Zé (2026)

Teatro e saudade

título original (ano)
Zé (2026)
país
Brasil
linguagem
Documentário
duração
100 minutos
direção
Paulo Caldas
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

O principal receio que o espectador poderia ter quanto a um documentário sobre Zé Celso Martinez Corrêa se dissipa de imediato nesta obra. Não, não se trata de um longa-metragem careta, comportado e acadêmico a respeito do dramaturgo. Felizmente, o diretor Paulo Caldas foge ao “serviço mínimo” da linguagem cinematográfica, acostumada aos depoimentos laudatórios e materiais de arquivo puramente referenciais. Compreende que, para um homem iconoclasta, é necessário encontrar uma imagem iconoclasta, e que a mente fervilhante do artista solicita uma estética à altura. Este ponto de partida também simboliza um respeito fundamental a tudo aquilo que o protagonista, falecido em 2023, representou ao longo de 65 anos de carreira.

No caso, o cineasta e o montador Pedro Paulo Rocha brincam com os registros à disposição — até demais, dirão alguns. Cada espectador determinará qual intervenção soa mais ou menos apropriada, mais ou menos orgânica ao conjunto. Mesmo assim, o longa-metragem opera com sobreposições de imagem (Zé Celso atuando + conversando com o diretor), planos de ponta-cabeça, escurecimentos progressivos até o black completo, sem falar de uma infinidade de fragmentações, dispersões, poesias e demais intervenções na imagem. O protagonista se converte em matéria-prima para uma obra de criação, ao invés de elemento intocável. Zé Celso constitui o ponto de partida, nunca de chegada. Assim, nota-se o prazer dos autores em manusear os registros, torcendo-os e colando-os de maneiras improváveis.

Caldas encontra uma linguagem capaz de dialogar com a importância do Teatro Oficina, enquanto se recusa a reduzir o personagem ao seu currículo.

Mesmo assim, o procedimento jamais soa aleatório, graças a alguns elementos capazes de costurar a narrativa na totalidade. Em primeiro lugar, uma única entrevista do personagem face ao espelho, em local escolhido pelo próprio. Este encontro, quando ele abraça Paulo Caldas e festeja o encontro entre cinema e teatro, proporciona algumas falas espalhadas durante toda a experiência. Em segundo lugar, a imagem de um grande bloco de gelo, derretendo diante das câmeras até revelar uma fotografia de Zé Celso no interior. Pode não se tratar do símbolo mais sutil para a passagem do tempo, entretanto, posicionado sobre o palco do Teatro Oficinal, o objeto sustenta um valor curioso. Ele nos recorda que as estátuas também morrem, e toda presença se faz efêmera. 

Em terceiro lugar, surpreende a escolha de condicionar a entrevista ao tema “teatro e a saudade”. De que maneira ambos os temas se relacionam? Trata-se de um ângulo nada óbvio, muito pelo contrário. Ao invés de uma resposta direta, o homem discorre longamente a respeito destas conexões, que favorecem o trabalho da montagem por evocarem episódios centrais do percurso profissional de Zé Celso. Logo, esta questão aparentemente pontual condiciona todas as lembranças, perpassando o roteiro na íntegra. Através destes eixos, o cineasta evita que o resultado se reduza a fragmentos aleatórios da vida de seu personagem. Caldas adota um ponto de vista e um princípio metodológico específicos, transparecendo o rigor de pesquisa para além do prazer em criar e associar segmentos não concebidos para conviverem na mesma obra.

Como de costume, o protagonista transparece sua eloquência e inteligência ao refletir sobre a arte. A narrativa privilegia o Zé Celso pensador contem porâneo ao diretor de peças prestigiosas. Interessa-se mais pelas elocubrações amplas a respeito da vida, do tempo, da morte, e assim por diante, à descrição linear de acontecimentos marcantes. Ele discorre sobre o candomblé, as culturas indígenas, o DNA, e até o seu legado. “Eu tenho saudade do futuro. Eu não vou estar aqui”, esclarece. No que diz respeito à função social do teatro, pontua: “A arte tem a responsabilidade de reativar a potência humana contra a lobotomização e a falta de delicadeza”. As falas, por si mesmas, carregam uma riqueza impressionante. 

Em contrapartida, o desfecho começa a recorrer a alguns clichês que os criadores haviam sabiamente evitado até então. Multiplicam-se então as captações com drones, na fachada do Teatro Oficina e arredores, além da quase-obrigatória tomada que sai do teatro aos céus, sugerindo a alma do artista falecido alcançando alguma forma de transcendência. A opção pelos aplausos no final de um espetáculo, aplicados por extensão ao próprio Zé Celso e ao documentário destinado a representá-lo, constituem outro lugar-comum pouco inventivo. No desfecho, algumas peças notáveis da trupe se sucedem rapidamente, tais quais uma nota de rodapé a quem porventura sentisse falta de maior didatismo. O filme se redime, em partes, da recusa pedagógica apresentada nos trechos anteriores.

Além disso, para um filme focado no pensamento mais pulsional e livre de Zé Celso, ressente-se a falta de sexualidade, tesão e linguagem queer. Uma apresentação traz atores nus durante um trecho curto, em contrapartida, o pensamento do dramaturgo a respeito do sexo e da sexualidade soaria essencial a qualquer longa-metragem que pretenda honrá-lo. A mise en scène se prova bastante tímida neste aspecto — embora as menções à “origem animal de Deus” fornecessem um gancho excelente para tal resgate. Por esta perspectiva, a filosofia do protagonista soa excessivamente abstrata (concentrada em debates sobre saudade e memória). Caberia uma exploração mais concreta e carnal das pulsões humanas na criação do protagonista.

Mesmo assim, o saldo é amplamente positivo. Caldas encontra uma linguagem capaz de dialogar com a importância do Teatro Oficina, enquanto se recusa a reduzir o personagem ao seu currículo. Focando-se na conversa amigável — ambos inclusive tiram uma foto juntos —, o protagonista se torna mais fácil de identificação do que as abordagens hagiográficas sugeririam. Zé Celso se revela tão admirável quanto possível, plausível. Afinal, seus delírios cosmogônicos se baseiam numa compreensão bastante concreta das coisas (algo percebido nas disputas judiciais com o grupo Sílvio Santos). Nem tanto à Terra, nem tanto aos céus; nem puro devaneio, nem apenas contador da própria vida, o grande artista prova-se um exímio articulador entre ambos os campos. Uma ponte entre vida e arte, entre cinema e teatro, entre documentário e (auto)ficção. 

Zé (2026)
8
Nota 8/10

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