
Este documentário parte de um registro bastante específico da carreira de Fernanda Montenegro. Sem cair na armadilha de resumir toda a vida e obra, o diretor Pedro Waddington concentra-se nos bastidores de seus filmes mais recentes — em particular, Vitória (2025) e Velhos Bandidos (2026), além de trechos eventuais de Casa de Areia (2005). Outros filmes são citados por alto — caso de Central do Brasil e A Falecida —, enquanto clássicos como A Hora da Estrela nem mesmo entram na montagem. O cineasta se concentra nestas produções literalmente familiares, dirigidas por Andrucha Waddington e Cláudio Torres, ou estreladas por Fernanda Torres, presente igualmente em peças de teatro ao lado da mãe. A intimidade do parentesco se converte em ponto de partida essencial à obra.
A protagonista descarta, de imediato, a possibilidade de uma extensa entrevista para costurar as imagens via narração em off. Prefere que Pedro desenvolva um filme autônomo e pessoal, porque, nas palavras dela, seus trabalhos transparecem tudo o que precisa ser dito a respeito deste percurso. O autor assim o faz, resgatando imagens de A Falecida para pensar a morte; e deixando que os comentários espirituosos durante as filmagens dos longas-metragens transmitam o comprometimento da artista, assim como o respeito dos demais por ela. Ninguém precisa acumular elogios à “Fernandona” em entrevistas clássicas; basta ver a forma como a escutam quando emite opiniões criativas no intervalo entre as cenas. O senso de gravidade da mulher impregna estes sets de filmagem, apesar da amabilidade dela para com os membros da equipe.
Pedro Waddington concentra-se nos bastidores dos filmes mais recentes de Fernanda Montenegro. Um tema recorrente nesta narrativa diz respeito à finitude.
Parte considerável da leveza deste longa-metragem decorre das trocas espontâneas preservadas pelos making ofs. A atriz provoca os diretores, queixa-se de escolhas criativas, faz alterações no texto. Oferece dicas de atuação a Matheus Nachtergaele e explica sua vitalidade excepcional à filha: “Nós [os idosos] somos loucos há mais tempo”. Entrega-se com surpreendente sinceridade ao declarar a preferência pelo teatro, em detrimento das produções trabalhosas e custosas do audiovisual. “Cinema é vida ou morte”, ela pontua, em referência aos custos de um longa-metragem e às dificuldades de concentrar os esforços de uma centena de profissionais. Há menos espaço para brincadeira num set de filmagem, onde cada diária custa um preço exorbitante aos realizadores. Por isso, ela ainda se sente mais confortável nos palcos.
Em particular, um tema recorrente nesta narrativa diz respeito à finitude. Aos 97 anos, Fernanda Montenegro demonstra plena consciência de que o fim está próximo, porém, “sem morbidez”, ela frisa. Sobre a velhice, resume: “É uma desgraça”. Recorda que seus principais amigos já morreram, o que inclui uma geração de ouro do teatro brasileiro. “Eu estou aqui ainda por milagre”, anuncia, antes de pedir ao diretor que a narre “como se eu já não existisse”. Quando os colegas se despedem dela com um “até amanhã”, ela pondera: “Vamos ver amanhã. Eu espero acordar”. Ainda profissionalmente ativa, e com planos para espetáculos teatrais, Montenegro sente que sua época, de certa forma, já passou. “Somos os últimos remanescentes de um romantismo criativo do século XIX”. O corpo pode ter envelhecido, no entanto, a mulher demonstra uma implacável lucidez.
Por isso, o longa-metragem é pautado pelo olhar ao passado, enquanto carreira, e ao futuro, na forma do legado. O presente soa menos importante à protagonista, de certa forma. Em duas ocasiões, menciona a memória enquanto sua maior preciosidade, e também, algo que teria muito medo de perder. Fernanda Montenegro recorda com tristeza o colega de palco que se mostrou incapaz de recordas as falas de uma peça, enquanto ela mesma precisa utilizar um ponto, com falas lembradas no ouvido, para as filmagens de Velhos Bandidos. O reconhecimento de suas limitações, para uma artista dotada de tantos recursos, e com 80 anos de carreira, soa particularmente doloroso. Se não demonstrasse tamanho senso de autoironia, a protagonista ofereceria um retrato muito mais melancólico do fim de uma jornada profissional.
Esteticamente, investe-se numa estrutura modesta, parcialmente funcional. A divisão em três atos visa homenagear a estrutura clássica do teatro, embora não se note uma diferenciação concreta entre os segmentos. O terceiro ato corresponde, no melhor dos casos, a um epílogo curtíssimo. Nem dependendo somente do making of, nem explorando a fundo os materiais de arquivo, o projeto efetua preciosas conexões iniciais, ignoradas a seguir — caso de Fernanda ligando para si mesma, via montagem, em várias cenas onde suas personagens utilizam o telefone. “É muita vida, muito trabalho, muita peça, muito tudo. É um caos aqui dentro da cabeça”, ela dispara. De fato, o documentário tenta se equilibrar, de maneira frágil, entre o panorama abrangente e o foco exclusivo aos anos mais recentes de sua atividade artística.
Ao final, presta uma homenagem tão sincera quanto conflituosa. Em parte, aparenta aceitar a ideia de um filme-testamento, espécie de presente à avó de consideração do diretor. Entretanto, adiante, utiliza mais de uma vez a letra de Ne me Quitte Pas, “não me abandone”, como direcionado à protagonista em fim de vida, a quem se suplica que não morra. Longe de um mergulho aprofundado em toda trajetória de Fernanda Montenegro, o projeto assume o caráter de um diário, uma pequena espiada no comportamento dela nas coxias e nos bastidores. Contenta-se com os sopros de energia e eloquência — os espectadores ávidos por dados e informações, que os procurem em outros meios mais noticiosos. A obra se encerra na condição de um álbum familiar, assumidamente segmentado, e carinhosamente modesto em seu olhar.




