Morte, Vida e Sorte (2023)

Amigas sem dinheiro

título original (ano)
Morte, Vida e Sorte (2023)
país
Brasil
gênero
Drama, Comédia
duração
101 minutos
direção
Alexandre Setembro
elenco
Maria Paula Lima, Eva Bensiman, Luiza Valio, Rodrigo Veloso, Ranieri Guerra, Guilherme Gomes, Williams Mezzacarpa
visto em
Cinemas

Tati (Maria Paula Lima), Bebel (Eva Bensiman) e Duda (Luiza Valio) são atrizes que moram juntas, e preparam uma nova peça de teatro estrelada pelas três. No entanto, enfrentam graves problemas financeiros. Além de não terem dinheiro para o espetáculo, precisam lidar com o aluguel atrasado e as despesas do apartamento. A única delas com um emprego em paralelo, de garçonete, perde o cargo devido aos atrasos. Para elas, viabilizar a peça se prova tão urgente quanto encontrar dinheiro para os gastos diários. O que fazer?

Morte, Vida e Sorte possui o mérito de inserir suas protagonistas numa dinâmica social específica. Trata-se de três jovens de classe média, vivendo em um apartamento confortável, vindas de família rica, ou podendo contar com um sugar daddy repleto de dinheiro. Em outras palavras, elas se encontram em crise, porém estão distantes de uma condição miserável. Parte do caos se deve ao caráter irresponsável do trio, que esquece de preparar documentos para um edital, e não se lembra de pagar a conta de luz.

Mesmo assim, o diretor Alexandre Setembro manifesta a tendência a desculpá-las pelas trapalhadas, mentiras e transgressões, porque são simpáticas, divertidas, e apenas desejam viver de arte. O projeto se filia ao cinema indie norte-americano na propensão à condescendência: sim, elas enfrentam tempos difíceis, em parte devido à própria inabilidade de funcionar socialmente. Mas são tão engraçadas quando vendem um relógio verdadeiro acreditando ser falso, não é? A vontade positiva de não julgá-las moralmente se traduz, neste caso, em um olhar paternalista em relação às mulheres de quase 30 anos, comportando-se como adolescentes.

Morte, Vida e Sorte possui um ritmo ágil, uma construção polida. A simplicidade da produção se adequa a uma narrativa igualmente sucinta. Os criadores possuem plena consciência do porte desta empreitada.

Outros aspectos remetem às produções dos Estados Unidos, a começar pela escolha de um preto e branco de baixo contraste, que borra a temporalidade e supostamente valorizaria a geografia dos planos e dos enquadramentos. No entanto, o cineasta jamais aposta em construções particularmente complexas para representar o isolamento, a ambição, o caos das heroínas. Prefere, em contrapartida, apostar nos close-ups quando conversam, e principalmente nos planos de conjunto que as exibam lado a lado, sentadas ou caminhando pelas ruas do centro de São Paulo.

Caso permitisse a câmera tremida e uma dificuldade de vida oriunda das classes desfavorecidas, apostando em interações um pouco mais livres (ou improvisadas), talvez se filiasse ao mumblecore, que produziu tantos filmes bons quanto jovens cineastas acreditando no amadorismo enquanto valor de produção. Ora, Morte, Vida e Sorte possui um ritmo ágil, uma construção polida, e nunca transparece, em termos de fotografia ou montagem, qualquer desleixo por parte dos criadores. A simplicidade da produção se adequa a uma narrativa igualmente sucinta, baseada em poucos dias e locações, com pouquíssimos personagens em cena. Os criadores possuem plena consciência do porte desta empreitada.

A narrativa é prejudicada, em contrapartida, pela obsessão monotemática com a falta de dinheiro. Compreende-se que o autor tenha explicitado a dificuldade de Tati, Bebel e Duda, na chave da progressão, para justificar atitudes extremadas adiante. No entanto, cada cena aparenta existir unicamente para sublinhar o desafio já anunciado. Elas se perguntam como vão conseguir dinheiro, o que fazer sem dinheiro, o que podem vender para conseguir dinheiro. As cenas no estúdio de ensaios, no apartamento, na lanchonete, pelas ruas, servem unicamente para reforçar esta informação.

Por isso, o trio deixa de existir em outras esferas. O roteiro deixa de construir qualquer forma de intimidade entre Duda e o namorado Vicente (Guilherme Gomes). Desconhecemos outras peças que as amigas tenham feito, os planos para o futuro além da peça, os lugares onde gostam de sair à noite, os amigos do trio pela noite paulista. Não as vemos cozinhando, cuidando da casa, assistindo a uma peça ou filme. As raras menções aos pais das atrizes dizem respeito unicamente — adivinha? — à possibilidade de conseguirem dinheiro. Teria sido importante que o conflito central constituísse uma parte integrante da subjetividade delas, mas não o motivo integral de sua existência narrativa.

Felizmente, o trio apresenta atuações bastante sólidas. Qualquer impressão de um “filme universitário” ou uma empreitada caseira, entre amigos, se dissipa diante do trabalho dedicado das atrizes, que compõem modos distintos de falar ou agir, provocando boas interações dramáticas. Elas permitem acreditar de fato nesta amizade, além de uma forma de liberdade intermediária entre a inconsequência e a loucura (um aceno que aflora na cena final). Nenhuma das três se sobrepõe às demais, como se a força de uma surgisse apenas diante dos ganchos fornecidos pela outra. É difícil produzir tamanho entrosamento em um longa-metragem de estreia.

Morte, Vida e Sorte se encerra como uma obra repleta de boas intenções e ideias, nem sempre realizadas a contento. Talvez a maior prova desta impressão decorra do desfecho, um auge dramático onde todas as pontas de amarram. De certo modo, a trama inteira constitui uma preparação para este clímax. Ora, a cena é cortada com uma rapidez incompreensível pela montagem, enquanto as atrizes manifestam uma multiplicidade de sentimentos. A experiência se encerra no ápice, sem direito a um respiro pós-catarse, nem mesmo a apreciação devida do choque. Apenas sobem os créditos.

Mesmo assim, o longa-metragem comprova a possibilidade de se encontrar projetos profissionais onde o baixíssimo orçamento não implica falhas de produção que culminam com o diretor explicando mais tarde, em entrevistas: “Infelizmente, só pudemos fazer assim”. Trata-se de uma obra coesa, cujas eventuais falhas (de roteiro, principalmente) não dizem respeito às circunstâncias de filmagem, nem de finalização. A comédia dramática desperta interesse nas próximas iniciativas de Setembro, além dos papéis seguintes de Maria Paula Lima, Eva Bensiman e Luiza Valio, que demonstram forte potencial a ser aproveitado pelo audiovisual brasileiro.

Morte, Vida e Sorte (2023)
6
Nota 6/10

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