
Flavia (Elsa María Gutiérrez) é uma garotinha com sólida estrutura familiar e financeira. Vive confortavelmente numa mansão com os dois pais e um cachorrinho. Além disso, costuma viajar para uma grande fazenda no fim de semana. Já a colega de classe Verónica (Ana Patricia Rojo) perdeu os dois pais num acidente. De classe social modesta, ela mora com a avó, uma senhora de saúde comprometida, sempre trancada no quarto. Na ausência de apoio e afeto, a pequena mergulha na imaginação. Graças aos conselhos de sua cuidadora, acredita em feiticeiras, múmias e pactos com o demônio. Chega à conclusão de que ela mesma possui poderes, porque “bruxas podem fazer tudo”.
A aproximação entre as duas soa inevitável. Elas são vistas como opostas: uma doce e ingênua, vinda de família cética (o pai de Flavia repete que bruxas não existem), e a outra, maliciosa e esperta em sua retórica, inventando poções, corujas falantes e transformações corporais. De certo modo, a fabulação permite a Verónica se sentir dominante, em controle — dentro de seu mundo sonhado, ela dá as cartas e determina destinos. Flavia soa como a discípula perfeita, visto que a “jovem bruxa” é ridicularizada pelas demais colegas de turma. Com a ajuda de alguns truques simples, esta convence a nova amiga de suas capacidades. Passa, então, a manipular a amiga privilegiada, exigindo favores, bonecas, viagens à fazenda.
Uma narrativa a respeito do ato de contar histórias, e de nossa vontade de crença nas mesmas. As duas protagonistas se empoderam e se arruinam devido a estas fabricações desconectadas da realidade.
Um elemento de perversão contamina, progressivamente, Veneno para as Fadas. Afinal, a garotinha desprovida de recursos ama e odeia sua aliada, que dispõe de tudo aquilo que Verónica estimava merecer. Elas são, em simultâneo, amigas e inimigas, confidentes e rivais. Andam sempre juntas, embora estabeleçam um delicado equilíbrio de poder. A feiticeira mirim busca comandar as ações, porém sabe que, se forçar demais a manipulação e a chantagem, arrisca afastar a parceira rica, perdendo-a para sempre. O ápice deste laço se encontra na poção mencionada no título — uma invenção repleta de patas de animais e terra de cemitério, destinada a provar a amizade, a confiança e a crença na própria ficcionalização. Em última instância, esta seria uma narrativa a respeito do ato de contar histórias, e de nossa vontade de crença nas mesmas. As duas protagonistas se empoderam e se arruinam devido a estas mesmas fabricações, desconectadas da realidade.
O diretor Carlos Enrique Taboada toma algumas decisões tão radicais quanto fascinantes neste projeto. Em especial, a opção por ocultar o rosto dos adultos. Na rotina destas crianças, os pais, professoras e cuidadora são ocultados do enquadramento, vistos de costas, ou imersos na escuridão. Escutamos apenas as suas vozes. Isso faz com que as garotas se tornem protagonistas absolutas, reinando neste universo sozinhas. Os adultos se revelam unicamente quando transformados em cadáveres ou monstruosidades — neste caso, o enquadramento revela de perto as expressões apavorantes. A negação da autoridade adulta deixa as heroínas abandonadas, isoladas de responsabilidades (o que inclui as obrigações escolares e familiares). Elas se tornam ainda mais livres para criarem suas histórias macabras, posto que ninguém parece vigiá-las de fato.
Além disso, o cineasta permite que a fantasia impregne discretamente o real, sem rompê-lo por completo. Assustada com os relatos da amiga, Flavia sonha com uma Verónica roubando sua boneca preferida, ou com o retorno da professora de piano, morta por motivos que, na interpretação da criança, se devem a um pacto com o diabo. Ora, todos os perigos ocorrem unicamente na cabeça da dupla. O mundo ao redor não observará nenhuma ruptura na ordem natural das coisas. Em outras palavras, este terror independe de uma intervenção sobrenatural, ou de alguma força maligna externa, como em tantas histórias similares. Trata-se de uma narrativa a respeito do trauma, da curiosidade e do pavor da morte, motivando experiências infantis para se descobrir o que ocorre, de fato, aos pais falecidos e à professora enfartada.
Para esta traquinagem infantil de consequências graves, Taboada opta por uma linguagem surpreendentemente elegante. Cada plano é muito bem pensado em termos de enquadramento, iluminação e profundidade de campo. A obra mexicana dispensa as trevas excessivas do terror “de sensações”, iluminando fartamente suas sequências mais assustadoras. Desde o início, via montagem paralela, antecipa ao espectador o laço predatório que se estabelecerá entre as estudantes. Combina uma câmera giratória, ao redor da mesa de jantar, com outra, movendo-se em mesma velocidade, no cômodo vizinho. Planta sementes de símbolos (o feno, o caldeirão, o fogo, o veneno) que, adiante, saem da esfera do pensamento e se materializam numa sequência corajosa.


Assim, Veneno para as Fadas celebra a infância sem romantizá-la. Evita o maniqueísmo comum — ninguém é totalmente inocente, nem malvado aqui. Trata-se de mecanismos de sobrevivência (as mentiras da menina órfã) e manutenção de privilégios (a retaliação da amiga rica). Em outras palavras, atitudes bastante adultas. A obra funciona enquanto fábula de precaução (cautionary tale), além de ritual de passagem à fase adulta (coming of age story) através da intimidade crescente com a morte. Flavia e Verónica imaginam a perda, e depois cogitam sua possibilidade de agirem sobre esta perda, até passarem ao ato. De certo modo, dialogam com outras garotinhas ibero-americanas do cinema de realismo fantástico, cujo contato com a maturidade ocorre por meio da tragédia (em Cria Corvos e O Espírito da Colmeia), sobretudo em tempos ditatoriais.
“As bruxas têm que ser nós. Eu quero ser a mais má de todas”. No fundo, há uma tristeza em Verónica, a pequena bruxa mentirosa, vítima de bullying na escola. Ela busca apenas existir socialmente, ser percebida pelas demais. Incapaz de provocar admiração, tenta impor respeito através do medo — a exemplo de tantos líderes autoritários e inseguros. Mas ela não imaginaria, em sua ingenuidade essencial, que estender o dom da bruxaria à amiguinha endinheirada (afinal, elas assinam o pacto demoníaco juntas) também lhe conferia um domínio equivalente ao seu. A conclusão soará previsível, quem sabe, ou talvez seja a única possível neste contexto — um falso final feliz, no qual a única forma de combater a violência prenunciada reside em outro ato de violência. Taboada conclui a jornada de maneira amarga, dispensando as consequências do ato, a punição, a averiguação dos acontecimentos. Apenas nós, espectadores e cúmplices, teremos contemplado a barbaridade de que são capazes as pequenas bruxas, quando compreendem a extensão de seus poderes.




