
Quando George Orwell publicou A Revolução dos Bichos, em 1945, sua crítica ao regime stalinista foi amplamente aceita pelo ocidente capitalista. Afinal, a trama imaginava uma fazenda comandada pelos animais que, devido à ganância, passavam a explorar uns aos outros. O princípio da coletividade se deturpava até criar desigualdade, fome e escravidão entre seres da mesma espécie — aludindo, obviamente, à exploração do homem pelo homem. Trata-se de uma fábula evidente em seu significado, visando se tornar acessível, inclusive, às crianças. Assim, noções como paz, liberdade e igualdade podem ser debatidas com o típico linguajar dos contos infantis.
Após diversas adaptações — no cinema, teatro, quadrinhos, rádio e videogame —, Andy Serkis propõe sua versão bastante pessoal do livro. O ator e cineasta procura entender qual seria o modelo representativo da desigualdade e das violações de diretos humanos em 2025. Decide então que, na ausência da União Soviética, e de grandes potências propriamente socialistas no mundo, o regime responsável pela desumanização corresponderia ao capitalismo. A fazenda original é mantida, assim como o conflito gradual de porcos comportando-se como os piores seres humanos. Em suma, a premissa de Orwell está presente na nova animação.
Entretanto, estes animais exploradores desejam ir ao shopping center. Compram carros e incontáveis produtos eletrônicos, enquanto obtêm favores de empresários interessados em negócios lucrativos. Ao invés de pequenos produtores agrícolas, os porcos se convertem magnatas ambiciosos, dispostos a sacrificar os colegas devido ao trabalho excessivo, e a esgotar os recursos naturais em prol do ganho pessoal. Agora, a derrocada moral e física dos protagonistas se deve à aceitação dos princípios de base da economia liberal. O inferno, nesta produção britânica-canadense-estadunidense, não são mais os outros (os soviéticos), mas nós mesmos, liberais sedentos pelo capital.
O inferno, nesta produção, não são mais os outros (os soviéticos), mas nós mesmos, liberais sedentos pelo capital.
Para acentuar a afronta, o longa-metragem conta com um elenco invejável de vozes. Isso significa que grandes nomes apoiaram o discurso. Seth Rogen, Glenn Close, Woody Harrelson, Kathleen Turner, Jim Parsons, Steve Buscemi, Kieran Culkin e Gaten Matarazzo encarnam os animais entregues à tentação do lucro. É certo que inúmeras animações familiares elegem empresários malignos como vilões, confrontados aos heróis altruístas. Em contrapartida, raros projetos se opõem a um sistema inteiro — em geral, o alvo constitui um indivíduo cuja má índole representa apenas a si próprio (as “maçãs podres” que os americanos adoram citar). Aqui, há ecos de Elon Musk, Jeff Bezos, Donald Trump e demais milionários, compondo a crítica a um regime cumulativo de bens. Para Serkis, o problema não seria mais de ordem moral (ser bom, ser fiel, ser íntegro), mas de cunho político.
As reações ao novo A Revolução dos Bichos foram sanguinárias. Poucas animações tão coloridas e alegres, voltadas ao público familiar, despertaram tanto ódio quanto esta aqui. “Uma agressão” e “um teste de resistência” , descreveu Peter Travers (Rolling Stone). “Uma confusão ideológica”, segundo Alissa Wilkinson (New York Times). “Eu me senti preso e punido”, lamenta Tom Robey (Daily Telegraph). Para William Bibbiani (The Wrap), “as mudanças não constituem uma melhoria”. Diversos textos reclamam do excesso de piadas de flatulência, embora exista apenas uma no filme — menos do que a vasta maioria das animações à disposição. Em paralelo, acusam a obra de dirigir um ponto de vista político às crianças (algo que Orwell já fazia).
