Um grupo de guerrilheiros decide atacar a propriedade de uma poderosa fazendeira. Quando estão prontos para a ação, Hélène ainda tem dúvidas se estaria disposta a matar alguém em nome de seus ideais. Após uma primeira investida frustrada, ela se esconde na floresta, onde imagina a possibilidade de tentar de novo. O que ela faria diferente da segunda vez? Teria a coragem de pegar em armas e concretizar os planos? O que isso diria sobre o caráter e as convicções dela?
Este ponto de partida, que serviria a um eletrizante thriller policial, serve como ponto de partida para uma animação adulta. A Morte Não Existe, de Félix Dufour-Laperrière, transforma as dúvidas políticas e existenciais de suas protagonistas (a hesitante Hélène e a autoritária Manon) numa jornada surrealista, onde animais mortos podem voltar à vida, e a luta armada é questionada nos dias atuais. A bela animação foi exibida no Festival de Cannes, e premiada em Annecy — o maior festival de animação do mundo.
De passagem no Brasil, durante a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o cineasta conversou com o Meio Amargo sobre o filme:

A animação é surpreendente, com estes personagens semitransparentes, permitindo ver a pintura na tela ao fundo. Como chegou a este estilo?
Félix Dufour-Laperrière: Bom, quando o projeto foi apresentado, o roteiro já trazia duas ideias principais. Eu construí o filme na forma de uma sequência de cores. A paleta é limitada, propositadamente. E cada uma das sequências também tem uma paleta de cores restrita. O filme foi pensado assim: eu gostava da ideia de determinar algumas cores, e deixar que delas emergisse o relato dos personagens.
Mas o verdadeiro ponto de partida foi que, em certo momento, eu queria que os personagens se integrassem ao contexto. E, sobretudo, quando Hélène aponta a arma para a velha, queria que houvesse algo compartilhado graficamente, algo trágico, porque isso está atravessa a história na totalidade, de certa forma. Eu queria que isso fosse visível também na imagem.
O filme mantém uma relação entre abstração e figuração, entre o concreto e algo mais abstrato.
Por outro lado, é também a própria psique de Hélène que a narrativa explora. Era importante que, às vezes, os corpos parecessem emergir do cenário. Tenho a impressão de que o filme mantém uma relação entre abstração e figuração, entre o concreto e algo mais abstrato. Acho que o processo de caminhar em direção à abstração — quando você retira informações — revela algo mais profundo, algo que estava escondido.
A gente apaga muita coisa nos desenhos também — ou seja, tanto revela quanto apaga. Esse processo tem algo a ver com a radicalidade das convicções e dos gestos políticos. E também tinha um prazer estético, claro, porque trabalhamos com um uso de cores, ao mesmo tempo, limitado e muito livre. Fui eu mesmo quem fez a coloração de todos os planos, de um jeito quase pictórico — como um pintor diante de uma tela em branco, adicionando e retirando, observando o que o movimento revela e o que ele esconde. Foi muito trabalhoso, mas também muito prazeroso.

Além das cores, existe um trabalho marcante de luz e sombras. Você começa com a luz mudando rapidamente sobre as estátuas.
Félix Dufour-Laperrière: Eu queria revelar, com o movimento de luz — que é meio artificial, não realista — uma espécie de aceleração estranha do tempo. Queria também revelar o volume, porque, para mim, as estátuas no filme representam a autoridade. Elas são a rigidez diante da vida, a imobilidade diante do movimento incerto da existência, mas também o poder de decidir qual postura permanecerá visível e eterna. É justamente esse princípio que os jovens atacam, para reintroduzirem movimento, incerteza.
Existe o caso das imagens do sangue. Na primeira cena de ataque, quando Hélène ainda não participa, a narrativa suspende um pouco o naturalismo, não é totalmente real. Para mim, existem vários níveis de realidade coexistindo. E no final, quando vem o segundo ataque, e ela participa de fato, aí sim o sangue é real, vermelho, concreto.
A violência é marcante, mas eu quis evitar o espetáculo, sem negar o que há de concreto e perturbador.
Por que você decidiu não explicar as razões específicas que levam o grupo a combater aquela propriedade em particular?
Félix Dufour-Laperrière: Bom, trata-se de um conto. E para que a mecânica do conto funcione, era preciso certa generalidade. Poderia ter sido interessante detalhar o contexto, trabalhar algo mais concreto, mas eu quis deixar espaço para o simbólico, para o fantástico. Foi uma escolha — manter um contexto mais arquetípico, mais geral, com tensões universais. E também há uma razão prática: o cinema de animação custa caro. Era impensável acrescentar 40 minutos ao filme, porque seria o dobro do orçamento.
Gosto muito deste encontro entre animação e violência. Mesmo que a linguagem nos afaste da realidade, há uma concretude nos corpos, no sangue, nos animais.
Félix Dufour-Laperrière: Para mim, este é um projeto trágico, mas não gore. A violência é marcante, claro, mas eu quis evitar o espetáculo, sem negar o que há de concreto e perturbador. Não era para ser agradável de assistir. E a corporalidade dos animais traz algo muito físico ao filme. A animação permite isso — e também o retorno à vida. Esse é o poder que Hélène e Manon descobrem: a materialização da esperança mais profunda delas, esse poder de fazer a vida triunfar.

