Os letreiros iniciais de Irmãos Versos Irmão (Brother Verses Brother, no original) impressionam ao chamá-lo de cinema ao vivo, explicando que todas as ações foram improvisadas. Assim, os irmãos Ari Gold e Ethan Gold percorrem as ruas de São Francisco, durante uma tarde e começo da noite, tocando seus instrumentos, cantando e encontrando pessoas. Ao longo deste percurso, o irmão mais velho expõe sua fragilidade emocional, enquanto o caçula tenta encorajá-lo.
O drama musical parte de uma viagem leve, na qual a vivência real dos músicos (incluindo uma visita ao pai de 99 anos) se mistura com os imprevistos da cidade. Durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor Ari Gold conversou com o Meio Amargo a respeito deste curioso projeto:

Fiquei impressionado com o letreiro informando se tratar de um “cinema ao vivo”, com ações improvisadas. Como percebe estes termos, aplicados ao filme?
Ari Gold: Bem, fazia muito tempo que eu queria fazer um filme sobre minha relação com meu irmão — incluindo a música que fazemos juntos. Eu tinha escrito vários roteiros bem mais tradicionais, contando a história das nossas vidas. Alguns eram mais cômicos, outros, mais realistas. Mas percebi que nada disso captava o que eu queria. Primeiro, porque levaria uma eternidade para preparar e filmar um projeto desses, e, depois, porque eu tinha visto alguns desses filmes improvisados, rodados em um só plano. Um amigo meu, em Belarus, fez um chamado A Date in Minsk, no qual ele e a namorada fingiam se conhecer pela primeira vez, e improvisavam o filme juntos.
Achei um formato incrível para criar intimidade com o público. Então, era exatamente isso que eu queria fazer. Escrevi uma história que achei — loucamente — que eu conseguiria fazer, porque eu conhecia muito bem o ambiente. Eu conheço São Francisco, aquelas ruas, aqueles bares, aquelas pessoas. Então, não estava improvisando em um lugar totalmente estranho. Isso me deu um pouco de coragem para fazer algo tão maluco.
Como filmávamos nas ruas, não sabíamos o que ia acontecer. Então, havia um nível de improviso puro com o mundo real.
Mas a câmera parece saber exatamente para onde ir, por exemplo.
Ari Gold: Sim, nós coreografamos bastante coisa com antecedência. Algumas cenas mais do que outras. Mas, como filmávamos nas ruas, não sabíamos o que ia acontecer — o trânsito, as luzes, as pessoas. Alguns bares em que entramos nem sabiam que estávamos indo. Então, havia um nível de improviso puro com o mundo real, mas também muito planejamento e preparação coreográfica.
Você apresenta seu irmão como o gênio musical da dupla, mas também um homem bastante melancólico — enquanto você tenta animá-lo.
Ari Gold: Há um elemento verdadeiro nisso. Eu tendo a ser mais expansivo, mais “produtor”, digamos assim. E ele costuma entrar em estados bastante melancólicos. Por outro lado, é uma história fictícia, e interpretamos versões exageradas disso, porque, para captar uma sensação de realidade em 90 minutos corridos, é como um iceberg — você vê só o topo. A caracterização precisava ser clara.
No filme, ele é o silencioso e melancólico. Na realidade, a relação é mais complexa, porque às vezes os papéis se invertem — sou eu que caio em depressões profundas, e ele tenta me tirar disso. Mas o filme se passa em um momento em que eu estou na posição mais extrovertida.

