
Em Nuremberg, o julgamento contra os principais líderes nazistas recebe um tratamento hollywoodiano. Isso implica no emprego de ferramentas de linguagens muito específicas, visando certa solenidade e respeitabilidade no audiovisual industrial. É curioso encontrar esta estética em pleno 2026, quando os códigos do grande filme de guerra foram escanteados na preferência do público, além das premiações e da percepção da crítica especializada. Caso tivesse sido realizada 20 anos atrás, esta mesma obra provavelmente seria um grande sucesso, recompensada com vários troféus do Oscar. Hoje, soa descolada dos nossos tempos.
Isso porque, ao invés de apenas reconstruir o tribunal e relembrar os fatos levando à condenação de 22 nazistas, o longa-metragem se dedica a homenagear heróis, face a bandidos execráveis. Ele nos indica quem amar e quem detestar; operando na chave do maniqueísmo evidente. Permite poucas ambiguidades, sugestões, subentendidos, tanto no discurso quanto na construção imagética. Aqui, os norte-americanos destemidos trabalham dia a noite, honram a família e dedicam-se à utópica busca pela paz mundial. Já os representantes do Reich são furiosos, manipuladores, perversos, insensíveis. Nas mãos do diretor James Vanderbilt, esta se torna a batalha do bem contra o mal.
Nuremberg hesita entre os contornos de uma obra pacifista, avessa a qualquer forma de agressão a outros países, e uma defesa da superioridade moral dos Estados Unidos.
No caso, o herói é um psiquiatra — escolha surpreendente, dado que os juristas teriam sido condutores mais óbvios para este processo. Douglas Kelley (Rami Malek) é convocado a traçar um perfil psicológico dos homens detidos. Entra em cena a idealização típica dos estúdios norte-americanos: apesar de recusar esta tarefa a princípio (transparecendo o valor da modéstia), ele logo se encanta com a possibilidade de estar perto desses homens perigosos (o valor da persistência). Começa a pesquisar incessantemente os detentos, revelando segredos impensáveis de cada um (“Ele fala inglês!”). Em paralelo, tem epifanias que o levam a acordar superiores e colaboradores no meio da madrugada, porque teve a brilhante ideia de frequentar a uma biblioteca, e não pode esperar.
Logo, o sujeito é destemido, bom, talentoso. Torna-se amigo da esposa e filha do nazista Hermann Göring (Russell Crowe) na ausência deste pai de família; ajuda os promotores norte-americanos com informações sigilosas; permanece dedicado ao processo, mesmo quando afastado oficialmente. Ele não desempenha esta incumbência em busca de glória ou dinheiro, e sim porque está fazendo a coisa certa, sendo inclusive mais sensível e humano que as figuras ao redor. Afinal, o psiquiatra constitui o único participante da audiência a não suportar os vídeos atrozes de cadáveres empilhados em campos de concentração. Kelley sai correndo da exibição e, na cena seguinte, perde o controle contra seu paciente, porque a paixão leva a dianteira sobre a razão. Ele comete seu único erro diante de uma bela mulher (o valor da masculinidade), algo que, aos olhos do roteiro, significa um homem ainda mais digno de admiração.
Os melhores aspectos de Nuremberg decorrem dos duelos de poder entre Kelley e Göring. Quando os dois homens estão fechados numa cela, eles se testam, fornecem informações a conta-gotas, e avaliam minuciosamente as reações alheias. O cineasta os considera inteligentíssimos — dois exímios enxadristas em ação. De fato, a dupla possui ótimos diálogos, seja na discussão moral e ética da guerra, seja na percepção do que seria o mal. Eles se convertem em amigos temporários, interessados um no outro pela inteligência percebida no interlocutor. Apesar de se situarem em campos ideológicos opostos, respeitam a oratória, a retórica e a astúcia alheias. Vanderbilt reconhece que o segundo maior oficial nazista após Hitler só poderia se sustentar no poder caso dotado de uma sedução ímpar.
