
Babaçu Love é um filme ambicioso. Ao longo de mais de duas horas, ele segue a jornada de Diloura (Amanda Odillon), jovem que sonha apenas em “ser feliz e famosa”, em suas palavras. O diretor Cícero Filho mira na comédia de humor físico, no romance contendo dois triângulos amorosos, no drama inspirador, no musical a respeito do côco babaçu, na jornada de luta política, e na ode aos valores familiares. Pretende despertar risadas o tempo inteiro, assim como fazer chorar, dar lições de moral e transmitir valiosos ensinamentos a respeito dos direitos dos trabalhadores. Busca empoderar a mulher em sua trajetória profissional, mas garantir o amor romântico redentor. Condenar o pai trambiqueiro, mas aceitá-lo de volta. Trazer a heroína às suas raízes, mas também lançá-la pelas estradas.
A experiência se assemelha a assistir à temporada completa de uma série. A trama comprime uma quantidade excessiva de acontecimentos, conflitos e saltos temporais, neste ímpeto de continuar em movimento — tanto literalmente, pelas vias do road movie, quanto no sentido de uma sucessão de quiproquós. Em paralelo, a trilha sonora não se interrompe jamais, mesmo durante conversas corriqueiras dentro de casa. A mise en scène transparece o pavor da contemplação, do silêncio, da reflexão. Na ânsia por agradar e entreter o tempo inteiro, os planos se tornam mais curtos, o entra e sai das casas se acelera, e toda briga implica numa reconciliação posterior. Os personagens precisam se agitar freneticamente, embora nem sempre haja atividades concretas ocorrendo (vide as crianças atirando peças de roupa ao alto, e as malas de viagem nunca terminadas).
A direção se leva bastante a sério. Ri dos familiares atrapalhados, mas não consegue rir de si própria. Depois, resolve todos os seus problemas magicamente.
Logo, o projeto resulta estridente — e, provavelmente, consciente disso. O som chama atenção a si próprio, seja graças às composições da trilha, seja em virtude dos gritos característicos de Diloura. Em especial, nota-se a dublagem de diversas cenas pelos próprios atores, o que provoca uma artificialidade por dois motivos: a falta de sincronia labial na hora da montagem, e a qualidade excessivamente limpa das falas, mesmo quando Diloura e Araújo se encontram sobre um penhasco, recebendo rajadas de vento. A noção de que pessoas de baixa renda sejam naturalmente barulhentas e atrapalhadas respinga neste imaginário de uma pobreza colorida e ingênua.
Aliás, em determinados momentos, Babaçu Love ameaça tratar sua protagonista como pouco inteligente, no intuito de rir desta pretensa ignorância. A moça confunde DVD com DTV, e não sabe explicar num programa de televisão onde fica a cidade em que nasceu. O humor popular passa por uma pitada de ridicularização da miséria — caso da placa futebolística de “Rumo ao Treta”, onde se esperaria “Tetra” —, aproximando o olhar da direção de certo desprezo por seus personagens centrais. Felizmente, isso se interrompe a seguir. Nota-se um carinho genuíno por estas figuras tratadas como tortas, falhas, e desconectadas da realidade — em particular, Diloura nunca percebe sua falta de talentos vocais. Mesmo assim, existe uma diferença ética fundamental entre apreciar seus protagonistas apesar das falhas de caráter, ou por causa delas, e o roteiro navega perigosamente entre os dois.
Neste sentido, a principal complicação da obra diz respeito à indefinição de tom. Ao contrário do escrachado e assumidamente tosco Ai que Vida (2008), onde se ria da precariedade geral das situações, aqui, a direção se leva bastante a sério. Ri dos familiares atrapalhados, mas não consegue rir de si própria. Por isso, o canto desafinado de Diloura nem beira o horrivelmente cômico (à la Florence Foster Jenkins), nem se aproxima de uma apresentação profissional. As brigas com o namorado Ransquelson (Whindersson Nunes) nem são profundamente humorísticas, nem realmente denunciam os abusos do sujeito. A queda da avó no poço jamais se torna plenamente engraçada, posto que a direção insiste no sentimento verdadeiro da senhora senil, que se atira nas águas enquanto prova de amor. O projeto demonstra evidente dificuldade de rir daquilo que, no fundo, considera importantíssimo: ir atrás dos seus sonhos, priorizar o amor familiar, viver paixões, etc.
Logo, navega-se entre a ingenuidade e a sátira da ingenuidade; entre a ode à pureza dessa gente simples do campo, e a sátira desta mesma inocência. Para cada cena escatológica (a privada cheia de cocô, a baba no rosto) e de humor físico (a briga durante o velório, o barraco no casamento), entram em cena fotografias graves e solenes, em preto e branco, valorizando a nobreza do côco babaçu. Os acontecimentos misturam o naturalismo (a mulher apresentando-se com a banda do pai) com a fantasia (a escola rachando, a paisagem inicial em CGI); a crítica à busca pelo estrelato e a defesa da celebridade enquanto aspiração pessoal.


Atenção: spoilers a seguir.
Assim, politicamente, pode-se falar em uma empreitada indecisa. Num momento inicial, o texto condena o vício de Tetéu (Lailtinho Brega) em jogos de azar. No entanto, recompensa-o mais tarde, promovendo o sucesso na jogatina, que lhe permite a restituição do dinheiro perdido. (Trata-se de uma mensagem problemática, sobretudo em tempos de explosão de Bets no Brasil). Na primeira metade, afirma que as trabalhadoras do côco podem muito bem se sindicalizar, criando sozinhas a própria fábrica. Em contrapartida, o patrão abusivo aparece junto delas quando o empreendimento se concretiza — graças a uma propaganda ostensiva de um banco. Às vezes, o roteiro insinua que Diloura pode viver muito bem sem uma companhia masculina, apenas para determinar que ela somente será feliz de verdade quanto se juntar com um moço melhor do que o anterior.
Entre tantas brigas e impasses, o desfecho resolve todos os seus problemas magicamente. O dinheiro aparece, a família se une, o amor vinga, o programa de TV que havia ridicularizado a protagonista a chama de volta (e o filme celebra esta conquista). O maior obstáculo rumo à crença nesta fábula inspiradora reside na própria dificuldade de explicar de que forma a cantora-sem-talento atingiria a tão sonhada fama. Como as trabalhadoras muito pobres se uniram e ergueram a empresa de sucesso? Como o programa de televisão decidiu convocar Diloura novamente? Não se sabe. As mudanças apenas ocorrem; simples assim. Impera um otimismo obrigatório, um final feliz contratual, por meio da suspensão conveniente de todos os conflitos. É difícil acreditar nos dilemas político-sociais de um universo de conto de fadas.




