O Profeta (2026)

A perdição do homem de fé

título original (ano)
O Profeta (2026)
país
Moçambique, África do Sul
gênero
Drama
Duração
88 minutos
direção
Ique Langa
elenco
Admiro Laura Munguambe, Nora Matavel, Yara Bonga, Alexandre Coana
visto em
15º Olhar de Cinema (2026)

Hélder (Admiro Laura Munguambe) é um pastor obcecado com a ideia de expandir o seu rebanho. Sonha em atrair incontáveis fiéis para suas pregações, e ajudar o máximo de pessoas possível, em nome de Deus. Afinal, esta seria a sua vocação. Mas como salvar almas que não desejam ser salvas? O que fazer diante das plateias quase vazias, repletas de senhoras sonolentas, ou olhando para a tela do celular? Talvez pudesse melhorar o seu sermão monótono e gaguejante, mas… esta opção não lhe vem à mente. O homem obstinado prefere recorrer a uma mulher maligna, espécie de feiticeira capaz de lhe oferecer o sucesso desejado, mediante alguns sacrifícios.

Nasce assim um novo Fausto. Ele não exatamente vende a alma ao Diabo, mas entrega sua fé à ânsia de fama e reconhecimento. Em consequência, trai as palavras divinas em nome de Deus. Devido às contradições evidentes do protagonista, e ao pacto com forças obscuras, O Profeta poderia resultar num suspense perturbador, repleto de tensão e iconografias de horror. A religião (e a subversão da mesma) sempre ofereceu farto material ao cinema de gênero, em especial na figura de padres libidinosos, pecadores, corruptos, confrontados ao mal. O diretor estreante Ique Langa parte da instigante figura deste homem cuja danação reside na realização de seus sonhos. A partir do feitiço, ele se satisfaz e se perde na mesma medida. 

O Profeta poderia resultar num suspense perturbador. Mas a principal surpresa reside no estilo lânguido e estetizante proposto pelo autor.

Ora, a principal surpresa diante desta premissa reside no estilo lânguido e estetizante proposto pelo autor. O moçambicano aposta em interações ínfimas, de pouquíssimos diálogos (sempre sussurrados e monossilábicos), trocados entre os escassos personagens em cena. Levamos algum tempo até a confirmação de que a mulher grávida ao lado do herói constitui sua esposa, tamanha a frieza entre ambos. Em seguida, as figuras em cena se deslocam len-ta-men-te, enquanto a câmera se delicia em contemplar a movimentação dos corpos no espaço. Embora a segunda metade esteja repleta de elipses, a primeira parte ignora saltos temporais. Por isso, a imagem admira Hélder se levantando da cama sem a menor pressa, e então observando algum ponto distante, vestindo as calças, os sapatos, a camisa, botão por botão. Os planos-sequência esticam uma duração processual — a direção estaria sugerindo, nestes gestos cotidianos, uma prática ritualística? 

Em segundo lugar, nota-se o prazer da direção de fotografia e do cineasta na composição de planos fixos, sobretudo, deixando os rostos no terço inferior da imagem, ou bastante espremido nos cantos do enquadramento. O elegante preto e branco acentua o caráter fabular, por não corresponder à natureza tal qual a enxergamos, enquanto a proporção da imagem opta por três janelas distintas: 1,33:1 no início, diante do pastor em crise; 1:1, quando ele conquista o poder via entidades perversas, e 1,87:1, na proposta de redenção no desfecho. Os atores posam no local exato do enquadramento, enquanto o som brinca de sobrepor a fala de uma conversa à imagem referencial de outra interação. Cria-se, desta forma, uma aparência de sonho, ou ainda um pesadelo suspenso. Pressente-se que, a qualquer momento, o homem possa simplesmente despertar em sua cama, agoniado e coberto de suor.