Por que você escolheu ficar ao lado da personagem repleta de dúvidas em relação ao ataque?
Félix Dufour-Laperrière: Acho que todos os personagens são contraditórios e paradoxais. Tentei distribuir um pouco da verdade do filme em cada um deles. Além disso, quis ser honesto: eu também tenho muita raiva do estado do mundo, mas sou pai de duas crianças, amo a vida, e quero que elas vivam num mundo decente. Dou muito valor ao cuidado e às relações, mas sei que o cuidado é inútil sem uma forma de força coletiva.
Então, eu me identifico com Hélène — com todas as suas contradições e incertezas. Já Manon tem um caráter decidido, e assume a parte de crueldade que é necessária. É preciso cruzar limites, aceitar o sacrifício, e também a violência. Manon tem essa força instintiva, quase carnívora.
Teria sido hipócrita da minha parte defender a ação direta, e depois voltar para casa e fazer o jantar dos meus filhos. Eu assumo essas contradições das personagens, porque são também as minhas.
Teria sido hipócrita da minha parte defender a ação direta, e depois voltar para casa e fazer o jantar dos meus filhos. Eu assumo essas contradições das personagens, porque são também as minhas.
Como você trabalhou com suas atrizes? Apesar do contexto surrealistas, as vozes se expressam de maneira bem natural.
Félix Dufour-Laperrière: Sim, é uma língua falada, mas precisa — o francês do Quebec. Tivemos a sorte de poder trabalhar detalhadamente os diálogos: gravamos uma primeira versão no início da produção e depois regravamos mais tarde, para ajustar as entonações. Como o som não está condicionado à imagem, e há uma certa artificialidade labial na animação, pudemos montar sílaba por sílaba. Isso nos deu um controle muito fino. Escolhi vozes que se pareciam com os personagens, com o temperamento certo. A atriz que faz Manon, por exemplo, tem esse temperamento bem forte na realidade.
O texto é bastante complexo. Me deu a impressão de um roteiro trabalhado durante muito tempo.
Félix Dufour-Laperrière: Sim, o filme levou muito tempo para ser escrito e financiado. Por isso, fiz outros projetos entre uma versão e outra de A Morte Não Existe. Carreguei esse roteiro comigo por uns dez anos, e nesse tempo minha vida mudou: tive filhos, envelheci. Tentei manter a honestidade no processo, e não adotar posturas que eu mesmo não pudesse defender.

Como vê o espaço no mercado para a exibição de animações adultas, como a sua?
Félix Dufour-Laperrière: É difícil. O público quase não existe. Às vezes há mal-entendidos: algumas pessoas entram na sessão esperando um desenho animado rápido e dinâmico, mas encontram algo reflexivo, existencial. Felizmente, o fato de o filme ter sido selecionado em Cannes abriu portas. Quebramos várias barreiras: é raro assistir a animação adulta e, mais ainda, animação adulta com escolhas formais radicais. Muita gente que nunca vê filmes de animação acabou vendo o nosso — e isso é ótimo.
Algumas pessoas entram na sessão esperando um desenho animado rápido e dinâmico, mas encontram algo reflexivo, existencial.
O Canadá e a França possuem ampla tradição no cinema de animação. Como funcionam os processos de financiamento para estes projetos?
Félix Dufour-Laperrière: No Quebec, temos um sistema sólido, embora continue difícil. Mesmo assim, poucas pessoas fazem animação adulta, então ainda é possível conseguir os recursos. A França também apoia bastante o setor, mas a economia do cinema está sofrendo cortes em todas as partes do mundo.
Acho que estamos atravessando uma crise, numa fase de transição. O cinema foi a arte do século XX, mas talvez não seja a do XXI. Mesmo assim, ainda é uma forma essencial — sobretudo num mundo saturado de imagens, é fundamental preservar quem trabalha a profundidade e a consistência delas.



