Um Corpo que Cai, por Kim Novak (2025)

Revigorada

título original (ano)
Kim Novak’s Vertigo (2025)
país
EUA
linguagem
Documentário
duração
76 minutos
direção
Alexandre O. Philippe
com
Kim Novak
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

O título induz o espectador ao erro. Ao longo do documentário, descobrimos que o feto do irmão de Kim Novak é preservado na casa da família, e que ela mesma foi alvo de uma tentativa de interrupção da gravidez. Somos informados que ela possui uma ligação bastante próxima com pássaros — um deles se apaixonou pela atriz, e passou a visitá-la diariamente. Escutamos que ela pressente seu final iminente, e teme a chegada da morte. Conhecemos o casarão luxuoso, comprado num gesto impulsivo, antes mesmo da visita ao imóvel, e contemplamos as paredes pintadas com artes da própria Novak. 

No entanto, discute-se pouquíssimo a respeito de Um Corpo que Cai. É preciso esperar pela segunda metade da narrativa para que se chegue ao grande clássico e, uma vez abordado o tema, este se limita à expressão de sentimentos bastante vagos. A protagonista menciona a beleza de interpretar duas personagens, a alegria de reencontrar o terninho guardado no porão, a admiração pelos dedos do pé de James Stewart — ossudos e magros como ele. Alfred Hitchcock é curiosamente poupado da conversa. “Vamos admitir: ele era muito complicado”, declara a personagem. “Mas eu também era”, acrescenta. O discurso para por aí. Nenhuma outra menção a métodos, processos, recordações ou repercussões do filme atravessa a narrativa.

Confunde-se intimidade com amenidade; e escuta empática com certo fetiche da fragilidade alheia. Conhecemos menos a respeito da experiência em Um Corpo que Cai do que saberíamos mediante a leitura do verbete da Wikipédia.

Alguns documentários já fizeram mergulhos metódicos e profundos na obra do cineasta britânico — caso de 78/52 (2017), também dirigido por Alexandre O. Philippe. Aqui, em contrapartida, o diretor prefere uma abordagem pessoal, intimista. Instaura uma espécie de chá entre amigos: Kim Novak senta-se numa cadeira, e o diretor (aparentemente, não microfonado) se senta em frente a ela. Juntos, discutem impressões, sentimentos, amenidades. “Tive que renascer, acreditar em mim mesma”, ela afirma. Adiante, declara: “Encontrei a minha própria energia”. Estamos mais próximos do discurso de autoajuda do que de uma investigação cinéfila.

Isso porque, desta vez, o cineasta não propõe nenhuma pesquisa por conta própria. Contenta-se com aquilo que Novak tenha a dizer sobre si mesma. Em total controle do discurso, a atriz insiste em se mostrar avessa à fama, contrária aos vícios da indústria, e incomodada com os papéis nos quais a beleza era priorizada ao seu conhecimento. Ao contrário de atuar (act), prefere “reagir” (react), algo que considera mais complexo e nobre do que simplesmente atuar. Ela fornece, como exemplo de “reatores”, Philip Seymour Hoffman, embora os motivos para tal comparação soem fortuitos. O que ele teria feito de diferente dos demais atores?

Longe dos projetos cinematográficos há mais de 30 anos, a protagonista prefere se focar no prazer e pintar, e nas reflexões pessoais. Por isso, Alexandre O. Philippe busca uma estética capaz de acompanhar as generosas autoavaliações. Ele chega à residência da atriz com uma imagem em câmera lenta, focando-se no portão que se abre sozinho. A luz está fortíssima lá fora, e a trilha sonora de pianos melódicos (praticamente ininterruptos durante 76 minutos) sugere uma entrada no paraíso. Posto que o começo da discussão versa insistentemente a respeito de morte e legado, ele encontra uma representação kitsch sagrado e do etéreo, baseado em folhas, árvores, raios de sol, gramados. Quanto mais câmeras lentas, flares e cores quentes, melhor.

Já as entrevistas, em si, são marcadas por estranhíssimas escolhas de direção de fotografia. Robert Muratore decide desfocar a ampla maioria do enquadramento, focando-se unicamente em partes do rosto da atriz. Isso lhe confere um ar misterioso, literalmente velado, devido à opção por esconder aquilo que se encontrava a poucos centímetros da personagem. Irônica estratégia de um documentário que dispensa os documentos e dificulta o acesso ao olhar, mesmo com tanto a observar. Prefere que a voz de Novak conduza a fala, em ritmo hipnótico, quase meditativo — não estamos muito distantes de um podcast. O cineasta procura toda oportunidade possível para fazer referências imediatas a Um Corpo que Cai: ele propõe planos de detalhe no olho da artista idosa, efetua giros com a câmera em quadros pintados por ela, e chega a descrever sua própria infância, onde o papel de parede de casa remetia àquele do filme de Hitchcock.

Ora, a disposição da atriz em se abrir para as câmeras teria permitido um acesso privilegiado à sua carreira. Ela poderia não apenas oferecer sua perspectiva acerca dos métodos controversos do britânico, mas também dos outros cineastas e atores com quem trabalhou. Seria capaz de expressar seu ponto de vista quanto à produção atual da indústria e, fora dela, e meditar acerca dos espaços oferecidos às “belas atrizes”. Esta seria a oportunidade de dissecar um clássico pelo ponto de vista feminino, pela perspectiva de um nome nem sempre considerado primordial entre os cânones hollywoodianos. Havia um potencial imensurável nesta abertura de portas (e coração) por parte de Novak.

Em contrapartida, os criadores se contentam com muito pouco. Buscam somente equivalências imediatas: quando a protagonista abre suas caixas de figurinos, corta-se para Hitchcock, nos programas de televisão, abrindo a porta do armário. Quando ela se queixa da objetificação de sua figura, corta-se para o trecho de uma comédia no que os homens a assediam numa lanchonete. E assim por diante: ela expressa amor por pássaros e vemos Os Pássaros, cita o efeito do espiral em Um Corpo que Cai, e a montagem procura curvas sinuosas nas pinturas da atriz. As aproximações não poderiam ser mais redundantes, e também óbvias. Nenhuma fricção ou metáfora é construída a partir destas combinações, em modo jogo da memória.

Resta uma impressão de reportagem televisiva, nos moldes dos programas vespertinos de conversa entre colegas. Confunde-se intimidade com amenidade; e escuta empática com certo fetiche da fragilidade alheia (a montagem preserva trechos em que Novak se repete, e se perde no raciocínio). Deixamos a sessão conhecendo menos a respeito da experiência em Um Corpo que Cai do que saberíamos mediante a leitura do verbete Wikipédia da produção. Ao menos, ironicamente, percebemos a importância de uma direção preparada e segura para conduzir uma boa conversa. Este longa-metragem serve de exemplo de como um tema fascinante, e um entrevistado interessado, podem render um resultado frágil, caso mal conduzidos, e associados e uma iconografia zen-mística de nula relevância à cinefilia e à pesquisa audiovisual.

Um Corpo que Cai, por Kim Novak (2025)
3
Nota 3/10

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