Kaira e o Temporal (2025)

A menina no espaço-tempo

título original (ano)
Kaira e o Temporal (2025)
país
Brasil
linguagem
Animação, Infantil, Ficção Científica, Fantasia
duração
20 minutos
direção
Wagner Nogueira Mendes
elenco
Maria Sofia, David Santos, Di Ferreira
visto em
12ª Mostra de Gostoso (2025)

Faz de conta que estamos num futuro bem distante — o ano de 2222, por que não? O mundo é regido por uma “máquina que nos controla desde o nascimento”. As pessoas têm a capacidade de viajar no tempo, embora a principal arma do governo inimigo seja o poder do esquecimento. Sem se lembrar do que lhes ocorre, os adultos são incapazes de resistir. Cabe a uma garotinha (Maria Sofia), curiosamente imune à amnésia programada, contar histórias e alertar a população a respeito de sua opressão. Nasce uma revolucionária.

Esta fábula iluminista brinca, portanto, de criar o problema para vender a solução. Imagina um adversário poderoso, somente para empoderar a garota responsável por salvar aos pais e ao resto da nação. Nada mau como horizonte simbólico: em oposição a tantas crianças-heroínas dotadas de raios-lasers e poderes bélicos, esta super-heroína é capaz de se lembrar. Ela assimila a arte e se comunica em rimas. “Eu só sei contar histórias!”, ela argumenta ao pai. “É só disso que a gente precisa”, responde o homem (David Santos). O maniqueísmo, desta vez, é utilizado enquanto medida de reparação simbólica.

O diretor Wagner Nogueira Mendes possui o desafio de construir um mundo em colapso a partir de orçamento limitado, na duração sucinta de um curta-metragem. Em consequência, efetua algumas escolhas inteligentes: primeiro, assume o aspecto caseiro da produção, enquanto linguagem. A tenda onde Kaira se esconde possui a aparência de algo que a própria criança poderia ter feito, a partir de objetos domésticos comuns (o que soa como convite para outras crianças imaginarem cenários semelhantes). Parte considerável do humor e da ternura decorre de uma direção de arte que nunca tenta se passar por uma fantasia ostensiva, pelo contrário. O filme brinca tanto quanto a garota.

Segundo, os criadores restringem a ação à tenda, sugerindo o caos através de diálogos. Nesta forma de representação pela ausência, os objetos e conversas precisam ilustrar um perigo que nunca se materializa, de fato, nas imagens e sons. Quando precisa sair do local, seja por escolha criativa ou orçamento limitado (ou ambos), a menina se vê convertida numa bela animação, que lhe permite viajar ao passado. As cores, texturas e volumes do segmento animado dialogam muito bem com este aspecto faça-você-mesmo do live action. O mundo infantil proporciona oportunidades ilimitadas de invenção.

Certo, é possível que algumas descrições do início, a respeito da máquina e da Cronos, soem apressadas demais, e algumas idas e vindas do pai também mereceriam algum espaço para contemplação. O filme tem pressa, e provavelmente precisaria de mais tempo para acomodar tantas vontades e deslocamentos. Mesmo assim, promove um interessante recurso à diversão analógica, dispensando celulares e virtualidades, em oposição ao mundo mais diretamente tecnológico dos opositores. Kaira e o Temporal ainda nos reserva uma comovente cena na qual a menina precisa educar o pai amnésico, compartilhando com ele a história que o próprio adulto havia lhe contado. O conceito de transmissão de conhecimento enquanto verdadeira arma constitui uma preciosa ideia deste projeto.

Kaira e o Temporal (2025)
8
Nota 8/10

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