Desde 1999, a venezuelana Mariana Rondón retrata a realidade de seu país em filmes premiados, como Pelo Malo e Zafari. Em resposta à turbulência política dos últimos dez anos, ela apresenta na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo o seu filme mais brutal, codirigido com Marité Ugás: Ainda É Noite em Caracas, adaptado do romance Noite em Caracas, de Karina Sainz Borgo.
As cineastas acompanham a história de Adelaida (Natalia Reyes), mulher que acaba de perder a mãe. Ela mal tem tempo de efetuar o luto, já que as ruas são tomadas por protestos, despertando respostas violentas do Estado. Um dia, Adelaida descobre que seu apartamento foi ocupado por guerrilheiras. Como solução, muda-se em segredo para o apartamento da vizinha espanhola, e descobre que a identidade desta mulher falecida pode lhe servir para fugir do país em guerra.
De passagem por São Paulo, Mariana Rondón conversou com o Meio Amargo sobre o filme:

Como você decidiu adaptar o livro Noite em Caracas para o cinema?
Mariana Rondón: Em 2018, quando o livro foi publicado, a Marité e eu o lemos com muita ansiedade, assim como a maioria dos venezuelanos, porque era a primeira coisa publicada sobre o que estávamos vivendo na Venezuela. Não tínhamos referências. Eu já não morava mais no país, então foi como descobrir que outras pessoas estavam passando pelas mesmas coisas, ou por algo parecido. Mas, naquela época, não havia nenhuma possibilidade de filmar, nem esse, nem qualquer outro projeto, porque estávamos exiladas em outro país.
Durante a pandemia, o ator Édgar Ramírez me escreveu e disse: “Mariana, acho que deveríamos adaptar esse romance. Vocês topam?” Eu disse: “Sim, vamos adaptá-lo.” No começo, não havíamos falado em dirigir — a ideia era somente escrever o roteiro. Mas, quando ele e alguns produtores mexicanos leram o roteiro, disseram: “Por que vocês não dirigem?” E, claro, foi um presente da vida poder dirigir o filme.
O contexto é baseado em coisas que vivemos, que qualquer venezuelano conhece muito bem. Então, foi uma tentativa de respeitar não só a nossa visão, mas também a memória coletiva do país.
Este filme é muito mais brutal do que Pelo Malo ou Zafari. Como escolheu a maneira de mostrar a violência nas ruas?
Mariana Rondón: Bom, eu tinha acabado de fazer Zafari, que aborda os mesmos temas, mas a partir de um lugar muito mais pessoal, mais parecido comigo. Adaptar Noite em Caracas representava o desafio de falar para muito mais gente. Não mais apenas da nossa subjetividade particular, mas de experiências compartilhadas por todos os venezuelanos. Embora a trama seja fictícia, todo o contexto que construímos é baseado em coisas que conhecemos, que vivemos, que qualquer venezuelano conhece muito bem. Então, foi uma tentativa de respeitar não só a nossa visão, mas também a memória coletiva do país.
Por isso, combinamos a ficção com imagens de arquivo muito poderosas, muito contundentes. Queríamos que esse contexto fosse o mais próximo possível da realidade — se é que um filme pode se aproximar da verdade. Eu sempre duvido disso, mas, neste caso, creio que sim: queríamos estar próximas das imagens que vimos e sofremos nas ruas.
O importante é que unimos muitas vontades. Pela primeira vez, não produzimos a partir da nossa empresa, a Sudaca Films, mas com outros produtores que nos convidaram e tinham mais possibilidades de levantar orçamento. Todo mundo deixou o ego e as vaidades de lado para trabalhar junto e mostrar tudo isso da forma mais urgente possível. Acho que era um filme necessário, porque a realidade venezuelana muda muito rápido. E não podemos pular para o que vem depois sem antes esclarecer o que aconteceu em 2014, em 2017, em 2019.

Como a situação em Caracas, atualmente, se compara com os eventos vistos no filme?
Mariana Rondón: No ano passado, após uma fraude eleitoral evidente — não há dúvida para ninguém, embora alguns não queiram admitir —, eu fui votar. Há 8 milhões de venezuelanos no exterior, e não nos deixam votar. Mesmo assim, eu fui, votei e segui todas as instruções que tínhamos: registrar o voto, gravar um vídeo, guardar a ata e comparar com os resultados publicados pela oposição, já que o governo nunca os publicou.
Depois de confirmada a grande fraude, o povo protestou — principalmente o setor mais popular, que saiu às ruas em 30 de julho —, e a repressão duplicou, ou triplicou, em relação aos anos anteriores, que já tinham sido duríssimos, especialmente 2017 e 2019. No ano passado, foi ainda pior. E agora, de novo, está muito intensa.
As reações têm sido muito fortes, dolorosas, perturbadoras. Precisamos dessas emoções, precisamos dos filmes.
Como os venezuelanos reagiram ao filme?
Mariana Rondón: Poucas pessoas o viram, por enquanto. Exibimos nos festivais de Veneza, Toronto e Biarritz. Mas em cada sessão encontramos venezuelanos, porque hoje estamos em todos os lugares. E as reações têm sido muito fortes, dolorosas, perturbadoras. Com outros filmes, eu costumo encontrar reações mais reflexivas; mas neste caso, elas têm sido mais emocionais. Mesmo assim, acho que são válidas, e necessárias. Precisamos dessas emoções, precisamos dos filmes.
Tenho família que emigrou para o Brasil. Eles viram o filme ontem e ficaram muito abalados. Disseram: “Estamos aqui há dez anos e não acreditamos que deixamos tudo isso para trás. Mas, assim que o filme começou, revivemos tudo”. Acho que o filme também é uma dívida com todos os venezuelanos que viveram momentos tão duros.
O filme nunca nos convida a sentir pena de Adelaida. Ela é ativa, sempre em busca de soluções. Como trabalhou isso com Natalia Reyes?
Mariana Rondón: É o mesmo trabalho que sempre fazemos com os atores. Tivemos quase dois meses de ensaio com todo o elenco, construindo as situações. Mas também quisemos que Adelaida fosse alguém que, em certos momentos, tem uma fragilidade ética — porque as circunstâncias te colocam contra a parede e talvez você não aja da maneira mais correta, mas sim pela sobrevivência. Trabalhamos muito com a atriz para resolver tudo de forma física e emocional, com conflitos ético-políticos o tempo todo.
Ela assume o nome e o dinheiro de outra pessoa — ela está, afinal, roubando uma identidade. É um dilema ético, mas também de sobrevivência. O que você faria? E também nos perguntamos: deixar de ser quem você é para sobreviver significa realmente se salvar? Eu não sei. Vejo os imigrantes sofrendo e penso: “Certo, eles sobreviveram. Mas estão a salvo?”.

