Labirinto dos Garotos Perdidos (2025)

O mundo dos desejos

título original (ano)
Labirinto dos Garotos Perdidos (2025)
país
Brasil
gênero
Terror, Fantasia
duração
82 minutos
direção
Matheus Marchetti
elenco
Giuliano Garutti, Lucas Bocalon, Henrique Natálio, Gabriel Muglia, Julio Mourão
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

À primeira vista, São Paulo parece uma cidade acolhedora. Miguel (Giuliano Garutti) precisa de um lugar para dormir na capital, às vésperas do vestibular, e consegue um casarão sem dificuldade, através de um rapaz conhecido via aplicativos de paquera. Ele marca diversos encontros, além de cruzar o caminho de sujeitos atraentes, que lhe devolvem o interesse. As portas estão abertas, os locais estão acessíveis — os parques seguem abertos e vazios, e as piscinas de mansões, disponíveis para o nado. O longa-metragem parte de uma oferta à concretização direta dos desejos. Basta chegar e aproveitar. 

“Tem sempre alguém querendo te pegar”, frisa um diálogo cujo significado pode apontar tanto à atração sexual quanto ao perigo de se tornar o alvo de um estranho matador pela região. Para o diretor e roteirista Matheus Marchetti, não existe diferença: nesta fábula, só transa quem morre, e só morre quem transa — as duas coisas estão intimamente ligadas. Os corpos se oferecem ao sacrifício em nome deste prazer prometido em cada esquina, porém, raramente materializado enquanto tal. Por isso, o jovem assassinado segue tocando piano conforme leva tesouradas, e o sujeito conhecido no parque começa a descrever seus impulsos suicidas durante o sexo oral. Existe um caráter ritualístico no qual o êxtase coincide com a experiência do sacrifício.

O herói desta aventura se perde na cidade para melhor se encontrar. Marchetti concebe um ritual de passagem à autodescoberta queer.

Isso porque, para o cineasta, o único gozo possível reside na morte. Para um filme focado em tantos encontros que se iniciam com carinho e desejo de ambas as partes, não é permitido a ninguém chegar ao orgasmo via sexo. Sempre existe um empecilho, às portas da satisfação: o brinquedo erótico quebra, a prima entra no banheiro, o rapaz passa mal, o assassino faz uma nova vítima. A dinâmica perversa do filme consiste em atrair seus homens gays com a promessa de sexo fácil, e proporcionar tais desejos a princípio, apenas para castrá-los pouco antes do fim. Segundo esta estética do edging, ou do coito interrompido, a única maneira de se apoderar, de fato, de um corpo, tomando-o para si, e chegando a um prazer definitivo, encontra-se no ato de matar, ou ser morto. 

Logo, o raciocínio típico das fábulas reside menos na narração em off, proveniente de uma figura materna que literalmente encarna a mãe de um personagem (Tuna Dwek), do que na ideia rodriguiana de que todo prazer será castigado. Este seria a cautionary tale por excelência do jovem gay da cidade grande: cuidado com aquilo que desejas, porque pode consegui-lo, precisamente. Assim como Chapeuzinho Vermelho era punida por não tomar o caminho prudente na floresta, e João e Maria sucumbiam à gula, Miguel se torna alvo de suas pulsões. Ele sabe que o perigo existe e, mesmo assim, cede a cada oferta de prazer pelo caminho. Depois de tantos dates inicialmente paradisíacos, e frustrados no final, declara: “Hoje está sendo um dos piores dias da minha vida”.

A viagem segue uma lógica própria, possível unicamente nos sonhos. Estranha-se como os garotos saem de um lugar e chegam ao seguinte. Na maior parte das cenas, parecem vindos de lugar nenhum, com nulo objetivo em vista. Ocupam um eterno presente, sem obrigações nem prazos para encerrar as festas. Apesar de muitas referências ao universo do terror (Dario Argento e o giallo vêm à mente, diante das luzes piscantes dos diretores de fotografia João Paulo Belentani e Davi Krasilchik), este universo estreita laços com a pesquisa do pernambucano André Antônio a respeito do dandismo. Em A Seita, o diretor investigava o hedonismo numa juventude gay assumidamente caricatural. 

Já Marchetti demonstra carinho verdadeiro por estes twinks um tanto patéticos, que não sabem bem como beijar, nem se portar diante do objeto de interesse (mas que levam presentes, fazem carinho, se preocupam com a saúde do outro). Não, eles não consomem açúcar e têm intolerância à lactose (o roteiro se diverte ao parodiar a fragilidade do homem do século XXI), mas ainda sem relacionam sem tabus, nem idealizações da ordem do amor romântico. Ninguém se apaixona nesta jornada dedicada a trazer algum reconforto e deleite naquele instante, somente. Amanhã, veremos. Você foi assaltado e está sangrando? Paciência, isso acontece com todo mundo, sugere a prima. Não liga pra isso, vamos festejar. Forget your troubles, come on, get happy.

Enquanto isso, interessa muito que as luzes apostem nos neons azuis e cor de rosa para os cômodos das casas misteriosas, enquanto prefiram a cor crua e esbranquiçada durante as sequências de do sexo. Ora, a maioria das obras LGBTQIA+ brasileira optaria pelo caminho contrário: o queer neon representando o universo das pulsões, e a luz naturalista para o cotidiano entediante entre cada fantasia. Mas para Belentani e Krasilchik, o elemento mais banal, comum e frequente reside precisamente no ato sexual. Quando tudo e todos estão disponíveis a trocas inconsequentes, e os espelhos multiplicam os corpos sobre a cama, instaura-se uma transação corriqueira de corpos. Estranha, mesmo, é a casa onde o protagonista desenvolve estranhos sonhos (remetendo à academia de dança de Suspiria), e o aquário hipnótico onde os rapazes se admiram.

Por fim, Marchetti transporta o espaço da fábula (a floresta, os castelos, os reinos mágicos mencionados pela narração) a uma espécie de território do outro. Miguel visita a casa do rapaz por aplicativo, atravessa a mansão dos desconhecidos, frequenta o estranho culto dos corpos à disposição. Ele adoraria se apropriar de tudo aquilo, porém, nunca se percebe realmente à vontade nestes mundos diferentes do seu. Raras vezes o cinema retrata com tamanha ludicidade a sensação de não-pertencimento, retirando do sexo seus tabus e moralismos. Cria-se uma aventura arquetípica para o sujeito ingênuo (confundido com virgem) descobrindo o local onde, literalmente, existem monstros à espreita. 

Ora, ele compreende que a monstruosidade o assusta, mas também o excita, e que ele pode não apenas fazer as pazes com o aspecto asqueroso de seu prazer, e sim cultivá-la enquanto motivo de orgulho. Por isso, cruza o caminho com sujeitos que praticam abertamente seus fetiches envolvendo urina e pepinos, que inicialmente soam estranhos ao forasteiro, até ele se prestar ao jogo. O herói desta aventura se perde na cidade, para melhor se encontrar. O “pior dia da sua vida” também será o melhor, o mais marcante, aquele em que compreenderá em profundidade os contornos de sua identidade gay. O cineasta concebe, por fim, um ritual de passagem à autodescoberta queer. Caso o protagonista sobreviva a esta longa jornada noite adentro, será um sujeito mais maduro, capaz de impor aos próprios garotinhos que descobrir pelo caminho, seus fetiches e vontades.

Labirinto dos Garotos Perdidos (2025)
8
Nota 8/10

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