
A história se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda, como farsa. A primeira vez seria O Corte (2005), de Costa-Gavras. Havia humor na obra belga-francesa-espanhola, mas, sobretudo, forte tom de suspense na leitura do pai de família desempregado, e revoltado contra a empresa de papel que o desliga sem qualquer consideração por seus anos de dedicação ao cargo. O ex-funcionário resolve, então, deslocar sua ira aos concorrentes do ingrato mercado papeleiro, assassinando os adversários mais qualificados da área. Se esta era a única escolha para Bruno, seria igualmente a única escolha para os dirigentes contratar o homem restante.
A transformação da dor masculina e da lógica empresarial num xadrez mortal proporcionava um aspecto mordaz na interpretação de 2005, a partir do romance de Donald E. Westlake. Havia uma condução direta, implacável, dos planos absurdos do protagonista que, ao invés de se revoltar contra o jogo, atacava sujeitos em precariedade semelhante à sua. Passados vinte anos, o diretor Park Chan-wook resgata a premissa com um tom bastante distinto. Agora, para além do humor do improvável e do exagero de medidas, existe uma comicidade física, uma ridicularização das pessoas envolvidas, um desdém generalizado pela situação.
Qual o verdadeiro alvo da paródia? Vale debochar tanto dos trabalhadores quanto dos patrões, tanto do psicopata quanto de suas vítimas? Não há senso de prioridades para Park Chan-wook.
Costa-Gavras ria da seriedade implacável do assassino improvisado. Já o sul-coreano ri da falta de seriedade de seus homens atrapalhados, patéticos, incapazes de performar as tarefas mais simples. Aqui, são sujeitos que tropeçam e caem, que não sabem como atirar, nem onde enterrar um corpo e, muito menos, como despejá-lo sem chamar a atenção das autoridades. Logo, O Corte ria do ideal de um homem superpotente, ao limite do grotesco (na linha de Psicopata Americano). A Única Saída, pelo contrário, ri do homem impotente, em vários aspectos: a incapacidade de satisfazer a esposa e de agradar aos filhos vai de encontro com a fragilidade do desemprego e o total embaraço na tentativa de se converter em herói da própria causa.
Chan-wook adapta a premissa em sua maneira peculiar, ou seja, embutindo uma infinidade de subtramas, acontecimentos improváveis em paralelo, e reviravoltas com cada personagem coadjuvante, a ponto de atrapalhar os rumos narrativos. O retorno trágico do anti-herói contra seu próprio destino (a obsessão do criador desde Oldboy, pelo menos) tem resultado em filmes menos brutais, menos asquerosos ou violentos, porém, dispostos a brincar com a ironia de aventureiros cavando sua própria cova. Decisão de Partir já demonstrava certa indefinição de tons, além de um emaranhado de conflitos que pareciam atenuar o drama central. Agora, a comédia escrachada de 2025 aprofunda tal sentimento.
A escolha pelo assassinato dos concorrentes praticamente se perde entre os demais quiproquós que a montagem luta para equilibrar, tal qual um garçom com uma infinidade de pratos para sustentar em dois braços. Man-su (Lee Byung-hun) tem uma dor de dente implacável. Ele precisa se apresentar num concurso de dança com a esposa Miri (Son Ye-jin), enquanto desconfia de um caso dela com o chefe. Inquieta-se pelo comportamento da filha, assim como pelas brigas do afilhado na escola. Precisa pensar no retorno dos dois cachorros, afastados da casa. É picado por uma cobra, provavelmente venenosa. Inventa uma arma falsa para substituir um revólver verdadeiro. Testemunha uma traição, busca esconderijo para celulares roubados, pergunta-se sobre a melhor maneira de ocultar cadáveres no quintal de casa. Há ações e atividades em excesso, minimizando a importância do dilema central.
O diretor garante que o grão de loucura que motiva Man-su se expanda em todo o seu convívio. Em oposição às comédias que inserem pessoas sãs num mundo insano, ou pessoas insanas num mundo são, agora temos um sujeito descontrolado em meio a indivíduos igualmente descontrolados. Assim, os demais tipos cruzados pelo caminho serão igualmente transtornados, o que vale para suas esposas, para o comprador da casa, para os outros homens desempregados. Quando se ri de tudo, cabe perguntar do que, afinal, estamos rindo — em outras palavras, qual o verdadeiro alvo da paródia. Vale debochar tanto dos trabalhadores quanto dos patrões, tanto do psicopata quanto de suas vítimas? Não há senso de prioridades, ou ainda um alvo para o sul-coreano. O tabuleiro inteiro é digno de um menosprezo generalizado. Atira-se para todos os lados — quase literalmente.
O longa-metragem ainda demonstra esse prazer do cineasta em compor planos que, por si próprios, representem a insanidade deste universo. O contra-plongée revelando o ex-funcionário com um vaso de plantas no topo do edifício, prestes a matar um concorrente (imagem em destaque acima), desperta risadas pela raridade deste ponto de vista oferecido somente ao público. Algo semelhante ocorre com a entrevista de emprego, quando a luz refletida num prédio cega o candidato nervoso (enquanto oculta o rosto do possível chefe). Estas soluções se provam tão interessantes e engraçadas que talvez dispensassem o reforço tão forte na comicidade das atuações, dos corpos e dos diálogos, que terminam por insistir no óbvio.
Assim, os belos instantes de humor da mise en scène se contrastam com outros, típicos da comédia pastelão, a exemplo do marido rolando no chão de chorar após testemunhar a infidelidade da esposa. É irônico que, após tamanha ironia, Chan-wook termine sua saga com implacável seriedade, lembrando-nos da precariedade do mundo do trabalho, dos rumos automatizados das empresas, e da solidão do funcionário contratado por uma instituição desumanizada. Nem a direção acredita que a zombaria se sustente até o final, precisando inclusive recordar que a indústria de papel destrói florestas. O cineasta deseja entreter, porém, no final, insiste em ser levado a sério em sua mensagem.


Talvez, nesta oscilação, se perca um pouco da força de A Única Saída. Ainda se trata de uma produção sólida, certamente inventiva nas imagens, e sem medo dos excessos ou delírios. É possível que as críticas ao filme também decorram das altas expectativas que o autor cria para si, após trabalhos muito melhores, como Oldboy (2003), Lady Vingança (2005), Sede de Sangue (2009) e Segredos de Sangue (2013). Caso viesse de um cineasta iniciante, esta proposta pudesse ser aclamada pelo potencial revelado.
Aqui, aponta para um diretor em busca de novos registros, porém hesitando quanto ao alvo de sua paródia. Chan-wook não se coloca ao lado dos trabalhadores contra os patrões, ou ao lado dos fracos contra o sistema: ele ridiculariza a todos da mesma maneira, algo que talvez se mostre menos humanista do que politizado, e fácil até demais como chacota. Depois de seu longa-metragem anterior, o igualmente mediano Decisão de Partir, o cineasta ingressa numa fase distinta de sua carreira. Este parece ser um instante de transição — ainda não se sabe se para algo melhor, pior, ou somente diferente.