Em contrapartida, tamanho deleite em criar imagens não se acompanha de interesse equivalente em criar ações. O Profeta demonstra uma curiosa gestão do tempo e dos ritmos. Inicialmente, deixa as perambulações de Hélder se arrastarem, sem finalidade precisa, contentando-se em testemunhar o sentimento de vazio do sujeito deprimido. Em chave oposta, uma vez realizado o pacto, o êxito do líder religioso chega de modo repentino. Na cena seguinte, há dezenas de pessoas na congregação, cantando, dançando, entoando a palavra bíblica. Um dos melhores instantes do longa-metragem decorre do festejo noturno, misto de transe e êxtase (já no formato quadrado da imagem), quando os corpos se agitam freneticamente diante do dispositivo fixo. Nesta hora, o plano-sequência soa muito mais justificado, enquanto fruição, do que nas caminhadas na avenida, para cá e para lá, da metade inicial.

Já os atores, inexperientes, reduzem a expressividade ao limite do maquínico. Chega a soar curioso que instantes de desespero (a ambição do pastor, a angústia de um homem cujo pai necessita de cuidados hospitalares) sejam transmitidos através de mínimas falas repetidas (ou fala nenhuma), enquanto os rostos e corpos dos atores permanecem imóveis, paralisados. Em outras palavras, o texto sugere uma catarse que o elenco não reproduz. De certa forma, isso condiz com a abordagem da obra em sua totalidade, equilibrando-se entre a vontade de sugerir furor, via narratividade, enquanto a estética adota a plasticidade elegante e posada de um ensaio fotográfico. Ao menos, o aspecto letárgico dos personagens corresponde à procura por um estranhamento geral — via discurso, roteiro e direção.

Rumo ao final, o filme moçambicano aponta para caminhos distintos, quase antagônicos. Por um lado, sugere a possibilidade de abraçar o discurso religioso de fato, quando Hélder se arrepende do pacto. Chora, pede perdão, insurge-se contra a obrigação de sacrificar novos animais para aplacar a fome da entidade maligna. A tentativa de suicídio combina a luz esbranquiçada da gramática religiosa com a trilha cristã e uma câmera lenta que nos mergulham, estranhamente, numa trajetória de redenção do homem pecador. Afinal, quanto maior a queda, maior a ascensão, correto? Nada melhor do que um líder religioso que já testemunhou a baixeza do ser humano — e conseguiu vencê-la. Se ele pode, quem não poderia?

Por outro lado, ameaça enveredar pelo terror, gênero com o qual flertava diversas vezes no segmento inicial, sem se sujar de fato. As pústulas no rosto do senhor doente, as vísceras de animais mortos (e o barulho asqueroso das mesmas), as imagens quase abstratas durante a noite sugerem que Langa abraçará o aspecto grotesco e físico desta aliança entre bem e mal. Ora, ironicamente, o ímpeto do bom gosto ainda preserva o longa-metragem de ferramentas destinadas a provocar repulsa ou incômodo. Salva-se o dia, salva-se a alma, e salva-se o filme de um percurso demasiado profano. A obra escapa tanto à pureza religiosa quanto à vilania infernal, acreditando numa tentativa de paz entre as partes, via confissão e esforço comunitário.

Assim, o resultado impressiona pela vontade de realizar um cinema “profissional”, admirável, digno dos grandes eventos internacionais — não por acaso, foi realizado via incentivo do Festival de Veneza. O diretor, de fato, possui um olhar potente para a natureza. Entretanto, falta a verve necessária para adentrar a psique de figuras contraditórias, e os aspectos sociopolíticos do abuso de poder por parte de homens que se estimam representantes de Deus. O discurso guia-se unicamente guiada pela moral. Faz-se o bem ou faz-se o mal, cede-se à tentação ou preserva-se a virtude. Tudo depende, em última instância, do caráter do sujeito arrependido — ou seja, de um esforço individual. Neste sentido, o desfecho se mostra redutor, até moralista, pelo fato de isolar o indivíduo da sociedade. Mesmo assim, a experiência desperta a impressão de que o autor pode retornar com trabalhos ainda mais marcantes em suas próximas iniciativas.

O Profeta (2026)
6
Nota 6/10

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