Idílico (2025)

A classe média pensa na morte

Título original (ano)
De Idylle (2025)
país
Holanda
gênero
Comédia, Drama
duração
99 minutos
direção
Aaron Rookus
elenco
Hadewych Minis, Eelco Smits, Nabil Mallat, Isacco Limper, Beppie Melissen
visto em
49ª Mostra de São Paulo (2025)

A mãe acaba de receber o diagnóstico de uma doença em fase terminal. O irmão dela pensa em qual vida poderia ter após se separar da esposa e se assumir gay. O pai depressivo é suspenso da escola onde trabalha. O filho pequeno acredita, devido à fala de uma vidente mirim, que possui apenas uma semana de vida. O avô definha na cama de um asilo. A avó sonha em morrer, e implora aos demais por ajuda nesta tarefa. Todos os personagens deste filme, sem exceção, são confrontados ao desejo de morte, ou à necessidade de lidar com a morte dos outros.

Logo, Idílico dificilmente poderia ser descrito como um projeto particularmente sutil. Pelo contrário, o diretor e roteirista Aaron Rookus abraça a comédia do absurdo, sugerindo que quaisquer pessoas, independentemente de idade e valores morais, são confrontadas ao medo (ou desejo) de partir. Trata-se de personagens que passam suas vidas pensando na morte, e que atravessam profundas crises existenciais em simultâneo. O roteiro combina tentativas de suicídio (no plural) com funerais duplos, anúncios de óbito durante o sexo e beijos redentores antes da morte. Mergulha-se num panorama obsessivo, para o qual os personagens valem unicamente por sua relação com o tema central.

Idílico pode despertar certo desconforto no que diz respeito ao olhar do diretor para seus personagens. Rookus sente pena deles? Considera-os patéticos, heroicos?

Por se tratar de uma obra coral, a montagem se esforça para saltar entre meia dúzia de familiares, atribuindo importância semelhante a cada um deles. É certo que determinadas figuras ganham aprofundamento psicológico maior: a dissociação de Annika (Hadewych Minis) se sobressai em relação ao desejo injustificado e abrupto da avó, buscando morrer o quanto antes. Além disso, nota-se certa dificuldade em conectá-los para além dos evidentes laços de sangue. Ocupam praticamente segmentos autônomos, interferindo pouco na vida uns dos outros (algo inesperado, visto que os entrelaces costumam representar a grande ambição em mosaicos sociais do gênero).

Ao menos, nota-se certa leveza na condução deste painel de improbabilidades. O diretor nunca visa despertar um debate realmente complexo e profundo a respeito destas vivências de classe média, somente confrontá-las a um tema em comum. Assim, diverte-se em examinar as diferentes reações ao mesmo estímulo: a melancolia do marido, a paranoia da esposa, a indiferença do filho pequeno, a fúria da avó. Estamos mais próximos da sátira corrosiva de Sonhar com Leões (outra comédia sobre o suicídio) do que do estilo pesaroso e autoimportante do alemão Dying: A Última Sinfonia, por exemplo. 

Mesmo assim, a costura de tons pode despertar certo desconforto no que diz respeito ao olhar do diretor para seus personagens. Rookus sente pena deles? Considera-os patéticos, heroicos? Ou os admira com indiferença? O posicionamento não é claro. Num momento de proliferação de comédias cínicas, que se divertem em menosprezar a tudo e todos, a ausência de uma perspectiva clara prejudica o resultado. Nem mesmo seus símbolos se desenvolvem a contento: o voo com estátua de avestruz remete ao início de A Doce Vida, de Fellini (seria uma homenagem, uma paródia?), enquanto o retrato dos romances gays resulta ambíguo (entre o ridículo e o afetuoso).

Talvez o ápice desta indefinição conceitual resulte nos segmentos onde Annika, a cantora de ópera confrontada à doença incurável, descobre um duplo de si mesma. A mulher se persegue, percebendo que a cópia sai pelas ruas e faz compras em seu lugar. Ora, jamais descobrimos se a versão real sente asco desta impostora, ou deseja experimentar a realidade da outra. O surgimento deste recurso será tão repetindo quanto seu desaparecimento na trama — porque a montagem precisa voltar à história dos demais familiares. Assim, a sequência num teatro vazio soa anódino, como se tivesse sido encerrado cedo demais pela montagem, antes de cumprir sua função narrativa. De mesmo, o caminhar do avô nu sobre os carros e a queda da estátua de avestruz são mais impressionantes visualmente do que plausíveis.

Nem mesmo esta opção se define: Idílico efetua várias piscadelas ao realismo fantástico, porém, evita mergulhar de fato no delírio, ou na suspensão do real, enquanto forma de representar tantas psiques estafadas. Assim, o longa-metragem opera no meio do caminho entre uma exploração psicológica e uma observação meramente fatual das ações. A prova deste último reside na necessidade de fazer com que tanto a dor quanto o humor sejam necessariamente exteriorizados no corpo: a notícia do óbito familiar suspendendo o sexo oral; o ensaio fotográfico após o descobrimento da doença; a sugestão de loucura indicada pela nudez em público. 

Nota-se a dificuldade em representar a dor sem convertê-la, de certa forma, na ironia evidente dos registros inversos: a pulsão de morte contra a pulsão de vida, a falta de vigor do avô contra o excesso de vigor ao saltar em carros; o apagamento da mulher contra a sua multiplicação, na forma de duas pessoas. Apesar de alguns tropeços ou simplificações, pelo menos a comédia dramática conquista momentos singelos (o afeto entre dois meninos, o abraço terno no garoto de programa) capazes de minimizar a interpretação de um olhar jocoso. Rookus prefere admirar seus personagens a oferecer uma reflexão a partir deles. Pelo menos, constrói um raro feel good movie da solidão, encontrando certa democratização nas histerias contemporâneas por meio de nossa relação conflituosa com a morte.

Idílico (2025)
6
Nota 6/10

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