Em O Olhar Misterioso do Flamingo, “a violência se mistura com o amor”

A partir de 26 de março, os cinemas brasileiros recebem o drama que representou o Chile no Oscar, depois de vencer a mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes.

O Olhar Misterioso do Flamingo acompanha o amadurecimento da pequena Lidia (Tamara Cortes), em uma casa de travestis. Ela tem muito afeto pela mãe Flamingo (Matías Catalán) e pela avó Jiboia (Paula Dinamarca), embora sofra o preconceito das outras crianças. Isso porque se multiplicam os mitos a respeito de uma misteriosa maldição que, segundo os homens das vizinhanças, se deveria ao olhar penetrante da Flamengo. Quando uma noite de violências transforma a casa Alaska, Lidia busca uma maneira de revidar.

O diretor Diego Céspedes, o ator Matías Catalán e a atriz Paula Dinamarca estiveram em São Paulo para apresentar o drama e conversar com a imprensa. Eles discutem com o Meio Amargo as escolhas de roteiro, elenco e a importância desta iniciativa para o cinema queer — embora evitem as comparações com o chileno Uma Mulher Fantástica, vencedor do Oscar.

Por que decidiu contar esta história pela perspectiva de uma criança?
Diego Céspedes: Hoje em dia, há um discurso de ódio tão forte sobre como educar as nossas crianças, que contar a história do ponto de vista de uma menina quer dizer que, no geral, as crianças não veem algo tão estruturado. Elas só percebem se são amadas, e reconhecem a ternura. A Lidia não compreende o existe no meio das pernas das pessoas que a criam, nem define quem elas são. Ela apenas sabe que são pessoas que a amam, e se relaciona com elas a partir desse lugar puramente humano, da proteção básica.

Por que decidiram abordar os preconceitos em relação ao HIV de forma metafórica, sem mencioná-lo explicitamente?
Diego Céspedes: É claro que o filme está ambientado nos anos 80, mas é uma história muito moderna, porque, no fim, não estamos falando diretamente do HIV. Falamos do medo que está por trás, do preconceito, e de como lidamos com a informação e com a verdade. Antes, não havia acesso à verdade, então as pessoas inventavam um monte de coisas. Agora, há muita informação, e a verdade está disponível, mesmo que escondida. Então, o filme tenta refletir sobre como nos aproximamos da verdade e como usamos os nossos medos para ocultá-la.

Flamingo é uma figura mística, lendária. Como enxerga esta personagem?
Matías Catalán: Acho bonito que Flamingo tenha um percurso quase divino, devido a tudo que acontece com ela. Essa figura se mantém presente ao longo de todo o filme. Ela desperta em Lidia a vontade de compreender o que está acontecendo naquela casa, e o que houve de fato naquela noite. Antes dessa violência, quando Flamingo estava ao seu lado, talvez houvesse muitas coisas que a menina odiava, ou que não lhe interessava saber. Mas agora ela se interessa. O filme começa de fato quando Lidia abre um pouco o olhar para quem a rodeia, para a sua família e suas relações. É lindíssimo, como a cena do sêmen, e a cena do sexo através dos olhos. Sem o realismo mágico, estas coisas não poderiam ser feitas.

Já a Jiboia funciona como uma mãe para todas as mulheres da casa, e também para a menina, mais tarde. Como enxerga o papel dela nesta narrativa?
Paula Dinamarca: Ela é a mãe de Flamingo, quem a recrutou, assim como as outras travestis. Devido à difícil vida que levaram, decidiu tirar o nome de mulher delas, e colocar nomes de animais. Então a interação na casa se parece com um baile de máscaras, porque as moradoras se expressam por códigos. Acho que, com o retrocesso que nosso país vai ter, com tudo isso que está começando a acontecer, vamos precisar destes códigos para nos sentirmos queridas e unidas.
Por exemplo, ela batiza de Flamingo para não usar o nome oficial dela, porque dizer esse nome pode ser perigoso. Ou então com a Girino: é melhor não dizer o nome de registro, porque isso pode levar à sua morte. Então, a Jiboia se torna mãe da casa toda, porque tem o temperamento mais forte, só isso. Ela tem muito amor, mas não é um amor romântico — talvez um amor revolucionário, eu diria.