A história se torna bem íntima, especialmente quando você menciona o receio pela morte do pai. Como você decidiu até onde poderia ir na vida pessoal?
Ari Gold: Eu, pessoalmente, não tive freios em relação a me expor. Meu pai também não. Já meu irmão teve alguma resistência em se mostrar como alguém “perdido”, e isso gerou certa tensão entre nós nas filmagens. Porque, para meu personagem fazer sentido enquanto alguém que tenta ajudar, ele precisava ter um lado que necessitasse de ajuda. Caso contrário, meu personagem pareceria delirante.
No começo, Ethan atuava como se estivesse tudo bem na vida dele, e eu dizia: “Precisamos entender o meu medo pela tua vida. Mesmo que eu esteja exagerando, o público precisa entender o porquê”. Então, chegamos a um meio-termo na cena em que ele para de tocar no meio de uma música e tem uma recaída devido à dor da concussão, quando não consegue ouvir nem se concentrar. Pedi que fizesse isso para indicar o risco de ele retornar a um estado melancólico.
Você dirige seu irmão, seu pai, e Lara Louise. Como foi a abertura deles para suas orientações?
Ari Gold: Eles foram muito receptivos. Perguntavam o que eu queria e eu explicava a estrutura de cada cena, os principais momentos. Mas o diálogo em si era totalmente improvisado por eles. Escolhi pessoas que eu sabia que se sairiam bem com isso. Por exemplo, o Brian Bell, do Weezer, vinha estudando atuação havia alguns anos, e é um ótimo ator. Pedi que fizesse uma versão um pouco cômica de si mesmo, o que foi divertido para ele e para mim — até porque eu não sabia o que ele estava dizendo em várias cenas, já que ele conversava com a garota enquanto eu estava do outro lado da sala. Só percebi na edição o quanto ele estava ótimo.
A instrução para o operador de câmera era: siga a coreografia planejada, mas, se o mundo real mudar, mude junto. Por isso, a câmera é um personagem.
Os planos longuíssimos parecem ter exigido uma preparação extensa.
Ari Gold: Na verdade, o tempo de preparação foi surpreendentemente curto, porque eu me preocupava com a saúde do meu pai — queria filmar enquanto ele ainda pudesse participar. Então, fomos muito rápidos. Caminhei várias vezes com a câmera pelo trajeto, para coreografar tudo antes. E, na gravação real, todos tivemos que improvisar — inclusive a câmera — porque aconteciam coisas nas ruas que não podíamos prever. Conseguimos incorporar muitos desses eventos aleatórios. A instrução para o operador de câmera era: siga a coreografia planejada, mas, se o mundo real mudar, mude junto. Por isso, a câmera é um personagem. E a cidade também — São Francisco é um personagem.
A respeito da música, como decidiu com seu irmão quais faixas usariam?
Ari Gold: Passamos muito tempo imaginando a organização “sinfônica” da trilha — equilibrando músicas animadas, calmas, engraçadas, tristes — e como esse mapa funcionaria ao longo dos 90 minutos. Debatemos muito sobre quais canções tocar em cada momento, de modo que apoiassem o drama da cena. A maioria das músicas não está ali “só por estar”; há algo dramático acontecendo. Depois, trabalhamos muito no som para que o fluxo musical combinasse com a narrativa.
A música dos irmãos, por exemplo, foi composta para o filme. Queríamos uma canção-tema. E a trilha orquestral usa melodias derivadas dessa mesma música, Brothers Keep Going Anyway, para que o público a reconheça subconscientemente ao ouvi-la no final.

Os diálogos foram dublados depois? O som está limpíssimo.
Ari Gold: Trabalhei durante um ano na mixagem. A maioria das vozes vem do som real captado ao vivo. Tivemos que substituir algumas falas que ficaram distorcidas, mas a imensa maioria é original. Já os demais sons — carros, passos, pássaros — foram todos adicionados depois, para recriar o ambiente de São Francisco e fazer a cidade “viver”.
Outra coisa que me impressionou foi o nome de Francis Ford Coppola como produtor.
Ari Gold: Foi um ano e meio de insistência. Consegui que ele visse o filme três horas antes da estreia! Ele não participou fisicamente, mas foi uma inspiração espiritual — especialmente por causa do livro dele, Live Cinema and Its Techniques, em que fala sobre o cinema nas ruas e o cinema como teatro da vida. Filmamos no bairro dele e mixamos no porão dele, então eu precisava mostrar o filme para ele. E deu certo.
É um musical, embora não de forma “clássica”. Os personagens cantam porque são músicos, não porque estão expressando sentimentos por meio da canção.
Quais foram as reações ao filme em festivais, e na sua própria família?
Ari Gold: Minha família adorou o filme. Já exibimos em vários festivais, e o retorno tem sido muito forte. Ontem mesmo, aqui em São Paulo, alguém me disse que era “o melhor filme do século”. As pessoas reagem de forma muito emocional — especialmente quando veem na tela grande. O filme funciona no celular, mas perde muito; a experiência de estar imerso por 90 minutos sem cortes é algo que só o cinema proporciona.
E você preserva aquele toque mágico dos musicais, quando as pessoas simplesmente saem cantando pelas ruas.
Ari Gold: Sim. É um musical no sentido de que as pessoas estão sempre cantando, embora não de forma “clássica”. Os personagens cantam porque são músicos, não porque estão expressando sentimentos por meio da canção. Mas construímos a trilha sonora como em um musical: há cenas em que tocamos na rua, e outras em que adicionamos sons e músicas extras para enriquecer a performance ao vivo — de um modo não realista, mas mágico e emocional. Acho que isso ajuda o filme a flutuar entre o realismo e o espaço do sonho.