Russell Crowe encarna este papel de maneira muito eficaz. Ele parecia uma escolha deslocada no elenco — o bonachão australiano vivendo um comandante alemão, munido de diversas falas nesta língua. Entretanto, o ator trabalha melhor o olhar e as nuances das falas provocadoras do que Rami Malek e Michael Shannon (que interpreta Robert H. Jackson), presos às idealizações mencionadas acima. Conhecidos pela dicção comprometida, os dois produzem conversas quase cômicas devido à quantidade de palavras balbuciadas, pronunciadas pela metade, ou pouco projetadas devido à sugestão de timidez ou profundo dilema íntimo.
Enquanto eles se perdem no imaginário do herói incorruptível, Crowe se delicia com o único personagem realmente multifacetado neste percurso. Já as mulheres se reduzem a figuras reacionárias: seja a esposa preocupada com o retorno de seu amado o lar (caso da personagem interpretada por Lotte Verbeek); seja a víbora manipuladora (Lydia Peckham), que seduz pobres homens de bem visando algum motivo espúrio com este encontro. Este não é um terreno de naturalismo e verossimilhança, mas de exemplaridade. Por isso, não surpreende a explanação da mensagem final — o reforço de que estes perigos podem retornar caso não seja devidamente punidos. Aborda-se o tribunal de 1945 para refletir os crimes de guerra cometidos atualmente.
Isso traz o enfoque ao paralelismo com os ataques cometidos por Estados Unidos e Israel em 2025. Nuremberg hesita entre os contornos de uma obra pacifista, avessa a qualquer forma de agressão a outros países, e uma defesa da superioridade moral dos Estados Unidos (vide a narração de Kelley em defesa dos atos de Pearl Harbour). Para os produtores, esta história chega ao cinema por meritocracia — trata-se de um episódio no qual o bem vence o mal, a inteligência ianque supera a maldade europeia, e os Estados Unidos criam a jurisprudência que os permite julgar o resto do mundo. Em outras palavras, um longa-metragem patriótico, nos moldes de O Resgate do Soldado Ryan e A Lista de Schindler. Busca, em contrapartida, navegar entre uma aura de pacifismo e o direito à autodefesa que legitimaria as atitudes contemporâneas de EUA-Israel no Oriente Médio.


Para o espectador, resta uma obra de filmagem burocrática, minimamente funcional em termos de fotografia e som. O projeto ainda recorre a estranhas piadas de montagem. O editor Tom Eagles estima ser uma ótima ideia colar o diálogo “Espero que não encontrem problema” à cena em que outro personagem diz “Temos um problema”; e associar “Nunca vamos conseguir a Rússia” à fala “Conseguimos a Rússia!”. O protagonista joga um cigarro no chão, e corta-se para a poça d’água que, simbolicamente, apagaria a bituca. Trata-se de pequenas rimas visuais lúdicas, tão fortuitas quanto a escolha de um flashback coloridíssimo e granulado; ou de uma vista aérea onde Nuremberg perde suas cores, até beirar o preto e branco. Vanderbilt nunca sabe ao certo onde embutir alguma criatividade.
Por fim, o resultado oscila entre o bom ritmo — as 2h30 de duração passam com facilidade, sem sobressaltos — e alguns recursos tragicômicos do cinema da imponência. Por exemplo, no final, o psiquiatra revoltado joga seu copo de uísque no chão, em câmera lenta, ao som de orquestra. Já o tradutor Howie Triest (Leo Woodall) revela a verdade sobre sua família num segmento de descarada manipulação emocional. Resta uma iniciativa admirável em determinados aspectos, porém, incômoda em tantos outros. Em sua heterogeneidade, diz muito mais sobre o cinema do que sobre as guerras ou a geopolítica mundial. Nuremberg se traduz no esforço de resgate e manutenção de uma forma de audiovisual que dificilmente se sustenta na contemporaneidade. Sua limitada repercussão (comercial e nas premiações) se prova tão sintomática quanto os julgamentos reconstituídos pela narrativa.




