
Uma ótima maneira de pensar o cinema queer diz respeito à maneira como o sexo e a sexualidade são representados na narrativa. Obviamente, este recorte de filmes não precisa conter cenas de sexo (o queer diz respeito a uma estética, mais do que uma temática), entretanto, é frequente que as produções marginais aproveitem justamente para mostrar aquilo que as outras se recusam a fazer — a exemplo da intimidade. Em se tratando de indivíduos de gêneros e identidades não-hegemônicos (em sua maioria), a responsabilidade decorrente da representação do afeto se faz ainda maior.
Ao longo da história do cinema, conforme grandes produções timidamente se aproximavam do tema, o sexo assumiu funções de espetáculo. Tratava-se, com frequência, de propostas de catarse, fossem elas de violência, de prova do amor profundo, de expiação para dilemas anteriores. Considerando o conservadorismo crescente do público, sempre se considerou que uma representação da intimidade precise ser indispensável, plenamente útil e justificável, pensada para fazer a trama avançar. Caso contrário, recairia na exploração, no desejo de chocar, de provocar, de tornar o espectador desconfortável. Diz a cartilha do bom senso que há várias maneiras de errar uma cena de sexo — já acertar se torna muito mais difícil.
Um mosaico riquíssimo de vivências homoafetivas. A partir de seu foco específico (homens cis gay), explora a maneira como sexualidade atravessa questões de classe, de raça e de origem.
Esta digressão ajuda a pensar o belíssimo Queerpanorama, filme contado através de interações sexuais. Neste caso, não se trata de personagens gays que, por acaso, fazem sexo ocasionalmente, entre várias outras atividades mais “nobres” que um personagem fictício poderia ter (trabalhar, cuidar da família, etc.). Aqui, o encontro entre homens constitui a atividade central da trama, e o único motor capaz de colocar o protagonista em movimento. O rapaz sem nome (interpretado por Jayden Cheung) multiplica as tardes e noites com sujeitos encontrados via aplicativo. Em cada casa, ele faz sexo, e depois conversa com o parceiro. Discutem trabalho, língua, namorados, política, mas também trivialidades, como cumprimentos e sotaques. Cozinham, fumam, dormem.
A intimidade entre homens é mostrada com uma naturalidade exemplar — pois banal, corriqueira, simples. Novamente, a corrente majoritária das produções industriais nos acostumou a relações traumáticas, abusivas, significando personagens compulsivos, irresponsáveis, com muito a esconder, ou no fundo do poço (de Eu, Christiane F. a Shame; de Apenas uma Mulher a O Segredo de Brokeback Mountain). Ora, nesta produção de Hong Kong, as interações se mostram tão verossímeis quanto afetuosas. São efêmeras, sem dúvida (o herói se recusa a repetir parceiros), porém, repletas de interesse pelo outro. Os personagens oferecem e recebem afeto sem nenhuma perspectiva de amor romântico. Ninguém se apaixona.
A direção de Jun Li e a direção de fotografia de Yuk Fai Ho colaboram muito com esta impressão de neutralidade (acompanhada de ausência de julgamentos morais). Eles optam por enquadramentos fixos, rigidamente compostos, pensados para valorizar os ambientes (o primeiro close-up — caso possa ser chamado assim — surge na segunda metade da trama). Deste modo, os apartamentos de classe média-alta (do arquiteto alemão) e dormitórios para moradores de baixíssima renda recebem tratamento equivalente. Nada disso freia o protagonista, para quem o contato se torna um objetivo em si. Cada imagem é muitíssimo bem refletida em termos de composição, estabelecendo quadros-dentro-do-quadro (divisões internas, criadas por batentes de portas e janelas, por exemplo).
