
Há alguns anos, a diretora Paula Tomás Marques tem conduzido uma pesquisa interessantíssima a respeito da história de pessoas transexuais em Portugal. Face à evidente dificuldade de obter arquivos a respeito de figuras invisibilizadas, ela desenvolve filmes que abordam tanto as suas descobertas, quanto as lacunas desta investigação. Por isso, combina dados, ficcionalizações e soluções poéticas que somente a arte poderia oferecer à versão oficial dos documentos. Em Dildotectônica (2023), trouxe a história de uma freira que se relacionou com as colegas de convento, utilizando dildos caseiros. Foi perseguida, porém, fugiu e desapareceu. Neste caso, a ausência de informações foi colocada em diálogo com uma criadora contemporânea de brinquedos eróticos. Assim, pensava-na maneira como a sociedade e a indústria lidavam com os desejos femininos.
Agora, em Duas Vezes João Liberada, dedica-se à jornada da personagem-título, uma pessoa de identidade dissidente (é impossível saber, pelos papéis, se ela se considerava trans, não-binária, etc.), perseguida pela Inquisição após o relacionamento com um sapateiro. Liberada terminou por cometer suicídio. Ora, como representar uma pessoa sem rosto? Como apontar a identidade de gênero de alguém cuja autodenominação se desconhece? Em especial, de que modo honrar o final verdadeiro da mulher, sem reproduzir uma enésima violência contra pessoas transexuais no cinema?
June João possui uma presença hipnótica na tela — é difícil olhar para qualquer outro personagem quando ela se encontra em cena.
O desafio era considerável. A diretora poderia, como tantas pessoas o fariam, simplesmente pressupor rostos, psicologias e sexualidades, contar a história da melhor forma encontrada (em virtude das circunstâncias), e se dar por satisfeita. Teria feito o possível, com a melhor das intenções. É melhor contar alguma história a respeito de pessoas trans do que história nenhuma, certo? Errado. Felizmente, a artista não envereda pelo refúgio empobrecedor das boas intenções. Prefere, por sua vez, imaginar duas narrativas paralelas: uma filmagem fictícia a respeito da personagem real, comandada por um homem cis, e os bastidores desta produção, sublinhando as dúvidas e discordâncias das pessoas envolvidas no processo criativo. Logo, privilegia as discussões a respeito de como fazer um bom filme ao produto destes esforços.
Teria sido fácil imaginar um diretor tirânico ou despreocupado, junto de pessoas submissas ou insensíveis. Ora, o longa-metragem escapa aos maniqueísmos simplórios. O cineasta fictício (André Tecedeiro) é um homem gay, de boas intenções, apesar de não dar atenção aos apontamentos da atriz. João (June João) compartilha com o espectador suas preocupações: a recusa de filmar tantas cenas violentas; a predileção por desfechos poéticos em detrimento dos trágicos. Já as colegas de convento (Alice Azevedo e Jenny Larue) comentam a necessidade de tolerar algumas discordâncias, caso queiram trabalhar e ser vistas no cinema. Uma batalha de cada vez, sugerem as amigas.
Os incômodos (de Marques, ou de sua protagonista?) são expostos cena a cena: a tendência a apresentar João enquanto vítima, ou uma mulher passiva demais a partir do momento em que o namoro com Franco (Caio Amado) se torna abusivo. Em oposição a um painel didático de críticas, a autora mergulha em devaneios belíssimos, graças a algumas simples ferramentas do cinema pré-digital. A granulação da película em 16mm, com cores saturadíssimas, se encontra com filtros fortemente azulados para sugerir a noite (em diálogo com os clássicos do cinema mudo). Já o diretor encontra-se estranhamente paralisado em sua casa, enquanto a imagem treme diante de seu corpo, graças ao uso de sobreposições e fusões. À noite, fantasmas perambulam pela casa de João.
A incursão no realismo fantástico atribui certa leveza à obra, além de afastar o projeto da responsabilidade de revelar uma verdade, contar o que realmente aconteceu. Marques também imagina, fabula, cogita junto ao público. A melhor metáfora provém do fantasma da João Liberada real, representada pela luz de refletor. Diversos ícones religiosos e cristão são ilustrados por uma iconografia semelhante — a fonte luminosa sem corpo, pois proveniente de um paraíso, de um ideal de calma e virtude. Retratar uma mulher trans, perseguida por seus pares, com os traços de uma divindade religiosa constitui uma bela homenagem à mulher real. Além disso, Marques opta por embutir nas falas deste ser iluminado alguns jargões do palavreado contemporâneo (LOL, XOXO), que servem a torná-la mais acessível, próxima do espectador.
Logo, de acordo com este olhar, João está, ao mesmo tempo, nos céus e também entre nós; ela seria uma figura desconhecida do passado, mas uma mulher trans que conversa conosco tal qual uma amiga próxima. O contraste com a contemporaneidade, já muito eficaz em Dildotectônica, se mostra ainda mais assertivo nesta obra. As duas mulheres se espelham, embora se desconheçam: a atriz e sua inspiração, a intérprete e o fantasma que volta para assombrar, e literalmente acertar contas, com o incômodo retrato de sua vida. A diretora consegue dar voz, proatividade e protagonismo à personagem histórica real, em momentos fabulares tão lúdicos quanto respeitosos.


Ao final, Marques recorda que a história das mulheres segue sendo contada por homens — e o mesmo vale para a trajetória de pessoas trans, por um olhar cis. Assim, o ato de dissecar o filme malfeito serve a, enfim, deixar que as duas João controlem o discurso, e digam o que realmente viveram, e como desejam que suas histórias sejam contadas. Trata-se de um gesto de reparação histórica, ainda que simbólico: interromper a obra dos outros para, neste afrontamento anárquico, fazer sua própria investida no tema. O ato de sabotar a obra consiste na própria performance de ambas as João, como se precisassem rasgar os documentos, impedir uma enésima construção de si próprias a partir do olhar dominante. Agora, falam por si.
Tudo isso se vê embalado numa construção estética precisa, segura, sobretudo pela escolha de manter o olhar junto à protagonista, mesmo quando os homens conversam. June João possui uma presença hipnótica na tela — é difícil olhar para qualquer outro personagem quando ela se encontra em cena. A atriz encarna uma personagem tão profissional quanto incomodada com este mesmo grande papel. Ela nem se converte na militante raivosa, nem acata ordens silenciosamente. Assim, respeitam-se as duas mulheres, em suas contradições e inseguranças. O discurso clama por mais espaço às pessoas trans, e por um protagonismo de qualidade, pensado junto delas, por elas, não somente a respeito delas.




