falam por si.

Tudo isso se vê embalado numa construção estética precisa, segura, sobretudo pela escolha de manter o olhar junto à protagonista, mesmo quando os homens conversam. June João possui uma presença hipnótica na tela — é difícil olhar para qualquer outro personagem quando ela se encontra em cena. A atriz encarna uma personagem tão profissional quanto incomodada com este mesmo grande papel. Ela nem se converte na militante raivosa, nem acata ordens silenciosamente. Assim, respeitam-se as duas mulheres, em suas contradições e inseguranças. O discurso clama por mais espaço às pessoas trans, e por um protagonismo de qualidade, pensado junto delas, por elas, não somente a respeito delas.

Duas Vezes João Liberada (2025)
9
Nota 9/10

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