O Som da Queda (2025)

Simulações de vida e morte

título original (ano)
In Die Sonne Schauen (2025)
país
Alemanha
gênero
Drama
duração
149 minutos
direção
Mascha Schilinski
elenco
Hanna Heckt, Luise Heyer, Lena Urzendowsky, Laeni Geiseler, Susanne Wuest, Lea Drinda, Florian Geißelmann, Greta Krämer
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

“Alma passou o verão todo esperando morrer, ou não acordar”, afirma a narração. As angústias da garotinha também atravessam, de certa forma, todas as personagens de O Som da Queda (Sound of Falling, no título internacional). O filme se articula ao longo de quatro gerações de garotas vivendo na mesma fazenda. Enquanto manifestam curiosidade e receio pela finitude, descobrem as histórias das antepassadas, falecidas no local. Surgem, assim, episódios de estupro, suicídio, desaparecimento, doenças misteriosas. As irmãs, mães, tias, empregadas domésticas e demais mulheres no cotidiano das meninas manifestam preocupações semelhantes.

Durante 149 minutos, a diretora Mascha Schilinski constrói um panorama ambiciosíssimo de personagens. Ela trabalha com, pelo menos, trinta figuras de relevância para a trama. Além disso, evita fazer demarcações temporais entre as distintas décadas. Para além dos figurinos e cenários específicos, nenhum elemento estético demarca o salto entre as décadas de nossas bisavós, nossas avós, nossas mães, e da garota contemporânea, utilizando telefones celulares. Posto que cada núcleo possui suas interações e conflitos próprios (com figurantes e coadjuvantes particulares), não é difícil se perder no vai e vem da trama, ou pressupor erroneamente que um personagem pertença, na verdade, ao grupo seguinte.

Schilinski compensa a falta de sutileza com cenas primorosas na utilização dos espaços, e na maneira de organizar tantos personagens em cena.

Para o espectador menos focado em estruturas e categorias, há material de sobra para se espantar com tamanha disposição a associar, com furor, a morte ao sexo. A montagem alterna, rigidamente, cenas de desejo com outras de violência, até condensá-las nas representações de abuso sexual. Por exemplo, uma das garotinhas pergunta: “O que acontece quando a gente morre?”. As cenas seguintes serão, sucessivamente: 1. Um ato sexual, 2. Um pesadelo envolvendo assassinato, 3. Uma brincadeira de crianças na grama. Como numa montanha-russa, o ritmo passa da euforia à depressão, das risadas entre jovens ao desespero diante de um novo funeral. 

Estes ciclos constituem os únicos movimentos capazes de fazer a trama avançar: nada de política, casamentos, ou dilemas comunitários. Tudo se resolve no interior das famílias, onde tios assediam sobrinhas, primos tentam perder a virgindade com primas, e os patrões estupram as criadas. A cineasta não demonstra pudor em filmar, por exemplo, a mulher que retira o pênis do namorado das calças para esfregá-lo própria cara (“É quente!”), outra que prova o suor do homem mais velho, represado no umbigo, e ainda o striptease da adolescente para uma plateia infantil, relativamente indiferente ao espetáculo. Quase tudo passa pelo corpo, exteriorizando-se no êxtase e no luto.

As quedas mencionadas no título são elevadas ao símbolo central da narrativa. Há pelo menos uma dezena de quedas relevantes à trama. Isso inclui crianças que se matam ao se jogarem de um patamar alto, adolescentes cometendo suicídio para evitarem o estupro de vizinhos, a menina que espera ser esmagada por um trator agrícola, a mãe subitamente incapaz de usar as pernas, e a empregada doméstica, vítima de uma brincadeira das crianças. O longa-metragem explora o ato de cair de forma bastante literal, numa trama repleta de homens deficientes e mulheres com impulsos autodestrutivos.

Como se percebe, Schilinski não é nada parcimoniosa no uso de simbologias. Ela compensa a falta de sutileza com um gosto apurado pela construção de audiovisual. O Som da Queda transborda de cenas primorosas na utilização dos espaços, e na maneira de organizar tantos personagens em cena. Por exemplo, no início, Alma corre junto da irmã pela casa, fugindo da punição da empregada doméstica. A câmera a acompanha, aproveitando para revelar os cômodos e a dinâmica desta família. De repente, as demais crianças somem e, no mesmo plano, o local se torna vazio. Uma porta se fecha em frente à menina, que espia pela fechadura o início de (mais um) ritual fúnebre. A cada enterro, o rosto do morto estampa uma nova fotografia sobre a estante. “Será que você vai estar nas fotografias ano que vem?”, um dos rapazes provoca a mulher idosa.

O drama está repleto de instantes como estes, onde uma cena se inicia leve e agradável, para terminar em estilo pesaroso, ou então, efetua o movimento inverso. A dança sensual da adolescente termina com um sentimento de solidão; o retorno triunfante da festa motiva o choro; e a provocação das crianças (“O último a sair do celeiro vai ficar preso no inferno!”) justifica uma representação muito próxima do horror. Aliás, o terror se encontra sempre no horizonte, como na sequência das pálpebras de mortos, costuradas para a pose em fotografias, e das moscas vibrando dentro do cadáver de crianças.

O Som da Queda trabalha esta noção de que a morte seria um elemento unindo o público e o privado, ou melhor, o individual e o coletivo. Se a vida pertence a cada um, a morte diz respeito a todos. Por isso, cada ritual precisa ser experimentado em grupo, tanto para a elaboração do luto, quanto para demonstrar respeito pelo falecido. A morte é exposta, exibida, tal qual um troféu. Lamentam-se, mas também se festejam as partidas, nesta trama onde todas as portas estão destrancadas, e cada pessoa espia, controla e fantasia a intimidade dos demais. A este propósito, muito se passa no domínio da imaginação das meninas (para além da complexa estrutural temporal, há devaneios individuais, bifurcando a trama).

Resta uma obra de atmosfera muito forte, e de um refinamento excepcional para a representação de tantas violências. Schilinski sabe exatamente como retratar cada um destes instantes, para não convertê-los num espetáculo perverso de prazer a partir da dor alheia. Ela tampouco se apieda a respeito de quem quer que seja — nem mesmo as crianças adquirem uma aura de inocência e vitimização. A autora se mostra implacável nessa sucessão bruta, e mesmo um tanto fria, de provações face à morte. É possível que ela estenda demais, repetindo procedimentos e esgotando algumas metáforas. A concisão tampouco se prova o forte da criadora, que prefere a exaustão e o delírio espaço-temporal a uma noção de eficiência e de performance narrativa. 

Ressalvas à parte, consegue imprimir a ideia de uma sina de mulheres, obrigadas a cometerem violências contra si próprias para escaparem de agressões ainda maiores nas mãos dos homens. Nem heroínas, nem mártires, elas se mostram uma peça suplementar na extensa galeria de opressões patriarcais. O longa-metragem não se prova particularmente otimista ao sugerir que, passadas as gerações, os perigos às mulheres continuam praticamente idênticos, e a fazenda da trama segue testemunhando atos bárbaros, não-documentados, e esquecidos pouco tempo depois. Ao crescerem, estas mulheres se veem presas a uma estrutura da qual dificilmente podem escapar.

O Som da Queda (2025)
7
Nota 7/10

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