
A mãe acaba de receber o diagnóstico de uma doença em fase terminal. O irmão dela pensa em qual vida poderia ter após se separar da esposa e se assumir gay. O pai depressivo é suspenso da escola onde trabalha. O filho pequeno acredita, devido à fala de uma vidente mirim, que possui apenas uma semana de vida. O avô definha na cama de um asilo. A avó sonha em morrer, e implora aos demais por ajuda nesta tarefa. Todos os personagens deste filme, sem exceção, são confrontados ao desejo de morte, ou à necessidade de lidar com a morte dos outros.
Logo, Idílico dificilmente poderia ser descrito como um projeto particularmente sutil. Pelo contrário, o diretor e roteirista Aaron Rookus abraça a comédia do absurdo, sugerindo que quaisquer pessoas, independentemente de idade e valores morais, são confrontadas ao medo (ou desejo) de partir. Trata-se de personagens que passam suas vidas pensando na morte, e que atravessam profundas crises existenciais em simultâneo. O roteiro combina tentativas de suicídio (no plural) com funerais duplos, anúncios de óbito durante o sexo e beijos redentores antes da morte. Mergulha-se num panorama obsessivo, para o qual os personagens valem unicamente por sua relação com o tema central.
Idílico pode despertar certo desconforto no que diz respeito ao olhar do diretor para seus personagens. Rookus sente pena deles? Considera-os patéticos, heroicos?
Por se tratar de uma obra coral, a montagem se esforça para saltar entre meia dúzia de familiares, atribuindo importância semelhante a cada um deles. É certo que determinadas figuras ganham aprofundamento psicológico maior: a dissociação de Annika (Hadewych Minis) se sobressai em relação ao desejo injustificado e abrupto da avó, buscando morrer o quanto antes. Além disso, nota-se certa dificuldade em conectá-los para além dos evidentes laços de sangue. Ocupam praticamente segmentos autônomos, interferindo pouco na vida uns dos outros (algo inesperado, visto que os entrelaces costumam representar a grande ambição em mosaicos sociais do gênero).
Ao menos, nota-se certa leveza na condução deste painel de improbabilidades. O diretor nunca visa despertar um debate realmente complexo e profundo a respeito destas vivências de classe média, somente confrontá-las a um tema em comum. Assim, diverte-se em examinar as diferentes reações ao mesmo estímulo: a melancolia do marido, a paranoia da esposa, a indiferença do filho pequeno, a fúria da avó. Estamos mais próximos da sátira corrosiva de Sonhar com Leões (outra comédia sobre o suicídio) do que do estilo pesaroso e autoimportante do alemão Dying: A Última Sinfonia, por exemplo.
Mesmo assim, a costura de tons pode despertar certo desconforto no que diz respeito ao olhar do diretor para seus personagens. Rookus sente pena deles? Considera-os patéticos, heroicos? Ou os admira com indiferença? O posicionamento não é claro. Num momento de proliferação de comédias cínicas, que se divertem em menosprezar a tudo e todos, a ausência de uma perspectiva clara prejudica o resultado. Nem mesmo seus símbolos se desenvolvem a contento: o voo com estátua de avestruz remete ao início de A Doce Vida, de Fellini (seria uma homenagem, uma paródia?), enquanto o retrato dos romances gays resulta ambíguo (entre o ridículo e o afetuoso).
Talvez o ápice desta indefinição conceitual resulte nos segmentos onde Annika, a cantora de ópera confrontada à doença incurável, descobre um duplo de si mesma. A mulher se persegue, percebendo que a cópia sai pelas ruas e faz compras em seu lugar. Ora, jamais descobrimos se a versão real sente asco desta impostora, ou deseja experimentar a realidade da outra. O surgimento deste recurso será tão repetindo quanto seu desaparecimento na trama — porque a montagem precisa voltar à história dos demais familiares. Assim, a sequência num teatro vazio soa anódino, como se tivesse sido encerrado cedo demais pela montagem, antes de cumprir sua função narrativa. De mesmo, o caminhar do avô nu sobre os carros e a queda da estátua de avestruz são mais impressionantes visualmente do que plausíveis.


Nem mesmo esta opção se define: Idílico efetua várias piscadelas ao realismo fantástico, porém, evita mergulhar de fato no delírio, ou na suspensão do real, enquanto forma de representar tantas psiques estafadas. Assim, o longa-metragem opera no meio do caminho entre uma exploração psicológica e uma observação meramente fatual das ações. A prova deste último reside na necessidade de fazer com que tanto a dor quanto o humor sejam necessariamente exteriorizados no corpo: a notícia do óbito familiar suspendendo o sexo oral; o ensaio fotográfico após o descobrimento da doença; a sugestão de loucura indicada pela nudez em público.
Nota-se a dificuldade em representar a dor sem convertê-la, de certa forma, na ironia evidente dos registros inversos: a pulsão de morte contra a pulsão de vida, a falta de vigor do avô contra o excesso de vigor ao saltar em carros; o apagamento da mulher contra a sua multiplicação, na forma de duas pessoas. Apesar de alguns tropeços ou simplificações, pelo menos a comédia dramática conquista momentos singelos (o afeto entre dois meninos, o abraço terno no garoto de programa) capazes de minimizar a interpretação de um olhar jocoso. Rookus prefere admirar seus personagens a oferecer uma reflexão a partir deles. Pelo menos, constrói um raro feel good movie da solidão, encontrando certa democratização nas histerias contemporâneas por meio de nossa relação conflituosa com a morte.