Este é um filme muito físico. Dentro da casa, as meninas se movem como numa coreografia. Como foi preparado o elenco?
Diego Céspedes: O elenco é muito diverso, o que também exige uma forma de direção muito diversa. Eu conheço cada um muito bem — ou melhor, aprendi a conhecê-los — e, a partir das personalidades, a gente constrói uma maneira de dirigir ou de conversar. Muitas coisas vinham deles mesmos, e, às vezes, a gente se prendia mais ao roteiro. Normalmente, o processo consistia em pensar muito como o filme seria filmado, mas depois retirar tudo isso para nos adaptar a como cada pessoa se sentia naquele dia. Então eu diria que foi algo muito planejado e pensado, mas, também, com muita fluidez.
Paula Dinamarca: Se você parar para pensar, os humanos, como espécie, diante de situações extremas, usam a dança para aliviar o estresse. É isso que acontece na casa Alaska. Sempre chega gente ali, mesmo que sejam dois ou três gatos pingados. O evento acontece do mesmo jeito, e tem dança, tem comida, tem celebração, independentemente dos problemas. Talvez a gente funcione assim também na vida, enquanto movimento LGBT. Você sempre vê um gay rindo, mas nunca sabe o calvário que ele pode estar carregando por dentro. Ou você vê alguém, de qualquer orientação, ouvindo uma música. A música é algo que acompanha o ser humano desde sempre, não para anestesiar, mas para, através do movimento do corpo, encontrar um código, a solução para algum problema. Eu também acho que éramos um grupo que não tinha vergonha.
Matías Catalán: Sem dúvida. Somos pessoas muito desinibidas, que não têm medo de nada, e não estamos nem aí pra nada. Se o Diego dissesse: “Fica de cabeça para baixo”, a gente ficaria, sem problema. Não fazemos parte de um círculo mais tradicional de atuação, onde o ator fica muito na sua bolha. Aqui, todo mundo estava disposto a fazer qualquer coisa que a cena pedisse. Nesse sentido, acho que o resultado ficou muito teatral também. Gosto que isso afaste o filme da contemplação: você vê a profundidade dos personagens, mas não fica preso nisso.

Isso me parece particularmente importante por ser uma história repleta de violências, mas que não ocorrem de maneira explícita.
Diego Céspedes: Estes são mundos muito atravessados pela violência, mas, como disse a Paula, também atravessados pelos sorrisos, pela humanidade. É isso que torna os personagens tão reais: a violência se mistura com o amor. Então, quando vemos a violência, mesmo que não seja de forma explícita, ela aparece misturada com momentos de humor, de risadas. Isso confere autenticidade ao filme.

Para vocês, o que significou a escolha para representar o Chile e o cinema chileno no Oscar?
Diego Céspedes: Bom, nós tentamos! Foi algo bonito, não pelo Oscar em si, mas pelo voto de confiança de outras pessoas do cinema chileno. Além disso, este é um filme que realmente muda as coisas no Chile. Antigamente, todas as pessoas que chegavam ao Oscar vinham de grandes empresas, de classes altas. Agora, estamos abrindo caminho para outros grupos e outros mundos. É ótima a visibilidade que esse processo nos dá. Todo esse caminho que tentamos fazer foi bonito, porque o filme aborda a diferença de forma concreta.

Depois da vitória de Uma Mulher Fantástica, e agora, com O Olhar Misterioso do Flamingo, temos a impressão de um cinema queer vibrante no Chile.
Paula Dinamarca: Eu aconselharia evitar as comparações, porque são dois caminhos cinematográficos completamente diferentes. Além das diferenças em recursos materiais, também há histórias muito distintas. Nós viemos de outro lugar. Nada contra a protagonista de Uma Mulher Fantástica, mas nós viemos da escola travesti. Se eu tivesse que falar da minha história, posso dizer que a Jiboia é uma travesti que se construiu a partir das travestis, da velha escola. Ela não teve apoio da família, nem dos médicos. Então é importante evitar essa comparação. Não é algo pessoal, mas é uma questão de classe, entende? Ninguém na equipe e no elenco tem recursos econômicos e acadêmicos para estar onde estamos hoje. Só chegamos aqui pela nossa garra, pela estratégia e pela direção também.
Diego Céspedes: A sua pergunta toca em algo latino-americano: nas classes mais baixas, existe um forte senso de comunidade, sobretudo na América Latina. Dentro desta comunidade, ainda existem muita diferenças. Acho que, por isso, o cinema queer está ganhando força. É muito interessante olhar para as dissidências, porque, no fundo, são os mesmos problemas que outras pessoas têm, mas ampliados com uma lupa, porque as dissidências vivem isso de forma mais intensa. Não é a mesma coisa acompanhar os dilemas de um casal heterossexual e aqueles de um casal gay, ou das travestis. Pode ser o mesmo problema, mas a intensidade é outra. Isso torna tudo mais interessante, e abre mais possibilidades na hora de criar um roteiro ou um personagem. Talvez seja por isso que o Oscar, e certos acadêmicos, prestem atenção nisso, porque consideram esta história mais interessante do que um casamento cis-hétero.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.