
O caminhoneiro Justo (César Troncoso) se desloca do Brasil ao Paraguai. Espera encontrar algum trabalho de fretes pela região, embora não tenha certeza da demanda. Ele também se mostra disposto a qualquer forma de contrabando (ou “capitalismo de fronteira”, como prefere), visto a precariedade da situação. Em paralelo, Saulo (Luan Iturve) é um jovem rapper guarani-kaiowá, sem perspectivas de crescimento na aldeia onde reside. Além disso, sofre preconceito das pessoas brancas da cidade. Já Rosario (Ivana Gomez) espera à beira de uma estrada perigosa por qualquer um que a leve à nova casa da irmã, que não encontra há anos.
A Pele Morta se concentra nestes deslocamentos imprecisos. Os personagens estão sempre na estrada, buscando algo que não sabem exatamente o quê, nem onde. Saulo possui família, embora nunca sofra com a distância dela. Os outros parecem bastar a si próprios. Nunca exatamente miseráveis, porém longe de qualquer conforto, eles apenas seguem em frente. Talvez trinta ou quarenta anos atrás, esta premissa motivasse um típico “filme de sertão”, explorando a dura vida dos habitantes entre Nordeste e Sudeste. Hoje, nosso imaginário de amplitude e secura (humana, inclusive) se deslocou. O longa-metragem dirigido por Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres volta-se à “Nuestra América”, conforme aponta o caminhão de mudanças. Em outras palavras, explora as conexões íntimas e invisíveis entre o Brasil e países vizinhos.
Os irmãos Moraes e Torres fogem a qualquer romantização destas existências solitárias, preferindo se situar num eterno tempo presente.
Assim, o Brasil se une ao Paraguai através de um motorista uruguaio. Pensam em encontrar a irmã na Argentina, e aceitar um transporte ilegal à Bolívia. A jovem paraguaia se surpreende ao escutar sua língua guarani espelhada em outra língua brasileiríssima: o guarani dos povos indígenas. Não há diferença concreta entre estes espaços — a montagem faz questão de suprimir a passagem pela fronteira —, de modo que a América Latina se converte numa planície única de estradas, sonhos e desilusões. Entram em cena, é claro, todas as ferramentas do road movie: o carro quebrado no acostamento, as conversas noturnas entre os viajantes, além da carona concedida a uma desconhecida, que transforma sensivelmente a dinâmica entre os protagonistas.
Em alguns instantes, o drama se assemelha até demais a filmes de pressupostos semelhantes, e talvez ainda mais fortes em sua construção de personagens. O convite a Hebe Duarte para se deslocar dentro um caminhão, junto de seu filho, remete de imediato ao maravilhoso Las Acacias (2011). A intromissão da garota no caminhão, provocando desejos e competição entre os homens, evoca o trio de Cinema, Aspirinas e Urubus (2005); e assim por diante. Os diretores se saem muito melhor na melancolia, nos tempos mortos e na contemplação, do que na intromissão, um pouco abrupta, de conflitos destinados a fazer a trama caminhar.
Deste modo, a brincadeira noturna do “sal no café e açúcar no macarrão” provavelmente mirava num instante de comicidade e cumplicidade mais intenso, ainda que sofra com problemas de timing. A briga entre os dois homens resulta repentina, violenta até demais — e o mesmo vale para a reconciliação quase imediata, num simples corte de montagem. Homens estrangeiros (logo um alemão, como no filme de Marcelo Gomes) chegam de lugar nenhum para retirar o trio de um impasse; e a tal entrega de móveis jamais aparenta possuir prazo, nem um endereço preciso. Para um projeto tão focado no tempo e no espaço, estes dois aspectos se diluem até formarem um imaginário próximo do sonho. Eles teriam rodado semanas ou meses? Onde exatamente se encontram, a cada momento? Isso importa?
Mesmo assim, aplaude-se a decisão dos criadores em abraçar estes personagens sem julgamentos morais, através de uma perspectiva de equivalência. Jamais sabemos de qual realidade Rosario foge, ou as circunstâncias exatas que causaram problemas de Justo com a polícia. Fala-se em um espírito de liderança de Saulo, cuja voz precisaria ser ouvida pelos jovens guarani-kaiowás. Entretanto, o garoto solitário quase nunca integra a sociedade, nem é visto interagindo com colegas de sua aldeia. A ficção concebe um filme-dentro-do-filme, de linguagem documental, sendo realizado em suas terras, além de um painel divulgando o cinema ao fundo da imagem. Ora, que ponto de vista os diretores trariam a respeito deste tema? Pouco se sabe do projeto metalinguístico, do qual o garoto se recusa a participar.


Há muitas lacunas em A Pele Morta. Adolescentes cantam um rap guarani gospel, incluindo várias menções ao Senhor, embora nunca se compreenda o papel das religiões brancas e monoteístas entre aquelas pessoas. Os autores dispensam circunstâncias sociais ou políticas específicas, preferindo meramente aludir aos agrotóxicos nas plantações, ou à perseguição aos povos indígenas. Nenhum indício particular seria capaz de retirar os personagens desta rotina suspensa, inerte, em deslocamento graças ao ímpeto pessoal de seguir adiante. Não há grandes amizades, amores esfuziantes, promessas de reencontro futuro, nem vidas transformadas a partir de descobertas à beira da estrada. Os irmãos Moraes e Torres fogem a qualquer romantização destas existências solitárias, preferindo se situar num eterno tempo presente.
Por fim, resta sobretudo um belo filme, bastante profissional e polido. Impressionam os planos fixos em scope, a luz sempre perfeitamente composta em relação à paisagem, avessa à armadilha da pobreza embelezada. Apesar das cores vivas e do preciosismo das composições, nota-se uma frieza, uma compostura que jamais convida o espectador a um envolvimento de ordem sentimental. O mesmo vale para a trilha sonora pontual e diegética. Estes personagens não existem para ensinar nada ao público, nem um ao outro. Descolam-se de suas funções sociais (o jovem indígena, o homem estrangeiro, a garota paraguaia) para se tornarem elétrons livres e descontextualizados. Se Justo fosse boliviano, se Saulo pertencesse a outro povo originário, e se Rosario viesse da Argentina, por exemplo, os rumos provavelmente seriam semelhantes. A obra pretende enxergá-los numa essência humana, ao invés de esmiuçar especificidades regionais.




