Pai Mãe Irmã Irmão (2025)

Pura formalidade

título original (ano)
Father Mother Sister Brother (2025)
país
EUA, Itália, França, Irlanda, Alemanha
gênero
Drama, Comédia
duração
110 minutos
direção
Jim Jarmusch
elenco
Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Vicky Krieps, Sarah Greene, Indya Moore, Luka Sabbat, Françoise Lebrun
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

Pai Mãe Irmã Irmão se estrutura em três histórias distintas. Mesmo assim, em cada episódio, o diretor e roteirista Jim Jarmusch parte de um motor narrativo idêntico: dois irmãos viajam para encontrarem os pais, de quem não são muito próximos. Os próprios irmãos, já adultos, estão pouco presentes na vida um do outro. Assim, as poucas horas passadas na casa da família transparecem certo constrangimento, e pouca intimidade. As perguntas são triviais, pro forma, visando quebrar o gelo ao invés de tocarem em temas profundos. Todos se dizem contentes em se ver, embora visivelmente desejem que o encontro acabe o quanto antes. Logo, pais e filhos aceitam a visita por considerá-a necessária (é isso que as famílias fazem, certo?), embora a reunião não seja realmente festejada por nenhuma das partes.

O cineasta acrescenta diversos elementos pequenos, capazes de aproximar os episódios autônomos. Em todos os casos, os visitantes contemplam skatistas na rua, em câmera lenta. Sempre se discute um curioso Rolex no pulso; além daquela pessoa que mora no “cu do Judas”; a legitimidade de se brindar com água, chá ou café; e as peças de vestimento ironicamente combinando (no caso da última trama, revelada num desenho infantil). Em paralelo, utilizam expressões repetidas, caso de “your uncle’s name is Robert”, significando que está tudo certo, tudo arranjado. A cada recorrência, o autor lança uma piscadela do público, ciente de sua astúcia, como se dissesse: “Está vendo o que eu fiz aqui?”. Já o espectador, colecionando indícios, pode se orgulhar da própria percepção, como se tivesse gabaritado o jogo dos sete erros.

Jim Jarmusch recebeu um dos prêmios mais importantes de sua carreira por uma iniciativa modesta, que talvez passasse despercebida dentro de uma filmografia muito mais pungente.

O longa-metragem se diverte em pedir que seu elenco estelar componha personagens-tipo, diferentes de suas personas públicas. Isso exige um trabalho ostensivo de figurinos e maquiagens, capaz de chamar atenção a si próprios e gerar o pretexto para a comicidade. Assim, parte do humor decorre da proximidade com a fantasia. Cate Blanchett encarna uma mulher tímida, intelectual, e que, portanto, veste cores neutras, usa óculos grandes e apresenta meias grossas por baixo do vestido. Em oposição, a irmã, interpretada por Vicky Krieps, possui cabelos cor de rosa, combinando com o casaco rosa e demais acessórios desta cor. Adam Driver encarna o ideal do sujeito engomado e “profissional”, enquanto Indya Moore e Luka Sabbat dão vida aos gêmeos descolados, em roupas e postura punk-rock.

Logo, o aspecto de crônica minimalista não necessariamente implica num realismo, ou na vontade de representar relações habituais. Jarmusch prefere a proximidade com a magia — um carro quebra e volta a funcionar, milagrosamente; os filhos descobrem pela primeira vez a cidade de origem dos pais; enquanto outras irmãs parecem surpresas ao escutarem os títulos dos livros escritos pela mãe famosa. A conclusão do primeiro segmento aponta a uma surpresa cômica, espécie de reviravolta que jamais se repete nos segmentos seguintes. Em contrapartida, este recurso também reforça a ideia de uma pequena traquinagem narrativa e de linguagem. A multiplicação de localidades (Nova Jersey, Dublin, Paris) serve sobretudo à possibilidade de aplicar semelhante grau de ludicidade a países distintos.

Entre cada episódio, o longa-metragem oferece uma vinheta de textura abstrata, granulada, repleta de flares, enquanto a trilha sonora aponta a um jazz vaporoso. Juntando-se às luzes naturais e cores neutras, cria-se certa atmosfera de inconsequência, desimportância — nem as interações, nem as cores e texturas, almejam qualquer forma de potência ou choque. O criador opta por uma doce melancolia, que deve despertar vários sorrisos no espectador, mas poucos risos de fato — muito menos qualquer motivo para se emocionar. Não há revelações, transformações, ou guinadas dignas deste nome ao longo das curtas tardes que parecem importar, a Jarmusch, precisamente por sua banalidade. Trata-se do anti-espetáculo por excelência. Assim que voltarem para suas casas, os personagens devem esquecer estes minúsculos parênteses do real.

Talvez o terceiro segmento se separe um pouco dos anteriores, neste sentido. Aqui, os pais estão mortos, e a visita dos gêmeos implica na chegada à casa esvaziada, pós-funeral. Trata-se do instante marcado por afetos mais genuínos, embora igualmente efêmeros. Posto que o imóvel já está vendido, a tendência a deixar o passado para trás se torna um elemento perene entre as três histórias. Ao menos, no caso de Skye e Billy, algo relativamente especial aparenta ocorrer aos dois, que fingem menos do que os personagens anteriores — uma vez que o pai e a mãe não estão presentes para cobrá-los. Jarmusch ridiculariza o mundo das aparências nas suas primeiras histórias, de vertente mais cômica e caricatural, entretanto, prefere encerrar o percurso em chave melancólica.

Para o diretor, a iniciativa consiste num retorno às experiências indie do começo da carreira, privilegiando o cotidiano, o desconforto de pessoas à mesa, os silêncios constrangedores. Após algumas incursões pelo cinema de gênero (Os Mortos Não Morrem, Amantes Eternos), ele retorna ao registro que lhe soa mais confortável, ainda que a galeria de astros de Hollywood não nos permita pensar, de fato, em um projeto “pequeno”. A coprodução entre cinco países (Estados Unidos, Itália, França, Irlanda e Alemanha) somente confirma a impressão de que Jarmusch brinca de modéstia e minimalismo a partir de um escopo de produção um tanto luxuoso.

Já a vitória no prestigioso Festival de Veneza constitui uma bênção e uma maldição. Por um lado, amplia consideravelmente a visibilidade da obra, garantindo a exibição em muitos países (inclusive no Brasil). Por outro lado, sugere uma obra potente, marcante, que está longe de corresponder ao objetivo do longa-metragem. Nunca se saberá as razões para a atribuição do Leão de Ouro a Pai Mãe Irmã Irmã — se as pessoas soubessem como são feitas as leis, as salsichas e as discussões de júris de festivais, ficariam horrorizadas. Mesmo assim, inesperadamente, o querido cineasta recebeu um dos prêmios mais importantes de sua carreira por uma iniciativa modesta, que talvez visasse somente colocá-lo em movimento, e permitir pequenas experimentações a partir de uma estrutura consagrada. Esta é uma obra que, caso não tivesse recebido tamanha distinção, talvez passasse despercebida dentro de uma filmografia muito mais pungente.

Pai Mãe Irmã Irmão (2025)
6
Nota 6/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.