Eu Não Sei se Vou Ter que Falar Tudo de Novo (2024)

"Lembrar?"

título original (ano)
Eu Não Sei se Vou Ter que Falar Tudo de Novo (2025)
país
Brasil
gênero
Drama
duração
14 minutos
direção
Vitória Fallavena, Thassilo Weber
elenco
Raphael Viana, Ângela Rebello, Matheus Dias
visto em
24º Curta-SE (2025)

Um filho adulto e sua mãe idosa conversam num café. “O de sempre, por favor”, eles pedem ao garçom, indicando que os encontros ocorrem com frequência, no mesmo estabelecimento. O curta-metragem apresenta seus dois temas centrais de imediato, ainda que de maneira (felizmente) pouco explicativa. Para abordar a homossexualidade, Fernando (Raphael Viana) é visto, nos primeiros segundos, beijando seu noivo. Para evocar o Alzheimer, Ana (Ângela Rebello) logo mostra-se confusa e esquecida, em suas primeiras aparições. Os criadores têm pressa para chegar ao cruzamento destas questões.

Percebe-se, então, que o rapaz precisa se declarar gay repetidas vezes à mãe conservadora, avessa à ideia do casamento entre dois homens. Ambos sofrem com esta interação: ele, por se sentir rejeitado em múltiplas ocasiões, e ela, por lidar com esta velha-nova contrariedade. Talvez a confissão pudesse trazer certo alívio a Fernando, pela possibilidade de diluir o peso do momento-chave nas sucessivas tentativas. No entanto, para ele, o dilema se converte em algo ainda mais pesaroso. O título diz respeito a um diálogo do homem, decepcionado em perceber o esquecimento de uma fala tão importante para ele.

Os atores apresentam prestações distintas: ele opta por um registro internalizado, de voz pouco projetada — tão delicada quanto minimalista. Já ela exterioriza a desordem mental nos gestos com as mãos, no olhar fugidio, nas tentativas de se recompor, no curso ao caderno de memórias que carrega consigo. O corpo se move e agita com frequência, algo reforçado pela insistência nos close-ups. A presença da palavra “Lembrar?”, escrita no verso de uma fotografia, talvez busque certo lirismo, embora somente reforce aquilo que o filme vinha trabalhando com maior sutileza até então. Pode soar graciosa à primeira vista, porém, aparenta inverossímil naquele contexto.

Apesar de trabalhar com dois temas chamativos, e tratados como conflitos em si próprios, o elemento que mais chama a atenção em Eu Não Sei se Vou Ter que Falar Tudo de Novo diz respeito ao uso da janela em scope, ou seja, o formato mais retangular da imagem. Trata-se de uma escolha atípica para um curta-metragem focado numa simples conversa, com os protagonistas sentados, interagindo em plano e contraplano. O formato sugere um uso específico dos espaços, ou a importância de algo que ocorreria ao redor deles (os demais clientes do café, ou pessoas que entram e saem do quadro), apesar de nada disso acontecer de fato.

Quando a câmera desliza rumo ao caderninho de Ana, retornando ao rosto da mulher no mesmo plano, percebe-se como o movimento deste estreito retângulo destoa do intimismo buscado pelos cineastas Vitória Fallavena e Thassilo Weber. O filme parece almejar a uma grandiosidade estética que nunca encontra equivalência no tratamento de sutilezas e subentendidos. Ao menos, os autores demonstram um olhar sem julgamentos, retirando o moralismo de cena — aqui, interessam unicamente a aceitação do filho pela mãe, e de mais ninguém ao redor. Assim, neste embate constante entre o privado (a confissão) e o público (o espaço do bar), entre o definitivo (a sexualidade, a escolha pelo casamento) e o efêmero (a necessidade de confessar-se mais uma vez), o filme tateia seu caminho, obtendo mais êxito no roteiro do que na direção. 

Eu Não Sei se Vou Ter que Falar Tudo de Novo (2024)
6
Nota 6/10

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