Almas Mortas (2025)

A malandragem à americana

título original (ano)
Dead Souls (2025)
país
Espanha, EUA
gênero
Comédia, Faroeste
duração
88 minutos
direção
Alex Cox
elenco
Alex Cox, Zander Schloss, Dick Rude, Amariah Dionn, Brendan Guy Murphy, Sarah Vista
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

É muito difícil determinar, de imediato, o tom e os objetivos de Almas Mortas. O filme se abre com uma animação de traços simples e efeito cômico, tal qual o início de uma sitcom. Depois, mergulha no imaginário do faroeste, com direito a cenas aceleradas, pedaços de cadáveres pendurados em árvores, sequências musicais, flashbacks em stop motion e quiproquós típicos do road movie (a carroça enguiçada à beira da estrada, por exemplo). O diretor Alex Cox adora acenar ao imaginário de diversos gêneros, somente para romper com os mesmos em seguida. Toma inúmeras liberdades — em relação à lógica, à coerência, às expectativas — pelo direito de fazê-lo.

Pode-se falar, então, numa obra anárquica, rebelde, ainda que não se saiba exatamente contra o quê se rebela. O roteiro adapta o romance homônimo de Gogol, focado num viajante misterioso que coleta informações a respeito dos mortos durante um raro censo pela cidade. Agora, o cenário é adaptado aos Estados Unidos do final do século XIX — caso em que os trabalhadores imigrantes se tornam alvo de tal procura. A cada habitante da região, Strindler (interpretado pelo próprio cineasta) afirma possuir um objetivo diferente com sua viagem. Diz trabalhar para um serviço funerário, ou para uma igreja, além de outras desculpas. Sobretudo, paga quantias generosas pela informação dos mortos.

Uma obra anárquica, rebelde, ainda que não se saiba exatamente contra o quê se rebela. Cox honra certa malandragem à americana, divertindo-se às custas dos mexicanos mortos.

A intenção de refletir a política norte-americana do século XXI, através desta fábula do racismo, soa muito promissora. Afinal, estes trabalhadores precarizados se tornam ainda mais lucrativos aos fazendeiros e demais empresários quando morrem devido a doenças. A lucratividade da xenofobia e a perseguição ao diferente dialogam com a atual gestão Trump, investindo suas armas e dólares no ICE, mesmo durante a paralisação do governo. O aspecto tragicômico de uma política que nem mesmo esconde seu racismo transparece de maneira eficaz no caráter afrontoso das almas coletadas e monetizadas. 

Em contrapartida, a comédia jamais permite que o discurso crítico reverbere de fato. Isso porque, em primeiro lugar, a forma chama atenção excessiva a si própria, minimizando o enredo ao qual deveria servir. O humor físico, envolvendo pessoas que tropeçam e caem, corridas aceleradas na edição, e barbas ridiculamente coladas ao rosto de um ator, nos aproximam de uma ludicidade infantil, paspalhona. Como levar a sério a geopolítica na fronteira EUA-México face à experiência que nos remete aos Trapalhões e outras trupes, conhecidas por extrair humor via ridicularização dos personagens? 

Em segundo lugar, os mexicanos estão convenientemente ausentes da jornada que pretende honrá-los. Trata-se de um acordo de cavalheiros, onde homens brancos negociam entre si (com o acréscimo de raras mulheres para quebrar o padrão). Entretanto, os trabalhadores mortos se convertem numa massa indistinta, desprovida de rosto, lar, história ou subjetividade. Fala-se em nome dos imigrantes, impedindo que apareçam na imagem e respondam por si próprios. Certo, o aspecto bufão do conjunto pretende dispensar a fábula de tal responsabilidade (“É apenas uma comédia”, responderão muitos, como sempre dizem diante do humor), no entanto, a iniciativa se mostra menos ingênua do que poderia aparentar. O deslocamento dos conflitos para a fronteira com o México consiste numa escolha deliberada, e há uma responsabilidade inerente à incorporação de tais elementos à trama.

Em terceiro lugar, nosso protagonista sem passado tampouco apresenta um desenho moral definido. Seria conveniente enxergá-lo enquanto alter-ego do cineasta, posto que interpretado pelo autor. De qualquer modo, este sujeito nem denuncia a exploração de mão de obra, nem lucra com ela. Serve unicamente como interlocutor de sujeitos ainda mais poderosos, e ausentes na imagem. Strindler limita-se a abrir o saco de dinheiro e oferecer moedas de ouro a inúmeros passantes pelo caminho. Uma vez confrontado ao perigo, saca algumas dinamites do paletó e, tal qual o Pernalonga, provoca uma explosão que o permite fugir ileso, em toda impunidade. A inconsequência total das ações (muitos morrem nesta viagem, o que jamais implica numa punição a quem quer que seja) dificulta a compreensão dos objetivos de Strindler, e de seu posicionamento face às informações compradas.

Talvez este seja o principal incômodo diante de um projeto tão arriscado e inusitado. Almas Mortas possui uma linguagem satírica (o efeito cortina na montagem, o duelo paspalhão ao pôr do sol), embora evite definir o alvo de sua sátira. Ele se baseia numa linguagem cinematográfica exagerada como se veria num cinema infantil, ainda que nunca percebamos ao certo a mensagem sublinhada. Geralmente, tamanho didatismo serve a tornar um discurso claríssimo, inequívoco, mesmo maniqueísta. Ora, aqui, acentua-se o traço, ao limite da caricatura, para servir a uma jornada que permanece hermética. 

Cox demonstra maior prazer em pequenas traquinagens imagéticas (o protagonista que se aproxima da câmera, vomita em frente ao dispositivo, e depois retorna ao plano de conjunto) do que em aprofundar a tensão desta adaptação de Gogol ao faroeste norte-americano. Para ele, a premissa dos mexicanos mortos serve como mera desculpa para colocar o andarilho em movimento, confrontando-se a figuras bem diferentes (umas mais agressivas, outras ternas e jocosas). Efetua-se um retrato da “América” que dificilmente irritará conservadores ou progressistas, posto que ninguém deve se identificar com os palermas em cena. Os personagens são descolados do real a tal ponto que pertencem a um universo próprio, respondendo unicamente ao raciocínio aleatório do humor.

Por isso, aproximando-se da conclusão, Almas Mortas toma suas maiores liberdades. O cineasta introduz o trecho em stop motion (cujas informações surtem efeito nulo no restante do roteiro), filma com escárnio a preocupante queima das cruzes de imigrantes, e introduz um órgão administrativo destinado a deportar chineses (mas que, por um bom preço, aceita atacar mexicanos também). Pode-se argumentar que tais recursos atacam o cinismo das administrações, porém, com um olhar igualmente cínico. Cox considera estes empresários engraçados demais para detestá-los de fato. Acaba honrando certa malandragem à americana, divertindo-se com um alegre e pueril jogo de ruptura com as normas democráticas — às custas dos trabalhadores mortos. É improvável que mexicanos e seus descendentes se sintam representados por esta jornada menos humanista do que travessa.

Almas Mortas (2025)
5
Nota 5/10

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