Em outras palavras, tamanha virulência soa injustificada. Diversas críticas manifestam uma sensação genérica de mal estar, apontando um “desnível de tom”, “falta de propósito”, “roteiro inócuo” e outros argumentos nunca amparados em exemplos narrativos. Isso significa que muitos autores nem mesmo conseguiam esclarecer o objeto preciso de seu desprezo. Ora, a revolta deste segmento da imprensa soa claramente voltada à representação implacável do capitalismo. Todos toleram a metáfora anterior, voltada aos soviéticos — razão pela qual Orwell foi poupado do escárnio nas publicações. Em contrapartida, poucos conseguem tolerar que a mesma alegoria sirva para retratar o mundo atual, norte-americano, no qual estão inseridos. A crítica aos outros é considerada válida, mas a autocrítica aparenta ferir o modo de vida no qual acreditam.
Certo, há problemas evidentes neste projeto dos sonhos de Serkis. Toda a narração em off de Woody Harrelson simplesmente repete aquilo que vemos nas imagens, incomodando pela redundância. Além disso, o texto deste narrador simplifica ainda mais um conteúdo bastante claro — como se estima, erroneamente, precisar fazer em projetos para jovens espectadores. Os diálogos colocam na boca dos personagens cada ideia que autor deseja comunicar, permitindo nulo espaço de elaboração por parte do interlocutor. “Liberdade é o poder de falar e agir como quisermos”. “Liberdade é comida?”, pergunta um membro da fazenda. Nem o humor, nem a reflexão funcionam a contento — não há debate quando se entrega um significado pronto, esmiuçado, ensinando ao espectador o que amar, e o que odiar.
Em contrapartida, excetuando a sobrecarga verbal e suas reiterações, a noção de liberdade abraçada pelo longa-metragem se prova surpreendentemente complexa. A liberdade irrestrita e utópica (posso fazer o que me der vontade) se opõe à noção de liberdade constitucional (posso fazer o que eu quiser, contanto que não fira as regras estabelecidas). Estes conceitos se misturam à receita do liberalismo econômico (sou livre para acumular riquezas, mesmo que isso implique em restringir a liberdade alheia). Em meio ao incentivo para se procurar o melhor para si (compreendido, aqui, enquanto mais comida, mais conforto, mais vantagens), qual espaço haveria para o ideal de coletividade? Aos norte-americanos, deve ter soado realmente ofensiva a ideia de bens compartilhados igualmente entre todos, além de uma equivalência entre as espécies/raças.


No final, talvez a proposta mais afrontosa da animação decorra da intenção inicial de abordar a política com as crianças. Muitos projetos o fazem, sem serem percebidos como tais (vide Wall-E, Os Incríveis, Elementos, Valente). Neste caso, entretanto, o olhar para a organização da sociedade se faz mais explícito, assim como a formalização das diferentes gestões e ideologias. Pode-se falar num longa-metragem tentando explicitar as diferentes ideologias possíveis aos pequenos — com o cuidado de dispensar uma defesa radical tanto do capitalismo quanto do socialismo. “Nunca encontraríamos um bom líder em Napoleão. Nem em Bola de Neve, na verdade”, argumenta o protagonista, recusando numa única tacada os modelos do empresário capitalista e da líder revolucionária comunista.
Serkis vai além. Seu final, ironicamente otimista e catastrófico (os personagens terminam na pior, porém, sonhando com um futuro de melhorias) tampouco foi aceito pela regra tácita do final feliz em animações do gênero. Por fim, o maior valor de A Revolução dos Bichos reside nesta relação sintomática com o público. Arrecadou míseros US$ 5 milhões no mundo inteiro, para um orçamento de US$ 35 milhões. Ainda conseguiu a aprovação do Angels Guild, o selo ultra conservador para “obras apropriadas para toda a família”, que geralmente autoriza dramas religiosos. A conclusão imagina os porcos (capitalistas, nesta metáfora) liderando guerras e escravidão. Ou seja, se os stalinistas mataram e exploraram seus povos, os nazistas também o fizeram — e a tirania do capital segue atravessando gerações. A pílula soou amarga demais para críticos e espectadores. Neste sentido, para o bem ou para o mal, o resultado se distingue profundamente de tantas animações inofensivas e esquecíveis do circuito comercial.




