
Brigitte Bardot — o mito, a lenda, a atriz, a ativista — foi também profundamente racista. A francesa teve cinco condenações na justiça por racismo e islamofobia. Chamou o território da Reunião de “ilha do diabo”, e seus habitantes, de “selvagens” e “bárbaros”. Manifestou-se incontáveis vezes contra imigrantes e muçulmanos. Casou-se com Bernard d’Ormale, conselheiro de Jean-Marie Le Pen, o fundador da Frente Nacional. A respeito do líder do conservadorismo francês, ela afirmou: “Temos mais em comum do que aparenta. Ele ama os animais, e tem a nostalgia de uma França limpa”. A respeito de Marine Le Pen, filha e sucessora no comando do partido, declarou: “Gosto muito dela. É a única mulher com colhões”. Quando BB faleceu, o Le Monde lhe dedicou um extenso obituário intitulado “Brigitte Bardot, trinta anos de simpatia pela extrema-direita”.
A escolha deliberada de aumentar as virtudes de Bardot e ocultar o racismo transforma este filme numa peça de propaganda, um rebranding à artista recém-falecida.
Em contrapartida, nada disso será encontrado em Bardot, um documentário oficial, “com a participação graciosa de Brigitte Bardot e da Brigitte Bardot Foundation”, segundo os letreiros iniciais. Isso significa que a artista participou do projeto e autorizou este olhar clemente e elogioso à sua figura. A fundação ocupa o terço final da história, convertida em vídeo institucional visando promover o trabalho de proteção animal desempenhado na instituição. Quanto ao racismo, ele será mencionado como um detalhe, sugerindo que Bardot era “impulsiva” no uso das palavras. “Me equivoquei um pouco”, ela confessa (atenção a “um pouco”, no caso). Os entrevistados, por sua vez, insistem que a atriz mantinha tanta admiração pela extrema-direita quanto pela esquerda — declaração jamais verificada em pronunciamentos da própria. Aos espectadores, ainda mais questionável foi a minimização do representante do festival É Tudo Verdade, conforme apresentava o filme à imprensa. Durante a coletiva de imprensa, declarou-se que Bardot cometeu “tropeços” justificados por sua “ingenuidade política”. (O Oscar, por sua vez, preferiu exclui-la do segmento In Memoriam de 2026).
O documentário ressalta, justamente, as conquistas e façanhas de sua personagem. Relembra os filmes, a fama avassaladora, a presença constante dos fotógrafos à sua porta. Concentra-se menos na carreira profissional do que na conversão em mito, despertando uma mistura perigosa de admiração e inveja, de desejo e raiva. Ela mantinha a voz doce e os movimentos libertos; permitia-se filmar em atos sensuais fictícios e traía todos os companheiros, a quem atribuía a culpa de sua infidelidade. Teve um filho, que decidiu não criar, por se sentir incapaz da fazê-lo. O roteiro a descreve, neste momento, enquanto pessoa livre, à frente do seu tempo, com a coragem de dizer e fazer o que as demais não fazem. Ela “ousou”, nas palavras de um entrevistado.
Em especial, paira o discurso a respeito de Bardot enquanto vítima das circunstâncias. Desde a infância difícil (uma mãe rígida, que a tratava por vous ao invés de tu) até as fofocas e tabloides, reforça-se a imagem de uma personagem que teria encontrado soluções provocadoras para resistir a um assédio avassalador. Não se espanta que o documentário recorra a tanta música doce, de teor quase religioso, como forma de absolvê-la — sobretudo na conclusão. Ela teria sido valente por abandonar o cinema no intuito de se dedicar à ecologia, e destemida por enfrentar a chacota dos noticiários, para os quais a pauta ambiental era considerada supérflua. Soube se reinventar, negou os procedimentos estéticos, aceitou o envelhecimento, lutou por causas consideradas justas. Em outras palavras, uma mulher sem defeitos (mesmo as palavras “fortes” são interpretadas enquanto excesso de paixão ativista).
Cinematograficamente, o resultado transborda de pontos questionáveis. Os entrevistados convidados para elogiá-la formam um painel curioso: nada do filho e das pessoas próximas, mas, em especial, top models que enxergam em Bardot um ícone a seguir. A maioria das falas decorre de admiradores com os quais a francesa jamais travou qualquer contato. Estranha escolha dos diretores Alain Berliner e Elora Thevenet, para quem seria mais importante obter a admiração de pessoas distantes aos relatos verificáveis de quem a acompanhou de fato. Na ausência de registros, recorre-se a uma animação bastante genética da personagem na natureza ou, pior ainda, a recriações fictícias de corpos femininos desfocados, de costas, representando a protagonista dançando balé ou ensaiando com Serge Gainsbourg. Nenhum destes instantes possui força dramática, nem contribui à compreensão da biografada.
Outro incômodo decorre dos slideshows elencando todos os amantes, companheiros e maridos de Bardot. Ao lado de cada nome desta extensa lista, os letreiros colocam o ícone de uma aliança, caso ela tenha se casado com o pretendente em questão. Para um filme que supostamente denuncia a exploração sensacionalista da vida íntima, este catálogo de homens constitui um desserviço. O que dizer, então, dos numerosos registros de abatedouros, com seus animais sangrando e mortos, paralegitimar o ativismo de Bardot? Talvez os trechos fossem compreensíveis caso tivessem sido captados pela própria personagem, ou encomendados por ela. Ora, os cineastas buscam imagens aleatórias de matanças, com evidente intuito de chocar, ainda que a relação com o trabalho específico de Bardot seja nula.


Rumo ao final, esta militante incansável recebe um tratamento próximo da hagiografia. O abandono da fama é abordado em modo análogo ao voto de pobreza, ainda que Bardot tenha conservado óbvia notoriedade, e resida numa mansão. Segundo as falas, Bardot abandona o cinema “para servir àqueles que mais sofrem”, e, no desfecho, ela menciona “minha relação com a Virgem Maria”. Após o rápido segmento desculpando o racismo, um diálogo crava: “Mas é preciso compreendê-la. É preciso entender o combate que ela travou contra as injustiças”, como se a nobreza do ativismo ambiental desculpasse o preconceito e as declarações odiosas. Haja malabarismo retórico para desenhá-la, praticamente, enquanto uma nova Madre Teresa de Calcutá — purificada por ter abandonado a fama, a sensualidade e os amantes em prol da vida pacífica e reclusa junto aos animaizinhos.
Por fim, o grande questionamento diante de Bardot diz respeito à ética no documentário. Era fundamental pontuar as conquistas e a importância da artista no imaginário francês e mundial — algo que o filme executa com competência. Em contrapartida, era igualmente importante mergulhar nos aspectos nada elogiáveis do mito. Aí reside, enfim, a verdadeira fascinação por Bardot: como uma pessoa tão amada é capaz de demonstrar tanto ódio? Como consegue ser tão benevolente e carinhosa com as focas, e tão raivosa com imigrantes e muçulmanos? De que maneira pode representar um ícone feminista e uma estandarte da extrema-direita, em simultâneo? Ora, sem nenhuma ingenuidade, as últimas palavras pronunciadas neste filme são “Não me arrependo de nada”. Qualquer obra visando honrar o legado de Bardot precisaria contemplar todos estes aspectos, com igual dedicação. A escolha deliberada de aumentar as virtudes e ocultar os vícios transforma este filme numa peça de propaganda, um rebranding à artista recém-falecida. Bardot certamente merece um filme, mas não este aqui.




