Behemoth: Uma Vida Composta em Peças (2026)

Todas as mulheres de Alex

título original (ano)
Behemoth! (2026)
país
EUA
gênero
Drama, Romance, Comédia
duração
126 minutos
direção
Tony Gilroy
elenco
Pedro Pascal, Olivia Wilde, Eva Victor, Will Arnett, Matthe Lillard, Hank Azaria, Alexa Swinton, Margarita Levieva
visto em
50ª Mostra de São Paulo (2026)

A princípio, a proposta de Behemoth: Uma Vida Composta em Peças é bastante original. Os produtores convidam nove grandes compositores para criarem, cada um, uma melodia que servirá de acompanhamento à vida do protagonista Alex (Pedro Pascal). Enquanto o violoncelista atravessa diferentes conflitos em seu retorno à Los Angeles natal, os diferentes estilos de música ilustram suas aventuras. Logo, ele transita por instantes de drama profundo, comédia física, ação e suspense. Envolve-se num acidente quase fatal, presencia duas mortes consecutivas, mas ainda vive trapalhadas na fuga de um casamento onde entrou como penetra. 

O diretor e roteirista Tony Gilroy converte esta jornada numa epopeia íntima, repleta de encontros e desencontros, descobertas e obsessões. Ele enxerga em Alex um protótipo da masculinidade “ideal”: além da beleza (a fotografia insiste bastante no poder de sedução do ator), ele seria um músico talentoso, amigo gentil, e amante irresistível. Parte da aventura se concentra neste homem que pode tudo: apesar de a trama insistir que ele precisa de pequenos trabalhos para sobreviver, a casa onde vive, e os lugares que frequentam, sugerem um conforto financeiro considerável. O sujeito escolhe a parceira que desejar, a música que lhe apetecer, e consegue com facilidade acessar uma jovem prodígio da música, de 15 anos, descrita como inalcançável à maioria das pessoas.

O longa-metragem se contenta demais com sua audácia musical para desenvolver uma trama à altura de suas pretensões.

Logo, o mundo bate à porta do músico, embora ele mesmo não precise desempenhar muitas tarefas. Enquanto as pessoas o solicitam, e as mulheres correm atrás dele (literalmente, no caso da personagem de Olivia Wilde), o protagonista desfila de uma cena à outra, com o olhar perdido pelo horizonte. O objetivo destas mulheres — em sua maioria, histéricas e descontroladas —, se limita a conquistar o próprio Alex. Já o herói desfila por concertos, festas e apartamentos sem real interesse pelos fenômenos ao redor. Este Don Juan do século XXI sustenta um relativo desprezo pelos conflitos que nunca lhe despertam alguma reação enérgica (vide a máxima a respeito da ânsia de ter e o tédio de possuir). 

Os segmentos, relativamente independentes entre si, vão e voltam no tempo de tal forma que a realidade começa a abrir frestas ao realismo mágico. Caso Gilroy assumisse o aceno à fantasia, talvez permitisse voos estéticos mais expressivos. Isso também justificaria este olhar machista como a possível projeção do violoncelista às parceiras, ao invés do ponto de vista do próprio filme sobre elas. Mesmo assim, Behemoth segue firme na estrutura do drama clássico, dentro do qual os instantes de ação e comédia resultam perdidos. Tantas mortes e quase-mortes se alternam com a fuga de um casamento, digna de uma comédia de Owen Wilson. Um dilema acerca da paternidade nos envia ao melodrama novelesco, enquanto a perseguição de Carol (Olivia Wilde) nos aproxima do suspense erótico. Estas perspectivas variadas, tão instigantes quanto incoerentes, dificilmente conversam entre si.

Por isso, aquilo que se anunciava como um presente aos atores não necessariamente os favorece. Pedro Pascal dedicou-se muitíssimo ao aprendizado do violoncelo, para tocar de fato em planos abertos e longos, destinados a comprovar o desempenho real do ator. Em contrapartida, passada a proeza da dificuldade técnica, resta pouco ao andarilho sedutor. (Nem todo diretor consegue fazer o seu 8 1/2). Até o zoom-in no rosto de Alex, enquanto descobre o talento musical de Viviana (Alexa Swinton) e descobre informações relevantes acerca da garota, denota uma expressão distante e indefinida no rosto do ator. Para um sujeito em luto, em crise na carreira, amando e sendo perseguido por suas conquistas, e ainda refletindo acerca da possível formação de uma família, o herói mostra-se surpreendentemente blasé. 

Em paralelo, diversos acontecimentos transparecem problemas de direção e montagem. Behemoth: Uma Vida Composta em Peças desperta a impressão de uma obra bastante picotada, modificada e encurtada na edição, a ponto de perder o sentido de várias interações. O montador John Gilroy, irmão do diretor, nunca estabelece um senso de causa e consequência, nem permite que os sentimentos de um episódio invadam o seguinte. Logo, caso as cenas se organizassem em ordem distinta, talvez não surtissem diferença considerável no resultado. O imperativo da música, assim como a necessidade autoimposta de mudar de estilos com frequência, converte Alex no coadjuvante de sua própria história. As coisas acontecem ao redor, porém, apesar dele, não necessariamente em função do músico.

Assim, o sexo no banheiro se traduz em uma das cenas menos verossímeis do erotismo no cinema recente; e a perseguição por dois pequenos cachorros aparenta deslocada em tons e objetivos — isso logo após uma fuga real de seguranças que mais parecem agentes da CIA. A rivalidade com o pai e o irmão, ambos músicos, oferece uma faísca jamais aproveitada perlo roteiro, enquanto a intromissão da Covid nunca emite qualquer reflexão a respeito dos tempos da pandemia. Insiste-se que Viviana seria anônima e protegidíssima, embora se apresente num show de bairro qualquer; e promete-se que Carol será a amante implacável, que simplesmente desiste de seu alvo algumas cenas mais tarde. Nenhum personagem possui consistência ao final — e quando uma mulher não interessa mais à mise en scène, ela é morta de modo a (supostamente) acrescentar camadas emocionais ao herói impassível.

Resta a música luxuosa, além da busca por uma narrativa total, capaz de conter todos os estilos e variações dentro de uma única construção. Felicita-se a ambição deste concerto, assim como as peças isoladas da partitura. Infelizmente, a narrativa e a construção de personagens nunca recebe igual dedicação por parte do autor, que se contenta com motivos folhetinescos para avançar a trama — mortes súbitas, descobertas de paternidade, rivalidades fraternas. Ora, a aparente ousadia da proposta se associa a um discurso retrógrado. Apostar na figura do Don Juan em 2026, condicionando a presença feminina à fascinação amorosa pelo protagonista, nos leva 40 anos atrás na história do cinema. O longa-metragem se contenta demais com sua audácia musical para desenvolver uma trama à altura de suas pretensões.

Behemoth: Uma Vida Composta em Peças (2026)
4
Nota 4/10

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