No filme, parte considerável da repressão é comandada por mulheres. Por que quis mostrar este grupo?
Mariana Rondón: Porque a Venezuela é muito matriarcal. Embora os líderes do regime tenham enganado tanta gente, que acreditou com devoção na promessa de mudança, foram as mulheres as executoras desse conto não cumprido. Queríamos mostrar todas as mulheres da história vivendo esse drama, e suas contradições — as mães enfrentando uma grande farsa política.
No fim, todas estão no mesmo lugar: enganadas, decepcionadas. Mesmo tendo agido da pior forma, não havia realmente uma opção. Era um “direito à vingança”, não à reconstrução de um novo espaço.
O objetivo era contar a história inteira a partir de um interior, ou seja, contar uma guerra, um Estado falido, de dentro de um apartamento.
O apartamento da vizinha se torna um personagem por si só. Como criaram esse espaço?
Mariana Rondón: Foi um trabalho muito pensado, em equipe. Não encontramos um espaço real que servisse completamente, então construímos parte do cenário para criar aquele labirinto. O objetivo era contar a história inteira a partir de um interior, ou seja, contar uma guerra, um Estado falido, de dentro de um apartamento.
Recentemente, alguém que assistiu a Zafari e Ainda É Noite em Caracas brincou: “Vocês vão continuar filmando prédios? Quantos apartamentos faltam?”. De fato, quando surgiu o romance Noite em Caracas, estávamos terminando o roteiro de Zafari. São universos parecidos — a Venezuela contada a partir de um esconderijo, olhando o que acontece do lado de fora. A maioria dos filmes venezuelanos hoje é assim: ou feitos no exílio, ou contados de um interior, onde se pode se esconder do que está lá fora.

Também vejo o filme como uma história sobre a impossibilidade do luto.
Mariana Rondón: Sim, totalmente. Pela morte da mãe, da vizinha, do fotógrafo, do rapaz na rua. Adelaida nunca tem tempo para viver o luto; ela precisa seguir em movimento o tempo todo. Isso é muito venezuelano: todo mundo precisa resolver tanta coisa que não há tempo para assimilar um golpe atrás do outro. O ritmo do filme reflete isso: não há pausa, não há trégua para pensar. Você toma decisões sem saber se são as certas, porque é uma questão de sobrevivência. O luto é pela mãe, pelo amante, pelo amigo — mas também pelo país. É um filme sobre a perda, a perda total.
Também falamos de um exílio, de uma diáspora que chega à Europa, assim como outras, vindas da África. Nós fazemos a mesma rota, afinal, também viemos dessa África. A Venezuela recebeu imigrantes do mundo inteiro, mas nunca esteve acostumada a emigrar. Então, agora estamos contando essa perda: de nós mesmos, do outro, do amor. Eu não gosto de falar em “perda da pátria”, porque soa retórico e populista — mas, sem retórica, é sobre isso também: a perda das lembranças, de tudo que ficou para trás.
A maioria de nós saiu do país com 23 kg numa mala — e em 23 kg, não cabe quase nada. Às vezes, volto à minha casa em Caracas e penso em pegar algo que deixei lá. Quando chego e vejo tudo, digo: “Não quero uma coisa, quero todas”. Adelaida passa pelo mesmo dilema quando volta ao seu apartamento: não sabe o que escolher, o que levar. Ela pega somente o passaporte, que já nem serve mais.
A Mostra sempre esteve aqui, recebendo todos [os meus filmes]. O cinema segue, não muda. A Mostra de São Paulo e eu seguimos juntos.
Muito obrigado. Tenho gostado muito de acompanhar os seus trabalhos, desde Pelo Malo.
Mariana Rondón: Obrigado a você. Sabe, na primeira vez que vim à Mostra de São Paulo, trouxe A la Medianoche y Media (1999), meu primeiro filme, e depois, Postales de Leningrado (2007). Um dia, numa festa, Leon Cakoff me puxou num canto e perguntou: “O que está acontecendo na Venezuela?”. Postales de Leningrado foi a minha despedida pessoal da família e da esquerda venezuelana, para poder começar a contar esses outros filmes — Pelo Malo, Zafari e Ainda É Noite em Caracas. Mas a Mostra sempre esteve aqui, recebendo todos eles. O cinema segue, não muda. A Mostra de São Paulo e eu seguimos juntos.