O uso do preto e branco colabora à uniformização dos corpos, das texturas, e da própria luz. Deste modo, cria-se certo distanciamento do real, impedindo que se enxergue a troca entre homens por um viés documental, ou pela perspectiva de um fetiche do real — do tipo “veja o que realmente acontece entre quatro paredes, etc”. A estética formalista constitui um filtro, fazendo com que observemos o sexo com a mesma importância das conversas que antecedem ou se sucedem à relação. O enquadramento nem se aproxima de genitálias, nem se afasta delas; nem valoriza a beleza particular de um e de outro, nem oculta partes dos atores nas sombras, por pudor ou delicadeza. Observa estes indivíduos por inteiro, com a mesma naturalidade que os próprios homens encaram estas atividades.
Durante o percurso, o jovem mente, e muito, aos companheiros do momento. Ele desenvolve o prazer de adotar a profissão do último homem com quem transou: depois de sair com um arquiteto, declara ser arquiteto no encontro seguinte; depois da tarde com um cientista, afirma ser cientista. A brincadeira permite ao herói anônimo ser alguém, ou, melhor ainda, tornar-se quem ele deseja. Afinal, sabendo que os encontros não se repetirão, por que não se autorizar à identidade que desejar? O roteiro cuidadosamente costura informações com bastante humor: piadas decorrentes de um bate-papo serão reaproveitadas no seguinte, ou exageradas na próxima noite.
Existe uma liberdade profunda nestas trocas descompromissadas, que o diretor sabe captar com senso de ironia, mas também, com inegável ternura. Ele possui apreço por estes sujeitos, muitos deles, estrangeiros em Hong Kong. Através dos encontros sexuais, e apenas deles, fala bastante sobre a comunidade gay em Hiong Kong, na qual se encontram iranianos, norte-americanos e tailandeses. Discute-se a solidão, mas também o pertencimento a uma comunidade queer capaz de acolhê-lo. Aborda uma maneira de estar no mundo que ignora família, religião, compromissos institucionais. Os homens nus desta jornada ocupam um eterno tempo presente. Assim como nosso herói, seus parceiros podem estar mentindo — e quem se importa? Naquele palco-cama dos colchões improvisados, e no escurinho das baladas, podem performar o desejo que quiserem.
Isso não significa que Queerpanorama idealize os laços casuais. Há espaço para entrosamentos profundos, mas também para desencontros, transas sem real afinidade, e mesmo um ato perturbador de violência. Mesmo neste episódio, Jun Li não converte seu protagonista num jovem arrependido, punido por seus gestos. Ele se recompõe e, num corte da montagem, parte para o encontro seguinte. Ocasionalmente, o jovem chora em seu minúsculo apartamento da periferia. Ele menciona aos parceiros uma depressão, além de tendências suicidas no passado. Seriam verdadeiras? Não saberemos. Aprendemos a duvidar do rapaz, e a desistir de psicologizar seus atos. Compreendemos apenas que, naquele momento, convinha ao garoto apresentar-se assim.


No final, o longa-metragem oferece um mosaico riquíssimo de vivências homoafetivas. A partir de seu foco específico (homens cis gay), explora a maneira como sexualidade atravessa questões de classe, de raça e de origem. O fator capaz de ultrapassar estas diferenças, e justamente aproximar os moradores de Hong Kong, consiste neste interesse mútuo, ao menos durante algumas horas. Quando a câmera efetua seu primeiro e único zoom-in num beijo afetuoso, após o “ótimo” sexo (na palavra dos dois) sobre um colchão jogado ao chão de um apartamento vazio, percebe-se a disposição em observar estes personagens não pelo que são, mas por como desejam se apresentar um ao outro, e ao espectador — cúmplice das relações todas.
O filme inteiro se converte num pacto de confiança, um consentimento mútuo, uma disposição de ir em direção ao outro — não na condição de investigador, de juiz, de policial, de padre, mas de amigo. O olhar do público deixa de ser espião, observando secretamente de longe, ou voyeur, deliciando-se de perto. Estamos juntos, logo ao lado, observando com tanto interesse quanto respeito, como se fôssemos um terceiro integrante dessa troca. Aqui, o sexo deixa de ser uma consequência do afeto, ou uma prova do mesmo: ele constitui o próximo afeto.




